domingo, 8 de março de 2009

sorria voce tá na bahia

alfredo hervías y mendizábal
alfredohervias@gmail.com


Non abominaberis Idumeum quia frater tuus est nec Aegyptium quia advena fuisti in terra eius.
Não abominarás o edomeu, pois é teu irmão; nem abominarás o egípcio, pois estrangeiro foste na sua terra (Dt 23,7)

“Dijo Tennyson que si pudiéramos comprender una sola flor sabríamos quiénes somos y qué es el mundo. Tal vez quiso decir que no hay hecho, por humilde que sea, que no implique la historia universal y su infinita concatenación de efectos y causas”
(El Zahir, Jorge Luis Borges)

E porque estava farto de um mundo sem a dignidade do mistério.



Um pequeno alienígena

“I’m an alien, I’m a little alien, I’m an english man in New York”, popularizou Sting numa canção que parecia escrita para alguém que conheço bem, um outro pequeno alienígena emocional.
Nasceu com uma estranha vocação: viver. Mas nunca ensinaram-lhe a fazê-lo, pelo contrário, o mundo dos sentimentos incitaram-lhe a disfarçá-lo, desde criança. Esse mecanismo o levou a um entupimento emocional, do qual não foi bem consciente.
Que um pai sinta ciúmes por não ter se casado com uma mulher, mas sim como uma mãe, considerando usurpado o seu papel por uma espécie de macaco que nasceu contrariando o fraudulento controle de natalidade que inventou um tal Ojino, ainda por cima com a bênção da Igreja, é foda!

Aprendi a amar
seres invisíveis
o dia que morreu a minha mãe,
quando o meu pai sugeriu
silenciar esse nome,
retirar fotografias
esquecer aquele perfume.
Algumas lágrimas
permitem-me vislumbrar a realidade
a mesma que resisto respirar
a mesma que tem-me embalado
em saudades e pequenos avelórios,
tantos
que não consigo, ainda não,
pronunciar um som
tão simples
como o ar.

Decidi viver em Portugal porque procurava duas coisas fundamentais: colocar distância do meu pai e integrar-me na natureza. Percebi, desde o primeiro momento, o aconchego dos elementos: terra, mar, ar e fogo, que consegui decodificar na Praia de Adraga. Não foi, pois, casual que terminasse por instalar-me no Cabo da Roca, na falésia ao lado do farol.
Fui compensando carências com afetos que reproduziam códigos de funcionamento “amorosos” paternos. Isso, junto com o sentimento de culpa incutido pelo catolicismo que me gerou conflito ante qualquer manifestação de felicidade, em especial física e sexual, dando por bem-vinda todo tipo de desgraça e contrariedade, estimuladora identificação com Jesus crucificado, não fizeram senão aumentar o meu desconcerto.
Consolei-me depois colecionando coisas bonitas, objetos que me ligavam à beleza e estimulavam um bem-estar que anelava com sofreguidão mais fora do que dentro de mim.
Cheguei a um beco sem saída. Não percebia quem eu era nem porque aceitava ser tão maltratado emocionalmente na intimidade. De onde surgia esse meu conformismo com a infelicidade?
Na minha primeira viagem ao Brasil, no ano 2000, em uma noite onde a dose de ignorância de mim próprio ultrapassou o dignamente aceitável, implorei apoio como pude e soube naquele momento. Dai este poema:

Pedi ajuda ao infinito
depois de anos de brincar as escondidas.
Perdido num tortuoso labirinto,
ilusório protetor,
desejava, finalmente, encontrar-me
sem imaginar, nem remotamente,
qual o caminho.
O meu compromisso foi aceitar,
aceitar “toreramente”
a investida da minha alma.
Apavorado até o limite
e consciente da arrogância,
supliquei um sinal,
e uma estrela fugaz
rasgou o céu cintilante de Pipa,
espelho de um mar de sereias,
netunos, tartarugas e golfinhos.
O meu último salva-vidas
eras tu, meu amor,
igualmente acorrentada
em pânicos ancestrais.
Aferrei-me a ti
para evitar o redemoinho
do meu próprio inferno.
Mas, os duendes estavam contigo,
como sempre,
brincando com os teus fantasmas
a preservar-te da consciência,
insensibilizando-te à dor
intransmissível
reflexo da minha alma.
Não consegui sustentar-te a mirada
e soltei-me de ti
quebrando-me em mil pedaços.
Cumpri a minha parte,
no avião de regresso a casa,
morri.
O Ser Supremo, consequente,
deu-me a oportunidade
de nascer de novo,
num parto de sofrimento insuportável
resgatador de luz e de esperança.

A partir da minha separação e posterior divórcio, fechei um episódio sem saber qual viria a seguir. Tinha claro uma coisa: não merecia tanto maltrato e queria ser feliz.
Portugal começou a deixar de fazer sentido. Senti-me durante anos confortável nessa aflição assumida, nessa ausência de humor em que considerava à tristeza como parte do nosso fado e à alegria como algo do que convém desconfiar.
Se tivesse a possibilidade de criar uma corretora que investisse num suposto mercado de valores emocional, teria ficado milionário comprando espanhóis pelo seu valor real e vendendo-os pelo que eles consideram a sua cotação de mercado. Com os lucros, faria opas para angariar o maior número possível de ações de auto-estima portuguesa, para trocá-las pelo seu preço real. Seria melhor negócio do que a ZARA, sem dúvida.
Essa atitude lusitana, tão comum, de “você não sabe com quem está falando!”, “você não sabe quem eu sou!”. Dá vontade de rir. Como se fosse assim tão complicado de responder! Você é um pateta, com uma considerável crise de identidade, cujo diagnóstico de gravidade só se pode emitir, quando contrastado com a fantochada que pretende representar. Os efeitos disso, em Portugal, costumam ser tão medíocres como as ditas questões. No pior dos casos, passa por travas administrativas, ou por experimentar em Caxias uma pica mais ou menos grossa. No Brasil, tem menos conversa de treta, mas as conseqüências são imprevisíveis. Podes levar um tiro nos cornos, porque um miúdo esnifou cola demais, ou de menos. Ou talvez quis comprovar se a sua pistola estava ou não encravada. Nesta fase resulta-me mais coerente assumir as implicações desta segunda opção. Por que?

A vida aqui
é desconcertantemente simples.
Habituei-me
a receber tristeza
e estratégias para camuflar a depressão
onde agora respiro vento de sorrisos.
Resulta fácil deixar-te levar
a temperatura ajuda,
a temperatura do ar,
a temperatura da água
a temperatura da gente,
alimentadas no fogo
que funde os céus
com a mãe terra.

Em Trancoso, a sete de dezembro de 2005

A partir desta premissa decidi reformular os meus objetivos e permitir-me algo tão elementar como ser e amar, dispensando remorsos por sair dos códigos estabelecidos. Mas aprender e conseguir fazê-lo são etapas diferentes, complicadas no meu caso por ter estado tempo demais disperso da minha vocação emocional.
Sinto-me agora um adolescente com estrutura: fascinado pelo desafio da existência, num país que não te poupa a nada e que utiliza um abecedário amplo, onde cada dia surgem palavras que achei nunca iria ouvir antes.
Capote argumentava que o deslumbramento é uma característica da infância, que fica atenuada com a idade e que, de forma ocasional se a pessoa der sorte, encontramos pontes até essa infância e as atravessamos.
Brasil é um mundo. Brasil vibra. É difícil ser feliz no Brasil ante tanta injustiça a tua volta. Mas é igualmente difícil ser infeliz ante tamanha manifestação de energia.
Estas minhas passagens das pontes as compartilho através da escrita. E conseguindo que alguém me leia contribui-se a minha emancipação e quem sabe a de algum outro também.



Please don’t go

Admito que minha capacidade para manter conversas de treta é limitada. Por isso, resulta-me penoso assistir a recepções de embaixadas, por maior afinidade que sinta pelo país em questão.
Uma vez tomada a decisão de vir morar para Brasil, pareceu-me justo e necessário, o meu dever e salvação, aceitar o convite diplomático para a apresentação do último livro de Nelson Mota, na residência dos embaixadores brasileiros em Lisboa. Nunca se sabe o que nos pode deparar o destino.
Após um par de horas de bolinhos de bacalhau e futilidade, surgiu por entre o jardim uma figura dessas que achamos que só existem de mentira. Pensei para mim: “Mulheres assim não devem ser tão infrequentes no Brasil, porém temo que ficarão um pouco fora do meu alcance”. O fato de assumir que ganhar dinheiro não seria uma das minhas prioridades me aproximava da autenticidade emocional, afastando-me nas estatísticas de estereótipos de amor e luxo.
Com estranha naturalidade aceitei que esta Vénus, recém aparecida, viesse na minha direção de braços abertos e me dissesse: “Senti imensa necessidade de abraçar você”. Eu retribui: “A mim também aconteceu-me a mesma coisa”. Ainda não sei por que misteriosa razão aceito, sem conflito estas travessuras do destino.
Morena clara, sorridente, franca, com um vestido sustentado de forma mágica numa estrutura corporal que se adivinhava uma dádiva divina para uma alma bela, transmitia afeto e sensualidade. Como me resulta mais fácil discursar sobre emoções que vivê-las, não foi complicado a troca carinhosa verbal. Entretanto, continuava sem saber quem era esse ser maravilhoso e, resulta curioso, em momento nenhum achei que pudesse tratar-se de uma confusão, nem sequer, quando assegurou que tinha a certeza de que a gente se conhecia. Um dos atônitos presentes pronunciou seu nome, Ive Mendes, na altura em que ela adulava a minha guayabera.
Fez me luz: “No teu último concerto em Lisboa”... “Eu cantei uma canção de mão dada consigo”, me interrompeu em seguida. Três meses antes, tinha assistido ao seu show, numa pequena sala de Alfama. Como cheguei folgado de tempo, fiquei meio que deitado num canto do palco, esperando que começasse o espetáculo. Resulta paradoxo, mas ao entrar os músicos ninguém corrigiu a minha estratégica colocação e estive toda a sessão no meio de cabos e instrumentos, aconchegado por melodias que conhecia de cor e salteado. Finalizando o show, Ive Mendes puxou uma cadeira e sentou-se aos meus pés, entoando uma canção que me retrotraia a minha adolescência, uma versão personalizada e reconfortante de If you leave me now. Chegada a hora de repetir o estribilho, apanhou a minha mão e senti a sua poderosa inocência, durante os intermináveis please don’t go, don’t go...
Ao terminar o recital, tive um impulso irrefreável para aproximar-me ao camarim e expressar, nem mais: “É fácil te perceber, quero partilhar mais coisa com você, quero que leia os meus poemas, adoraria passear de mão dada consigo, dormir junto, acordar junto”. Mas, como era previsível, os meus medos e inseguranças travaram qualquer ponta de espontaneidade.
Agora, olhos nos olhos, disse-lhe: “A tua maneira de te mexer e, sobretudo, o jeito como te referis ao teu irmão no show, fez com que me sentisse ligado a ti”. Ela mudou seu tom de voz: “É esquisito que você fale do meu irmão, precisamente hoje, que faz um ano da sua morte”.
Nessa noite, coincidimos no jantar informal que ofereceu na sua casa o meu editor, comum ao de Nelson Mota. Falei pouco ela, por não tratar-se de o ambiente mais apropriado. Pelo menos, despreguei meu sentido do humor. Ela ria ao comentar como o seu último namorado representava o protótipo de meterosexual e que conseguia ter conversas com ele sobre assuntos que jamais antes considerou que poderia ter com um homem, como a depilação, por exemplo. Aí não resisti e mostrei-lhe o meu particular patrimônio da humanidade, a minha mata nativa peitoral, única em aromas e texturas. Até uma anônima fotógrafa imortalizou o momento em que abri a camisa, ao lado da Ive, que foi nessa. Temo que a imagem ficasse diluída com crueldade num computador alheio aos meus anelos.
Ao despedir-nos, trocamos cartões e ofereci-lhe um exemplar do meu romance. Dispor do seu correio eletrônico, permitia entrelaçar sonhos. Seria maravilhoso ouvir da sua voz minhas palavras, maneira de dotá-las de maior bagagem no seu deambular independente.

«Querida Ive
Gostaria de te mostrar algum dos meus poemas, para saber da tua opinião. Espero que posamos manter o contacto. Adorei te conhecer ontem. Beijos
Alfredo»

«são lindos seus poemas.. e livro....
..a chuva sempre vai me fazer lembrar de ti pensando em Portugal...... porque não me regas...foi a primeira que li...
...Deus te dê tudo de lindo...depois um dia te conto da chuva...
eu tenho uma música no meu segundo cd que se chama: rain... e muito importante pra mim... foi a primeira a ser escolhida, e a preferida do meu produtor...
mas estava lendo seu livro e deixei lá , com a toalha... e choveu... mas já está no meu coração... você aquenta? vou tentar recuperar... care ive»

Por que não me regas?
Estou a secar
admito que não chova
admito que não regues
mas pelo menos chora
minhas lágrimas
sozinhas
não chegam
para alimentar
o nosso amor
que é só meu
que é só eu

«lindo foi o encontro, o teu e o meu
hoje entrei no teu site e gostei de te ver
mas o que gostei mais, até agora, foi daquilo que eu percebi sem ver
podes resultar atemorizante, tão bonita, especial, mágica...
que existe o risco de passar ao lado da tua intimidade
da ive índia, espanhola, carioca, goianesa, londrina, do jantar dos castiçais...
há conversas e silêncios que espero poder partilhar
deixei tua música tocar no meu quarto durante o dia todo, para ela impregnar cada canto com tua alma
agora entrei e quase posso tocar teu cheiro
Faz vinte anos escrevi isto:

“El hombre, entre las manos
a veces tiene un corazón y quiere
morir con él intacto. Pero muere
lleno de soledad”.
(Victoriano Cremer, Madrigal de paz)

Poucas vezes encontro
uma pessoa tranquila
que sorri se olha para ti
se olha para ti.
Hoje corações de medo
se escondem com frivolidade
e se enchem de esquecimento.
E encontro tímido,
penteado de carinho,
um coração perdido
que me observa traquina
confundido de alegria
e me conta sussurrando:
Não te enamores
Não te enamores.
Se tu quisesses
acariciar um último beijo,
uma nova primeira vontade
quiçá me chamarias
com feliz dissimulo
assobiando cantos
de contos infantis
de princesas rosas,
rosas
e cavaleiros azuis,
azuis.

Deste-me um abraço que me aqueceu e eu sou estufinha na qual podes te aconchegar... despistada... ou não.



Garota de Copacabana

O meu primeiro destino brasileiro foi o Rio de Janeiro, obedecendo a um impulso emocional. Cleusa, uma querida amiga carioca que morava há um par de anos em Estoril, tentou com veemência desencorajar-me de uma aventura que ela achava um completo desvario. Cleusa veio a Portugal depois de se separar, ao pouco tempo de ser mãe pela primeira vez. Queria proporcionar outros valores a sua filha. Seus pais sofreram várias tentativas de sequestro, sendo que as últimas ameaças tiveram como objetivo a criança recém nascida.
Cleusa revoltava-se contra o que considerava argumentos algo ingênuos da minha parte, como se não fosse possível escrever na Europa! A história e a lógica de todo modo estavam do seu lado. Ao perceber que minha postura era altiva o bastante, como para ser firme, alterou o seu discurso, como prática fêmea, convidando-me para passar o reveillon no Rio de Janeiro. Assim, conseguiria apresentar-me às pessoas do seu convívio, oferecendo-os como baluarte de essa minha peripécia. A resposta foi imediata e afirmativa. Quatro meses mais tarde, chegava à antiga capital do Império na companhia da minha mala amarela, com perto de quarenta quilos de apetrechos.
Fiquei instalado num hotel no Flamengo, perto do apartamento onde costumavam morar com os pais, alugado de forma temporária ao presidente de uma multinacional, após a dita advertência de sequestro infantil. A família estava instalada num T3, na mesma próximo, que era da avó. Lá ficavam a tal avó de noventa anos, na sua cadeira de rodas, com a respectiva enfermeira; os pais da Cleusa, com dois cachorros e um papagaio; a dita cuja, com a sua filha; e mais três empregados. Como curiosidade, assinalar uma bateria na sala, instrumento que descontraía á mãe da Cleusa em tardes de desassossego, e todo tipo de palácios, barbies e complementos de barbies, para aportar sossego á neta, alterada pelos batucares da vovó.
Minha amiga tinha montes de coisas para fazer, além de estar dependente do alienígena europeu que acabava de aterrar. Entre os variados conselhos de segurança, um deles era evitar movimentar-me pela cidade sem ser de táxi. Confesso que fiquei contagiado com a paranóia coletiva que se respirava, numa data em que os assassinatos e desordens públicas no Rio foram notícia mundial.
Fiquei fascinado ante tanta novidade: a arrasadora beleza natural, as favelas circundantes, as garotas, a água de coco, as letras de bossa nova que retumbavam na minha cabeça, o calor, a umidade, as garotas… Já agora, onde estavam as tais garotas de Ipanema? Decidi entrar na net, que para algo serve, procurando indicações. Quase todas, confluíam num ponto comum: Copacabana.
Para lá me dirigi, isso sim, de táxi, para uma discoteca que tinha um nome em inglês. Seria para despistar os gringos?
Depois de pagar uma quantidade respeitável de reais na bilheteira, algo mais modesta passada a euros, entrei nas profundezas do inferno carioca. Antes de poder completar uma vista de olhos ao recinto, tinha uma pretinha, quase da minha altura, propondo-me namoro. A vaidade é mesmo estúpida. Trocamos menos palavras que beijos e carícias, e a proposta de me acompanhar ao hotel também não foi tão complicada de aceitar, convenha-mos.
Ela teve que se identificar na recepção e, já no quarto, as suas escassas roupas foram voando para cada um dos pontos cardinais, deixando o epicentro pronto para uma análise minuciosa. No meio do entusiasmo devorador, ocorreu-me pedir uma proposta lingual alternativa, que teve imediata resposta: “Sem problema, são mais cinqüenta reais”. Espera aí! -intervim azarado-. Estranha forma de namorar! De criança, quando dispensaram tanto tempo em ensinar-me o mundo das somas, poderiam ter-me mostrado outras variantes para dois mais dois. O meu desconcerto provocou um verdadeiro tsunami de agressividade, sem necessidade de grandes máquinas de cálculo.
A moça, mais pingada que meia de leite, ficou no obstante avermelhada, mostrando suas unhas afiadas prontas para delinear isóbaras de informação do tempo, no mapa mundi do seu lindo corpo. Assegurava, a gritos, que estava disposta a se aranhar inteira e jurar que tinha sido agredida. Que era menor, que tinha entrado com documentação falsa de uma amiga e que iria montar um escândalo que acordaria todo o hotel. A não ser que entregasse, de forma imediata, duzentos e cinqüenta reais. Insistia em que ela não tinha nada a perder e que eu estava fudido. Fiquei gelado. Tanto, que nem pedi desconto. Assegurei que não tinha comigo esse dinheiro e o seu tom de voz, junto com as ameaças, aumentou. O segurança falou então ao quarto e pedi-lhe se poderia trocar euros por reais, por tratar-se de uma emergência. Ele, adivinhando o filme, pediu também sua parte de comissão. A garota antes de sair esvaziou o frigobar entre insultos e provocações.
Aliviado, arrumei-me dentro dos lençóis. Tentei expirar e inspirar com profundidade, deixando a cabeça em branco ante o pesadelo de me ver no Carandirú, na passagem do ano, com o badejo de qualquer garanhão enfiado no meu sino, prestes a explodir como os fogos de artifício de Copacabana.



Passagem de Ano Feng Sui

Quase nada do que era suposto acontecer com a Cleusa aconteceu. Apresentou-me a um dos seus melhores amigos, um conhecido ator brasileiro que estava preste a começar a rodagem do seu primeiro filme como realizador, no rio Negro. Surgiu então um convite informal e entusiasmou-me a idéia de passar uma temporada numa aldeia perdida em plena Amazônia. No dia seguinte, roubaram a bolsa de Cleusa, incluindo o celular e sua agenda, pelo que se evaporaram as minhas fantasias cinematográficas. Em contrapartida, o seu ex marido ia rodar uns capítulos para o Canal Natura no Pará e perguntou-lhe se o seu alienígena de estimação poderia acompanhá-lo. Já estava eu pesquisando passagens de avião, quando o dito cujo teve seu ato de lucidez com respeito ao estrangeiro que nem sequer conhecia, pois tratava-se de um trabalho com um componente de improvisação que, com dificuldade, seria extrapolável a pessoas alheias ao equipe. Voltei a colocar-me nas mãos de destino.
Continuei reconhecendo na Cleusa o seu ritmo frenético, como uma personagem dos seus romances, onde gosta de eliminar sinais de pontuação. Os pais dela alugaram um apartamento no Leblon, para festejar a entrada do Ano Novo. A mãe, apresentadora de televisão, decidiu que faríamos uma cerimônia feng-sui para receber o 2007, em condições. Era preciso muita alegria, mesa farta e a casa iluminada por completo, com portas e janelas abertas, para que o 2006 se despedisse sem obstáculos.
Outra exigência passava pela necessidade de vestir de cor vermelho (do rosa ao púrpura, passando pelo laranja, coral e o vinho) ou amarelo (do claro até o dourado). O motivo dessas cores ficou explicado com minúcia: 2007 ia ser um ano regido pelo fogo e a água; mas a água teria tendência para apagar o fogo, elemento que rege o sucesso, daí que este precisasse ser reforçado, a partir da noite do trinta e um. O único que encontrei apropriado, na minha mala amarela, foi um pijama de seda japonês, cor bordô, que uma querida amiga tinha-me oferecido para triunfar. Cumpriu o seu cometido, triunfei. Lá fui eu com o meu kimoninho, todo chique, a fazer um bacalhau com broa e presunto, para colaborar na fartura da festança. A broa que me arranjaram era doce, com gosto a funcho, e o presunto imitava ao do Parma, tipo Parma, como dizem aqui. Mesmo assim, fez sucesso. Não ficou mau, sobretudo para os amantes dos panetone.
Além das dicas para a casa e as vestimentas, foi fundamental uma preparação emocional. A meia noite, em pleno dilúvio e afastados da visualização dos fogos de artifício como do monstro no Lago Ness, a anfitriã decidiu fazer um coro, todos de mãos dadas, para recitar umas oferendas que harmonizavam com o meu bacalhau tropical. No fim gritamos para expulsar o que de ruim teve para cada um em 2006. Os berros tomaram conta do espaço e do tempo. Essa parte foi bastante compensatória.
Nesse contexto psicodélico, conheci a duas amigas de Sílvio, o irmão da Cleusa, turistas como eu, e de nome semelhante. Cíntia era de Coimbra e Cyntia de Barcelona. Ambas moravam em Madrid e trabalhavam no mercado financeiro. Ficamos ligados, nessa cumplicidade que proporcionam as celebrações além fronteiras. Eram as duas muito bonitas, elegantes e de aspecto bem mais novo que os seus trinta anos em comum. Como a previsão era continuar com a chuva, decidimos fazer roteiros turísticos em conjunto, até que a possibilidade de ir à praia fosse plausível.
Cintia emanava esse toque magnético de tendência ao abismo: curiosidade insaciável e maluquice latente, com uma postura próxima ao arquétipo da Kate Mosh. Tinha consumado dois divórcios e estava em pleno processo de separação do seu namorado; por sua vez, casado; por sinal, seu chefe. A outra Cyntia era de aspecto mais convencional, discreta, com sentido de humor negro, ar cosmopolita e um indisfarçável componente de patricinha bem comportada. Parecia nunca ter tido namorado e evitava qualquer conversa sobre o assunto, atitude alinhada com a displicência típica dos catalães.
Nesta minha nova etapa, achei que nada como experimentar algo inédito no meu curriculum: apaixonar-me por uma mulher com aparência normal. Assim que centrei energias, ao contrário do impulso primário, na Cyntia menos intimidante.
No dia seguinte combinamos visitar o Jardim Botânico. Pouca gente havia nas ruas, em particular nas trilhas urbanas que circundavam a Lagoa de Freitas. Após duas horas de caminhada, encontramos fechado o acesso ao bucólico recinto por causa do feriado. Como a chuva ultrapassava o admissível, lembremos em pleno Verão, paramos um taxi. Eu, que gosto de meter conversa com toda a gente, apresentei-me ao condutor, um pretinho bem disposto que tinha idade para ser o meu pai. Deste modo conhecemos Gilberto, que ofereceu-se para servir-nos de guia, proposta que aceitamos encantados não isenta de algum receio. Contudo, verificou-se uma dádiva. Gilberto virou família, compartilhando conosco suas histórias, emoções e sonhos. Um deles, poder ir a Portugal voando na TAP. Raio de uma fantasia, para quem nada recebe em troca espetando mensagens de publicidade subliminal.
Ele assumiu um papel protetor, sem concessões. Mesmo fora do serviço, encomendava a algum colega que velasse por nos, em aventuras por vezes delicadas, como ir ao ensaio da escola de samba da verde e rosa, no Morro da Mangueira.
Me leva que eu vou, sonho meu, atrás da verde e Rosa só não vai quem já morreu... a tiro, por um traficante.



O homem da mala

A intimidade com as duas européias ia de vento em popa, suave e constante. Quanto mais me aproximava da Cyntia, em determinados momentos, que existiram sim, maior era o seu afastamento penitente, com essas mudanças de humor que costumam resultart apreciáveis após rotina de convivência marital.
O percurso turístico que mais me marcou foi o Museu de Arte Contemporânea de Niterói, uma das últimas obras do Oscar Niemayer, ultrapassando já os seus noventa anos. A plataforma redonda, flutuante sobre a falésia, parecia uma construção extraterrestre. Perfeita desculpa para retratar a Cyntia em quanto ela tirava uma foto daquela maravilha.
Gilberto dispensou entrar conosco no edifício, evitando ser confrontado com o mundo do desconhecido. Aguardava-nos uma exibição sobre os deuses gregos em templos contemporâneos, com interessantes ligações entre a mitologia helena e a relativa aos orixás.
No dia seguinte, aguardando a fila do Bondinho de Santa Teresa, conhecemos uma senhora encantadora, Jandyra, com a que partilhamos risadas. Ela argumentou que deveria estar apaixonado, pois andava muito bem disposto. Aproveitei a ocasião para resgatar de um bolso da calça o poema que tinha escrito nessa madrugada e o recitei em alto e bom som.

Hoje
reparei
no ridículo que é o medo
previsível.
Desde o amanhecer
o céu e o inferno,
o belo e o feio,
competem pelas cores
e os odores
dos suspiros do Corcovado.
O rico nem sempre é apetecível
e o pobre apresenta policromias
inimagináveis.
A alegria veste-se de temores
e a tristeza bronzeia-se
em Copacabana.
Estou aprendendo
a caminhar sobre mosaicos
de expectativas brancas e pretas,
em quanto tu,
observando-me, incrédula,
com a desconfiança de sentir
nessa tua pele de turista sem creme,
ficas mais vermelha com os teus silêncios
que com todo o sol de Ipanema.
Contigo olho o mar como um vigilante
de mim próprio.
Contigo salto as sete ondas
com a esperança de uma mirada,
disfarçada com jeito infantil.
Contigo saio da espuma
com a esperança
e o medo
imprevisível
de sentir-me belo
pelo brilho de uns olhos
azeitonadamente adolescentes.

Rio de Janeiro, a 2 de janeiro de 2007

Depois de almoçar entramos numa loja de souvenires e reparei logo em um quadro naif, que mostrava uma turista tirando uma fotografia com o Museu de Niterói por trás. Ofereci-lhe a pintura a Cyntia, provocando nela tanto agrado, como horas depois a previsível displicência.
Farto do jogo de ping pong amoroso das jornadas seguintes, na excursão ao Cristo Redentor, foi impelido de escrever uma réplica poética.

Já encontrei na minha vida
muita mulher desculpa.
Desculpa para poder escrever,
desculpa para achar que estou namorando,
desculpa para não estar nem aí,
desculpa para ir embora
desculpa para nunca mais falar,
desculpa para eu querer dormir,
desculpas.
Desculpa, já chega de tanta devoção
a Nossa Senhora da Santa Desculpa!

Rio de Janeiro a 5 de janeiro de 2007

Fomos uma tarde à Pastelaria Colombo, um dos ícones do esplendor que viveu o Rio de Janeiro a princípios do século XX, que na atualidade mostra sua decadência com graça. Gilberto nunca tinha lá entrado. Quisemos convidar-lhe para almoçar no restaurante do andar de cima, que tinha reminiscências de clássicos europeus como o Tavares Rico, antes da reformulação, o Simpson’s ou o Lhardy. Não demoramos em perceber o desconforto do nosso guia, por sentir as suas inseguranças comportamentais à mostra; por isso, com dissimulo, optamos tomar um refrigerante e umas empadas no andar térreo. Enquanto um pianista amenizava a sessão, Cíntia dançou com Gilberto que transbordava felicidade.
Em outra excursão, desta vez à Barra da Tijuca, ele ficou comigo durante o período em que nossas colegas faziam compras. Gilberto estava em pânico, também nunca tinha entrado num shopping. Ele que conhecia ruas sem fim numa cidade com quinze milhões de habitantes, ficou tenso ante corredores de consumismo, repetidos de forma obsessiva.
Já no táxi contou-nos a história que mudou a sua vida. Certa tarde recebeu a queixa de uma cliente, porque uma pasta não lhe deixava espaço suficiente para as pernas. Ele arrumou-a no porta mala e quando chegou em casa percebeu que o conteúdo eram setecentos cinqüenta mil dólares, de quinze anos atrás! Gilberto nem hesitou, devolveria o dinheiro. Lembrava-se com clareza quem a tinha esquecido: um norte-americano que apanhou na saída do Copacabana Palace. A sua mulher, ficou puta da vida. Ali estava o seu futuro garantido, para satisfazer todas as fantasias que tinha projetado numa vida de Cinderela sem sequer madrasta rica. Na hora que o seu parceiro falava de consciência e mais não sei que bobagens, ela foi contundente: “Se você sair com a mala, nunca mais cá volte e esqueça que tem mulher e filhas”. Efetivamente. a ameaça consumou-se. Gilberto foi abandonado pela mulher e as filhas, que nunca voltou a ver, instigadas por uma mãe despeitada.
O gringo, incrédulo e agradecido, perguntou-lhe o que desejaria como recompensa. O taxista contrapôs: Se quisesse alguma coisa, teria ficado com a mala!. O ressarcido, sem sair do seu assombro, convidou-lhe a passar um mês em Miami.
Gilberto levou as duas moças ao aeroporto, em dias diferentes, sem cobrar e oferecendo-lhe cascões do Fluminense, a Cyntia, e do Vasco da Gama á portuguesa. Passado uns meses, numa outra viagem ao Rio, encontrei-me com ele e, com lágrimas nos olhos, falava-me dessas novas duas filhas que o destino tinha colocado no seu caminho e que gostaria de ir visitar, num vôo da TAP.
Já conheci na minha vida muita mulher desculpa.



O pacote que cheira a mofo

Cheguei a São Paulo convidado a ficar na casa da Gisela. Conheci-a no Caminho de Santiago. Não andamos muito tempo juntos, apenas coincidimos numa jornada; porém, intensa. Marcou-me a limpeza e precisão do seu discurso e o calor do seu abraço, que eu recebi quase com pudor.
Coincidimos quando ambos, enganados, entramos numa estrada alternativa, monótona quanto basta, e bem mais desguarnecida do que a principal. Ela estava sentada à beira da trilha, comendo uma fruta, na altura em que eu tinha iniciado um jejum que levei a frente com rigor durante oito dias, alimentando-me só de um xarope de seiva e do meu excedente corporal. O curioso era que não sentia apetite nem nenhum tipo de desfalecimento; antes pelo contrário, cheio de energia. Era como se o caminhar ajudasse a desfazer o armazenamento de gordura, acumulado em tantos meses de intemperança.
Em parte devido à perda de peso, que implicava equivalente ligeireza de bagagem, cheguei a Santiago com inusitada rapidez. Permaneci mais uns dias, dando a chance para recuperar os afetos que tinha deixado atrás. Fiquei desapontado por não reencontrar Gisela, nem a Gian Luigi; este último, um ator italiano, com quem tinha compartilhado momentos inesquecíveis no início da viagem. De qualquer modo, não dei mais voltas no assunto. Passadas algumas semanas, recebi um mail de Gisela, quem havia pedido o contato a Tizue, uma japonesa que começou e terminou o Caminho em datas coincidentes comigo. Vale a pena resgatar parte dessa dita mensagem:
“Sempre lembro de você quando começo a dramatizar e olhar o lado negativo de algo. Talvez não se lembre, mas me alertou para esse meu comportamento.
Lembro ainda, com frequência, da minha sensação de liberdade no dia em que percorremos aquele caminho alternativo. Como é bom ter caminhos alternativos e percebê-los, é claro.
Lembro-me de como todos nós, do Caminho, sentíamos a vontade um com o outro. De você deitado na minha frente, naquele mesmo dia, enquanto eu "almoçava" e você curtia ter-se alimentado só com o seu extrato de plantas. Meu coração fica feliz só de pensar... Liberdade, amor, bem-estar, espontaneidade e pureza. Felicidade pura.
Juro que estou tentando continuar a viver desta forma, aqui em São Paulo. Afinal, acho que o comportamento dos outros só depende do nosso, não acha? Que desafio!!!
Desculpe estar falando tanto.
Já está preparado para morar por alguns meses aqui no Brasil? Não me recordo se comentou que já esteve ou morou por aqui antes.
Adoraria reencontrá-lo! Quando você chega à São Paulo? Já tem onde ficar? Eu moro na Vila Mariana, que fica próximo à Avenida Paulista e Parque Ibirapuera, conhece? Avise-me se necessitar de algo, inclusive carona, pois posso recebê-lo no aeroporto que fica muito perto da minha casa.
Que bom!!!
Um beijo muito carinhoso,
Gisela”.

Entretanto enviei-lhe um poema que tinha escrito, testemunho do meu estado de alma.

Desembrulhei o caixote
onde arrumara
o Vento.
O mesmo que capturei
em noites de tempestade
prevendo necessidades.
Cheirava a mofo
e a desperdício,
bem diferente
do frescor marino
que abananou
minha balsa sumida.
De que serve teimar
agarrar o inagarrável
alimentando a esperança
de uma dispensa oca?
Quero aprender a velejar
na superfície do meu corpo
timonando uma mente
cúmplice do Vento,
daquele
que com ingenuidade
achara latente,
em remédios ilusórios
inibidores de consciência,
aldrabões de Vida,
amantes de realidades sonolentas.
Em Lisboa, a dezenove de novembro 2006

Ela respondeu: “Obrigada pelo presente! Venho abrindo pacotes há tanto tempo... Diria que grande parte deles cheiravam a mofo e com certeza não continham nada de muito verdadeiro, só imaginação que me impediu de ver a vida do jeito que ela é. Distorções... Lucidez é o que busco, mas diria que ainda tenho muitos pacotes para abrir. Agora está mais leve e, pelo menos, tenho ouvido mais os «anjos» que passam pela minha vida. O fantástico Caminho a percorrer”.
Um par de meses depois, ela foi me buscar no aeroporto e me instalou no seu apartamento, cedendo-me o seu quarto e ficando no sofá da sala. Permitiu-me entrar na sua intimidade com uma generosidade preciosa, considerando o seu marcado hermetismo. Nunca ninguém havia dormido na sua casa, aliás também pouco visitada, que tinha estritamente o imprescindível, sem concessões estéticas nem lúdicas, num contexto estóico e pragmático. Senti-me bem, acarinhado de forma genuína e com uma sólida impressão de liberdade, potenciada em grau exponencial pelo referido despojamento e a energética sensação da novidade.



O Céu da Suely

São Paulo é fascinante na sua dimensão cultural, bem diferente do resto do Brasil. As opções são imensas, em especial para alguém ávido de experiências e conhecimento, como era o caso. Uma vez que Gisela me oferecia albergue, decidi compartilhar-lhe o meu particular roteiro de ócio.
Pouco a pouco fomos nos aproximando, intercalando confidências e rotas anímicas afins às pessoas habituadas a expor-se, dialeticamente, em terapias comportamentais. Em momento algum consegui sentir Gisela como aquilo que ela mais desejava, como mulher; mas sim, como um encantador ser humano.
Fomos juntos ao teatro, exposições, museus, jantares, passeios pelo jardim de Ibirapuera... Nossa cumplicidade ia in crescendo.
Gisela adorava vinho, mas apenas o bebia e na sua casa carecia de copos adequados. Quis-lhe oferecer os cálices e umas garrafas, aproveitando os saldos de uma das maiores butiques do gênero. No início resistiu a oferta, cedendo passados uns dias, desde que rachássemos a despesa.
Entretanto, ia prolongando amenamente minha estadia paulista. Passaram-se duas semanas e não havia previsão nenhuma, nem de continuar nem de dirigir-me para Bahia. Nesse contexto, convidei-a a ir ao cinema. O meu critério na seleção consistia em primar filmes brasileiros, num intuito de percepção acelerada dessa nova realidade nacional. Fomos ver O Céu da Suely. Vinha precedido por uma excelente crítica. Tratava de uma moça, com pouco mais de vinte anos, Hermila, que regressava ao interior do Ceará com o seu primeiro bebê, esperando que se juntasse com eles o marido e pai que tinha ficado em São Paulo. O tal encontro nunca aconteceu. Ela afrontou, então, uma situação de desesperança, morando com a sua avó em condições precárias e sem perspectiva de futuro. Na sua aldeia, desenvolveu uma amizade com uma prostituta e, daí, surgiu uma idéia genial: vender uma lotaria, em que o prêmio fosse passar uma noite no Paraíso, com ela. Com o lucro compraria um bilhete de ônibus para o destino mais longe possível.
Numa determinada cena, Hermila chega em casa à noite, abre a geladeira e não encontra nada para comer. Gisela apertou o meu braço e, quase de imediato, sofreu uma catarses que incluiu soluços e respiração entrecortada. Quando saímos do cinema ela me comentou que tinha revivido episódios da sua infância.
Gisela é pesquisadora científica. Formou-se com brilhantismo, cursando a seguir o mestrado e logo o doutorado. Nasceu numa favela, tal como os seus nove irmãos. Ninguém na sua família progrediu nos estudos, por falta de meios, e ela reviveu essa abertura da geladeira famélica, durante a noite, noites sem fim. O sonho de Gisela era poder estudar e vir a conhecer algum dia a Europa. Hoje é convidada com frequência a dar conferências ou a assistir a seminários, sobre doenças em determinadas plantas. Gisela ainda não se perdoou a sua infância, o seu desenvolvimento, o seu atual vida sem fome. Talvez por isso escolheu um filho e não um homem por marido: para poder projetar, no próximo e não nela, esse tomar conta de uma criança que ficou como matéria reprovada.
Os dias seguintes foram particularmente dolorosos. Gisela tinha o sofrimento a flor da pele, potenciado por um sentimento de frustração, dado que seu desejo não resultava correspondido pelo vitalista colega peregrino, que dormia na sua cama, “pequeno” pormenor.
Eu assistia consciente a este processo, tentando evitar falsas esperanças e achando conveniente uma implosão, o que não tardou em acontecer. Gisela abriu com honestidade o seu coração, descobrindo a dificuldade que tinha de lidar com tanta informação e tamanha invasão de expectativas na sua vida, até então bastante domesticada pelo domínio de qualquer tipo de estímulo, fora do meramente discursivo. Nessa sua conversa revelou com firmeza a sua vulnerabilidade e a impotência ante essa nova conjuntura. Queria ter-me por perto, mas por momentos se mostrava tensa e fria, como querendo motivar um pretexto que justificasse a decisão da minha saída, sua libertação. Eu disse-lhe que seria bom que conseguisse verbalizar o que desejava: Preferes que fique ou que vá embora?



Felix hic et nunc

Em 2005 conheci ao Alex Atala, um dos chefes que mais me impressionaram no meu percurso como crítico gastronômico. Foi em Madridfusión, a feira de cozinha criativa mais elitista do planeta, onde o Alex apresentou uma palestra, marcante na sua simplicidade, em que utilizava produtos da Amazônia, com tanta técnica quanto elegância. Eu já tinha entrado em contato com ele, antes até de chegar a São Paulo, para visitá-lo no seu restaurante. Gisela preferiu poupar-se ao padecimento de mais uma manifestação de prazer. Percebi, não insisti.
No D.O.M., que assim se chama o local, em homenagem à máxima beneditina Dominum Optimum Maximum, fiquei comovido com receitas como o fetuccine de pupunha com manteiga de coral e camarão ou umas vieiras marinadas com leite de coco, pimenta de cheiro e crocante de manga. Tive a perfeita sensação de que estava degustando a essência do Brasil, como uma carícia do meu anjo da guarda reforçadora da minha decisão.
Fiquei impelido de escrever. Pedi folha e caneta ao chefe.

Você me participa a sua infância,
nas lágrimas
desse seu passado incompreensível
de geladeira com ovo racionado
por irmãos mais velhos,
doentes,
por irmãos mais novos,
carentes.
Cheirando a leite sem pó,
sabedores de pó sem leito.
O seu sorriso é uma conquista
e o seu medo
o filho da puta de um vírus
invasivo
que lhe escorregou
até o beijo de bocas sem frescor
de sabor, mesmo assim, viciante.
Cuspa longe!
Tão longe quanto a lua cheia,
até encher-lhe o buraco da brancura
e, assim, possa olhar à noite
com irreverência,
por trás das suas novas lentes
minguantes,
vacina de brilho refletante
dessa sua alma criança,
de dormir aconchegado
nas lembranças de menina sonhadora.
Feche os olhos, meu bem,
e pronuncie, com o sal das suas lágrimas:
Quero
e mereço, mesmo,
ser feliz!

São Paulo, a dezesseis de janeiro de 2007

Tive pena de Gisela não ter aproveitado essa oportunidade. Mas era pedir demais. A situação tinha chegado a um ponto de não retorno, em que precisava de recuperar o seu espaço vital, e eu também. Aí fui parar em um quarto de hotel, dando origem a um desencadear de novas histórias.
Dias mais tarde recebi a seguinte mensagem: “Querido Alfredo, como você está? Espero que muito alegre e satisfeito com a vida, como sempre. Depois da sua visita, tenho pensado muito no que você me falou... Como me dar mais prazer e ser mais alegre. Sinto-me uma criança buscando soluções fáceis mas, como sei que você tem facilidade para escrever sobre vários tipos de tema e experiência hedonista, talvez possa me ajudar. Obrigada, Gisela”. Eu retornei-lhe: “Querida, fico muito contente, por você se permitir abrir a porta da alegria. Mas, como bem sabe, uma vez que atravesse esse umbral, entrará no mundo das emoções, onde tudo poderá acontecer, transmutando o previsível em imprevisível. Contudo, sem dúvida, vale a pena. Se me der licença, escreverei um relato sobre isto e o enviarei. Há dias que também andava com isso na cabeça. O caminho, você mesma o mencionou, começar com as coisas mais simples; aliás, a base de tudo”.
No seguinte encontro, Gisela mostrava outra expressão no rosto. Assomava a criança brincalhona que tinha ficado abafada num quarto obscuro tempo demais. Confessou-me: “Alfredo, decidi assinar-me uma mesada para aquilo que me proporcione prazer. O primeiro que fiz foi comprar almofadas de chitas, com cores vivas, para o sofá da sala. Ah! Também entrei numa confeitaria para comer uns bolinhos que adorava quando era criança”.
Gisela é um ser humano lindo, que admiro e quero muito bem. Não tenho dúvidas do seu papel neste misterioso processo existencial que escolhi experimentar, com a finalidade de alcançar algo tão simples e arrebatador, como o que me foi revelado através do talento do Alex; algo tão elementar e sofisticado, como o que me foi revelado na determinação da própria Gisela: perdoar-se por querer ser feliz.
Felix hic et nunc!
Obrigado Alex.
Obrigado Gisela.



As aparências enganam

A minha ideia de morar na Bahia era algo confusa, hesitando entre Trancoso ou Arraial d’Ajuda. Quando vim de férias, em Dezembro de 2005, desconhecia ambas realidades e fiquei duas semanas, repartidas de maneira equitativa nos respectivos destinos.
A primeira impressão foi desoladora. Cheguei à noite no aeroporto, supostamente internacional de Porto Seguro, onde tudo se faz a pé. A sua estrutura lembra a de um shopping passado da moda. Cruzar a cidade de combi também não foi animador, para quem alimentava expectativas de paraíso. Calor abafado, umidade penetrante, bairros pelintras. Ansiosos vendedores de caju torrado ou água de coco invadiam meu espaço, quando cruzei numa balsa um rio indefinido pela tonalidade azul cobalto, numa noite azul sem lua, infestada de estrelas que esburacavam uma abóbada azul, como um vírus de sarampo na cara azul de uma criança.
Uma estrada, cujas crateras pareciam pérfidos reflexos desses milhões de estrelas, foi servindo de paragem para diferentes colegas, disseminados por um sem fim de pousadas, quer a bombordo, quer a estibordo. Eu fiquei no fim dessa reta interminável, no centro de Arraial d’Ajuda, onde era suposto ocorrer o agito. Mas o pior estava por acontecer. O meu aposento parecia um quarto de empregada de uma família numerosa com poucos recursos. O ar acondicionado era mais generoso no barulho que no espalhafamento de qualquer resquício de frescor. O chão não passava de uma baldosa branca imitando mármore e o chuveiro tinha mais fios a mostra, que uma hipotética exterminadora idílica de Auschwitz. Pedi para mudar-me, mas estava tudo lotado; entrando então numa fase de aceitação que pospunha qualquer resolução para o dia seguinte. Tomei banho, com a adrenalina semelhante a estar correndo os encerros de San Fermín, ante uma iminente cornada em forma de curto-circuito, e sai à rua. Para o lodo, a bem dizer.
As poucas dicas que tinha, frisavam o ambiente festivo de Arraial numa zona chamada, mirabolantemente, Broadway. Só achei lojas de souvenires para turistas que gostam de decorar as suas casas com bibelôs. A tudo isto, ainda nem sinais do mar. No meio desta lufada de otimismo, ouvi chamar pelo meu nome. Com incredulidade dei uma espreitadela e topei-me com o Tô, tio de uma das minhas melhores amigas e pessoa próxima do entorno da minha ex mulher. Foi afetuoso com serenidade e convidou-me para assistir a um jantar, no dia seguinte, em que me iria apresentar um grupo de moradores, muito gente boa.
Ao acordar, bem cedo, fui à Praia de Mucugé e caminhei até a Praia da Pitinga, onde as falésias de terra vermelha deixavam ver perfis de coqueiros e palmeiras de dendê, enquanto planavam aves de rapina tão majestosas, quanto as que me fascinavam na Europa. Quando dei por mim, tinha uma bolha na sola do pé que não me deixava dar mais um passo. Voltei sobre os meus calcanhares, apanhando um escaldão nas costas de todo tamanho. Por compensação, as apreensões da véspera começavam a diluir-se com jeito bahiano.
O jantar foi no Sole Mio, uma pizzaria de ambiente cosmopolita, gerida por um casal de nacionalidade indefinida, entre argelinos, marroquinos, franceses ou italianos, que já tinham tido restaurantes em Paris e bordeis em Londres (ou era ao contrário?). Ali apresentaram-me a Antonella e seu ex marido Sandor. Ela, atrativa e sedutora de forma natural, dedicava-se também a escrita. Ofereceu-me um livro, com consideráveis deficiências gramaticais, mas pleno de emoção e sentimento: Cartas de Amor de uma Peregrina ao Caminho de Santiago. Li de uma sentada e depositou a semente para que, meses mais tarde, empreendesse essa aventura desde St. Jean Pie de Port, no Pirineio Francês. Sandor, do mesmo modo atrativo e sedutor, é um alsaciano que gosta de jogar bola e não fazer nada. Faz parte da equipe nacional francesa de futevôlei, cujo treino é o seu entretenimento vespertino. Eles não tiveram filhos e Sandor assegurava que era melhor assim, porque considerava-se demasiado egoísta. Mas, um dia passeando na praia, fez-me reparar num grupo de crianças, brincando na borda da água, e comentou: “Já imaginaste lugar melhor no mundo para passar a infância?”. Não. A contundência da minha resposta foi uma das bases da minha nova vida.
Do Arraial, cativaram-me os residentes que lá se instalaram, formando uma colônia de personagens pitorescos, ativos espiritual e fisicamente.
Para a segunda semana, sem nenhuma reserva prévia, aluguei um carro e aventurei-me em Trancoso, apenas a trinta quilômetros. É muito difícil não deixar-se cativar pelo Quadrado, o centro histórico. Casas de colores configuram um largo enorme de gramado, fechado ao trânsito, com vários campos de futebol, onde cada dia vivem-se apaixonados encontros, com intervenientes de todas as idades e de ambos os sexos. Cavalos pastam a solta e, no fundo, a Igreja de São João Batista, a terceira do Brasil, perfila um elegante baluarte, que pretendia gerar um efeito intimidante, na sua reminiscência de arquitetura defensiva. Está localizada no limite de uma falésia, onde o oceano abre-se com magnanimidade, mostrando matizes de azul embriagadores. O nascer da lua cheia, nesse mirante, é uma experiência religiosa.
Trancoso durante onze meses por ano é pacato. Nada acontece, pelo menos em aparência, o que permite que a natureza imponha o seu ritmo, com impunidade.
Sente-se um toque de diferença de classe, tanto nas lojas (caras) que se espalham pelo Quadrado, como nos restaurantes charmosos ou no ambiente meio hippie estudado, que invade o entorno. Contrasta com o outro Trancoso, o dos nativos, caótico, bem superior em tamanho, barulhento, pobre e sujo.
Este convívio, que se mostra pacífico, foi-me seduzindo dia a dia. E, para o meu encantamento, foi determinante uma mulher linda, que encontrava a toda hora. De pequena estatura, asiática, uns vinte cinco anos, morena, com cabelo comprido ondulado, tinha uma mistura de selva e quimera chinesa tatuada por todo o seu corpo, em cores suaves e hipnotizantes. Já tinha reparado nela na praia, saindo da água, com a pele brilhante e o seu cabelo até a cintura, protegendo essa capela sistina em movimento como se fosse um exercício de precisa caligrafia oriental, delineando neuróticas linhas verticais.
Certa manhã, coincidimos no Pandoro, um café na entrada do Quadrado que tem um desconcertante toque civilizado, que nos lembra a Europa. Levava o meu bloco de poemas e não resisti escrever:
Estás sentada junto de mim
enquanto devaneio entre palavras sem sentido
e aspiro inspirar o ar
que se escapa entre os teus dentes.
Preciso recuperar o meu corpo
para enroscar-me na selva
que negramente cobre o teu cabelo,
entre tatuagens de ramas sem serpentes
assentadas em abertas asas
que brotaram como borboletas dos teus pés,
orientais como os teus olhos de bossa-nova
cantarolada em tobogãs
da Muralha China
descoberta no interior de um bolo-rei
prêmio que, distraído,
mastiguei com desajeitamento,
fechando este caderno
quando você levantou do Café de Trancoso
aonde vim respirar,
uma vez mais,
o ar dos meus silenciosos desejos.

Trancoso, a 5 de dezembro, 2005

No tive coragem de entregar-lhe o poema e o carreguei comigo, dia e noite, durante mais de uma semana, em que topava-me com minha musa a toda hora e sempre com ingenuidade inesperada. Recriminei-me pela timidez enfermiça.
Na véspera de regressar a Portugal, cruzei-me com ela, na rua principal da zona nativa. Disfarcei o meu pudor com torpeza, esquivando olhar nos seus olhos e, quando já estava a uma distância que não permitia ouvir o seu sorriso, ganhei coragem e desatei a correr na sua direção. Parei em seco na sua frente, procurei com determinação o embrulho garatujado, e confessei: “Escrevi para você”. Ela ficou atônita. Eu fui-me embora.
Num arrebato de lucidez, voltei sobre os meus passos, saquei uma caneta da minha mochila, e rascunhei o meu endereço de correio eletrônico, que ainda a deixou mais atarantada. “Se tiver vontade de comentar alguma coisa...”, esclareci.
No meu subconsciente ficou registrado voltar a Trancoso, na esperança de reencontrar à enigmática Gauguin andante.



O Convite da Lama

Tive quase um ano organizando a minha partida. Não é fácil desmontar uma estrutura de vida na Europa. Para tudo é preciso prestar satisfações: dar baixa nas finanças, acabar com o contrato da luz, água, telefone ou fechar uma conta bancária. O bombardeio de questões impertinentes funciona como fornido dissuasor de qualquer tipo de desistência. Mesmo assim, nada conseguia abanar a minha decisão.
Sete meses antes da viagem, desmanchei o apartamento onde vivia em Estoril e passei a gozar da minha particular indigência libertária. Leiloei móveis, quadros e objetos de arte, assim como minha garrafeira, com mais de dois mil rótulos. Na sequência desse desprendimento material, organizei múltiplas festas de despedida, por lá onde passei: Madrid, Marbella, Lisboa, Budapeste, Zurich, Colmar, Porto... O festejo no Douro foi especial, porque, de algum modo, divorciava-me do mundo do vinho, a quem tanto tempo e energia dispensei, como num casamento. Houve um jantar na Quinta do Crasto, onde Francisco Ferreira, da Quinta do Vallado, sugeriu que eu ficasse numa das casas de uma sua parente, em Arraial d’Ajuda. Como não tinha a certeza de qual seria o meu pouso, pareceu-me apropriado receber algum tipo de aconchego na minha chegada.
Assim, após o périplo por Rio e São Paulo, desembarquei em Arraial d’Ajuda, outra vez em plena noturnidade, um ano mais tarde da minha primeira visita e com oito horas de demora sobre o horário previsto. Apesar do atraso aéreo, algo que comecei a habituar-me, havia um tipo com um cartaz a minha espera, proprietário de uma robusta combi, enviada pela tal parente de Francisco. Quando cheguei a sua casa, amanhecendo, Joana estava em pé e aconselhou-me ficar numa moradia de marcada inspiração japonesa, que vinha ao encontro das minhas secretas fantasias. Batemos um breve papo e comentou-me que pertencia a um grupo afim do budismo e que, com periodicidade, convidavam a um lama para dar retiros ou meditações. Ao coincidir a sua presença nessa semana, desafiou-me a assistir à palestra. Agradeci e aceitei.
Ao acordar, fui à praia e encontrei logo o Sandor e, como se o tempo não tivesse passado, cumprimentamos-nos com afabilidade. Apresentou-me a uma portuense que estava lá passando uns dias de férias, antiga namorada do Tô, com quem verifiquei partilhava montes de afinidades afetivas. Aí estava eu, de repente, discursando sobre o meu casamento e outros seres que formaram parte da minha rotina.
Essa noite fui à meditação, que tinha a Antonella como tradutora. A lama era uma mulher que dissertou sobre as implicações do desejo e o orgulho, no entorpecimento do ego. No intervalo, interessou-se na possibilidade da intervenção de algum dos presentes. Eu o fiz, argumentando que o orgulho que podemos sentir por atitudes de outras pessoas, em especial de seres a quem amamos, era tão saudável quanto desejável. Isso nos levou a um diálogo descontraído e enriquecedor.
No final da sessão, fui agradecer à monge sua generosa disponibilidade e ela perguntou-me se era psicólogo. Respondi que escritor. Interessou-se em iniciar uma conversa que terminou com uma proposta: passar uma temporada no seu monastério, na França. Ela achava importante que conhecesse ao seu mestre. Minha dúvida era se isso implicaria algum tipo de compromisso da minha parte. Pelo visto, nenhum. Assim que aceitei, sem marcação de data. O destino encarregar-se-á.
Pareceu-me um bom presságio para essa aventura, que estava dando os seus primeiros passos, sem ter bem definido aonde. Estando atento, haverei de perceber.



Mariana de Moraes

O dia 26 de dezembro, véspera de tomar o avião para o Rio de Janeiro, minha querida amiga Maria José insistiu, e bem, para que a última noite em Portugal não a passasse sozinho. Convidou-me a dormir na sua casa, oferecendo-me também transporte para o aeroporto.
A nossa relação está impregnada pelo aroma do íntimo. Sua mãe, Juliana, assumiu o papel de referência familiar quando vivi em terras lusitanas, sem resquícios de componentes caridosos de prodigalidade. Um dos seus irmãos, Luís, pertence a esse mágico núcleo de amigos que sempre imaginei vir a ter, e tive, tal como os seus dois filhos, Inês e João. Precisamente João, o mais novo, estava essa ultima noite em casa. Levava meses trabalhando e estudando, com o propósito de ir a Rio, na altura do Carnaval, para rever a uma prima carioca, da qual estava apaixonado. Pouca gente sabia desse objetivo, nem a sua mãe, que não conseguia disfarçar o desagrado do namoro do seu príncipe com uma atriz de telenovela; isso sim, boa todos os dias da semana. João planejava, inclusive, uma nova vida no Brasil onde continuaria os seus estudos, morando com a prima, pelo que o regresso marcado no seu bilhete tinha algo de formalismo burocrático, ante tal projeto poético.
Depois do jantar, Maria José sofreu o seu habitual ataque de sono e deixou-nos na sala. João propôs-me ver juntos um documentário sobre Vinícius de Moraes que acabava de receber da namorada. Foi estranho, porque não conhecia o Rio e foi também a primeira vez que vi imagens próximas da cidade, de Ipanema ou Copacabana; pois os meus arquétipos tinham sido de panorâmicas desde o Pão de Açúcar ou o Cristo Redentor. Resultou comovente ouvir aqueles poemas e sentir aquela música, horas antes de iniciar uma viagem que está transformando a minha vida. Vários foram os depoimentos e vários os intérpretes que me foram seduzindo; mais nada e ninguém comparável a Mariana de Moraes, neta de Vinícius, que me arrancou uma exclamação delirante: Ora, aí está uma boa desculpa para ir ao Brasil!
A chegada ao meu destino, proporcionou-me tal intensidade de sensações que esqueci por completo aquele suspiro. João foi comunicando comigo e sempre me enviava cumprimentos para a Mariana. Eu convencido que se referia a sua prima.
Cinco semanas mais tarde João chegou a Rio, poucos dias antes de eu estar de partida para Bahia, finalizando minha etapa paulista. Falei-lhe ao telefone e achei-o esquisito, pelo qual decidi ir ao seu encontro. Desse jeito, aproveitaria para conhecer à sua Mariana. Quando perguntei por ela, João esclareceu-me, rindo, que o nome dela era Márcia, que a Mariana a quem sempre se referia, era à minha, a neta de Vinícius. Em um par de dias, encontramo-nos em Ipanema. Ele veio caminhando pela areia, sozinho, e logo me contou que Márcia, na véspera da sua partida, participou-lhe que tinha retomado um velho namoro. Mesmo assim, o João decidiu vir, sem fazer-se de vítima. Falava com mágoa, mas com vontade de perceber a aprendizagem dessa história. Estava morando com uns amigos portugueses, estudantes no Rio, com os que tinha curtido sem parar desde a sua chegada. Perante tal panorama, desafiei-o a vir comigo a Bahia e ele adorou a proposta.
Em menos de uma semana, fui buscá-lo, bem cedo de manhã, em Porto Seguro e, sem passar por casa, levei-o ao Corujão, um bar de praia na Praia de Araçaipe. Em plena sofreguidão para colocar a nossa conversa em dia, reparei numa mulher que se sentou perto de nós, com uma tatuagem majestosa, que embelezava seu braço. Dei-lhe os parabéns e foi assim que conhecemos a Gabi, uma argentina chegada quatro anos atrás a esta encruzilhada de caminhos que é Arraial d´Ajuda. De repente, não mais que de repente, apareceu uma amiga de Gabi, sensual e doce, com um toque de ingenuidade e perversão, arrebatador. Carolina integrou-se com fluidez no grupo. Carolina é jornalista como eu, porém recém formada, de acordo com os seus vinte e quatro anos transbordantes de saúde e voluptuosidade. Estava também querendo dar uma virada à sua vida, perseguindo o sono de aprender a cozinhar para montar um restaurante vegetariano. Eu, que tinha programado um jantar de boas-vindas para o João, convidei-a para me ajudar.
Assim, enquanto preparávamos um peixe semelhante à garoupa, marinado em suco de limão e laranja da terra, João perguntou-lhe o que fazia antes de vir a Bahia. Ela respondeu que tinha trabalhado em São Paulo, numa produtora de espetáculos, que representava também alguns artistas. Como quem?, interessou-se João, pois a mãe da Márcia tinha sido agente de algumas divas brasileiras, como a Fafá de Belém. Mariana de Moraes, por exemplo, respondeu Carolina.
A possibilidade de que esta piscada do olho do destino acontecesse, era remota; tendo em conta que se tratava de um código entre nós e de que João tinha chegado precisamente nesse dia. Carolina ofereceu-se para me a apresentar.
Não foi necessário. Semanas depois assisti a um espetáculo no Teatro Ibirapueira, em São Paulo, que comemorava o cinquentenário da posta em cena de Orfeu da Conceiçao, de Vinícius de Morais, com a cenografia de Oscar Niemayer. Mariana era uma das intérpretes, e cantou Chega de Saudade, mensagem que eu peguei no ar.
No fim do recital, fui até o camarim, onde aguardei a sua saída. Cumprimentei-a, abracei-a e comentei-lhe que tinha um conto escrito com o seu nome. Eu reforcei, pícaro, a sua reação de surpresa, afirmando que teve um papel relevante na minha vinda ao Brasil. Difícil resistir tamanha abordagem, pois se tratava de uma dádiva dos deuses, para festejar o eclipse lunar nessa noite mágica.
Mariana, tal como estava escrito nas estrelas, pediu-me, que enviasse o conto por mail. Nem mais, o que estou fazendo neste momento após colocar este ponto final.


Nascidos em bordéis

Nunca tinha assistido a uma chuvarada assim. Como é possível o céu armazenar tanta água?! Considerando que estamos no verão e em vésperas do Carnaval, a desolação dos turistas e residentes reflete-se de forma inequívoca nos seus rostos. Há cinco dias que o dilúvio não pára.
Ontem à noite, nem os mosquitos se atreveram a sair. Aproveitei essa trégua epidérmica para ver um dvd que me ofereceram pouco tempo atrás: Born into Brothels. Bendita chuva. Uma americana, bem atrativa, decidiu fazer um trabalho fotográfico no bairro da Lanterna Vermelha em Calcutá, onde viveu entre prostitutas, em bordéis. Nessa estadia, viu-se confrontada com as crianças, filhos dessas profissionais do prazer, que perceberam a sua vocação como um teimoso gene kármico, transmitido de geração em geração. Zana Briski escolheu nove miúdos, aos quais hes ensinou fotografia, desafiando-os a retratar a sua realidade. Fizeram-se exposições, leilões na Sotheby’s, livros, um documentário que ganhou o Oscar em 2006 e uma Fundação: Kids with camaras. Recomendo o filme.
De fato, a miséria tem uma linguagem própria: as cores, o cheiro, o pó..., que já consegui decodificar também no Brasil.
Há uns dias, no início desta poderosa manifestação tropical, decidimos alugar um carro e visitar a Praia do Espelho e Caraiva, destinos próximos de Arraial d’Ajuda. A pouco menos da metade do caminho, e já em estrada de terra, um menino aproximou-se do automóvel, pedindo que lhe déssemos um real para comprar chinelos para seu irmão. Dei-lhe uns reais, explicando que o gastasse naquilo que achasse melhor, no que lhe desse maior felicidade, fosse para o seu irmão ou não. Ele sorriu e indagou se não quereríamos um guia para ir até ao Espelho. Não devia ter mais de seis anos. Perguntei-lhe se não preferiria passear, sem ter de trabalhar. Vir conosco na excursão. Convidaríamos ele para almoçar, mas não lhe daríamos mais dinheiro. Pesquisou então se poderia trazer um amigo, um outro pretinho que estava deitado na margem da estrada, pouco expressivo. Lógico, respondi-lhe, e lá fomos todos. As lavadeiras, que estavam por perto, acharam normalíssimo que levássemos o par de mocinhos com menos de seis anos e nos acenaram sorridentes quando o carro iniciou a sua marcha.
Um pouco mais à frente, duas turistas, que mais tarde viemos a saber serem chilenas, andavam meio perdidas. Fizeram-nos sinais para parar, pois queriam saber se estavam no caminho certo para o Espelho. Comentei que não tinha a certeza, mas que poderíamos ceder um dos rapazes que lhes serviria de guia. Elas ficaram atônitas perante o insólito da oferta. No fim, fomos todos juntos até à famosa praia e, mais tarde, até Caraiva. Chegando ao nosso destino final, cruzamos um rio numa balsa a remos. Um dos miúdos, o mais calado, nunca tinha andado de barco e não sabia nadar. Nem com um pastel de carne e um guaraná conseguiu descontrair. Aproveitamos muito pouco a praia, já que não parou de chover. Ficamos, porém, resguardados, numa pequena pousada com restaurante, onde os dois pretinhos viveram um verdadeiro festim, sem acreditar muito no que lhes estava acontecendo. No meio da refeição, apareceram três índias pataxós, ainda mais pequenas, que apresentavam colares de sementes a cinco reais. Eram lindas, com um sorriso aberto que mostrava dentes ainda por nascer. Foram fazendo descontos desajeitados para tentar, com inocência, vender mais barato que a sua parceira. João, não resistiu e comprou três com delicadas combinações de cores, colocando-os respectivamente em cada uma das vendedoras, que fugiram com uma timidez expansiva com o presente ao pescoço.
Entretanto, o pretinho mais introvertido continuava sem abrir a boca e meio adormecido. O mais falador, tranquilizou-nos explicando que era assim mesmo, que não se tratava de doença alguma. Perguntamos-lhes o que queriam ser quando fossem adultos. O extrovertido não hesitou: motorista; o seu camarada, não sabia. As duas jovens chilenas eram investigadoras: socióloga uma e psicóloga a outra, aspectos que nos tinham elucidado, em prévias conversas sobre semiótica e Fucault.
De regresso, e já na balsa, reparei nas unhas dos pés descalços das crianças. Duras, sujas, como garras; incrustadas numa pele que parecia de hipopótamo, sobre as contrastadas solas brancas, irônica e suavemente polidas.
As intelectuais decidiram ficar naquele paraíso sem eletricidade, quem sabe se para abafar tanta luminosidade. Um pouco mais à frente, deixamos os nossos colegas de excursão, que não resistiram e pediram uns trocos. João ofereceu-lhes umas notas. Ao arrancar, comentei que talvez tivesse sido melhor não ter dado dinheiro, mas tão-só afeto, para que pudessem sentir uma lufada de amor sem nenhum tipo de compensação culposa. Sei lá! João encolheu os ombros, sorrindo. Meti primeira e fiz os vinte quilômetros de regresso, sentindo-me um piloto de ralis, tal e qual uma criança que gostaria de ser, um dia, motorista.



As queimaduras da Ani

Quiçá, o mais complicado da minha vinda a Brasil tenha sido o afastamento dos meus seres queridos. A poesia, como sempre, foi uma grande ajuda, e no dia 31 de dezembro escrevi o seguinte:

Você ficou sem perceber
por que fui embora,
mas como explicar a alguém
que o meu anjo da guarda
é brasileiro?
Eu sinto as suas asas loiras
no meu silêncio úmido,
úmido de já não pronunciar
jamais
palavra nenhuma
que não consiga sambar.
Oxalá Iemanjá
entregue a Xangó
a minha saudade de você,
para dela fazer nuvens
protetoras deste sol
que sinto nas minhas costas,
batucando
latidos de amor,
que confio você possa ouvir
nessa pérfida distância,
que tanto teima proteger
sem perceber.

Nesse momento pensava em Ani, minha irmã mais nova. O ser que processou, na morte da minha cadela, a dor da nossa separação. As suas lágrimas facas afiadas que se deslizaram pela minha alma. Ani foi privada por Deus, atenciosamente, da capacidade de análise, recebendo em compensação uma inteligência emocional intuitiva e certeira.
Outro ser cuja escolha vem de longe, curiosamente ou talvez não, leva o mesmo nome: Ana. Amei-a antes de ela nascer. Fui solidário por osmoses do sentimento do seu pai, a quem conheci em México numa viagem surrealista e que virou um irmão, cujo relacionamento tem sido um desafio de aprendizagem para ambos. Com a sua filha teve uma sensação esquisita. Com poucas semanas de vida, comprovei que me reconhecia, e o fez cada uma das vezes que minha presença foi intercalando-se no seu crescimento, até hoje.
No ano passado, estando aqui de férias, Ana teve um acidente na véspera de Natal. Seu vestido ardeu com uma vela e colou ao corpo. Quando regressei a Portugal, recebi a notícia. Encontrava-se nos cuidados intensivos, grave. Tive o privilégio de poder entrar na privacidade desses pais durante o processo de cura. Lembro da nossa cumplicidade no dia que passei com Ana no hospital, fingindo que era eu o doente ante as desconcertadas enfermeiras e a perplexa criatura que, com quatro anos, esforçava-se em explicar que a paciente era ela e seu veredicto irrefutável que eu era maluco.
Pouco antes de vir, tivemos uma conversa. Diz-lhe que deveria sentir-se orgulhosa com a sua cicatriz, que me mostrou só quando a deixou de doer, com sabedoria compassiva, ao tratar-se de uma tatuagem de amor. Amor dos pais por ela, que revelaram uma dedicação exemplar, carinho que ajudou a recuperar milagrosamente algo que parecia não ter retorno. Ana ofereceu-me seus enormes olhos azuis, para manter-me o olhar e abraçar-me plena de consciência.
No Corujão, um bar que consegue aglutinar histórias como poucos sítios que conheci até hoje, estava reparando desde minha chegada numa garçonete que, sem ser do tipo estonteante, mantinha uma postura da qual emanava uma beleza de mui dentro, como dizem aqui na Bahia. Ao dar-me o troco, notei numa marca no seu pulso, interessei-me sobre o problema e replicou que foi por uma queimadura. Há uns dez anos, ainda adolescente, explodiu perto dela um gerador de gasolina e teve que ser internada durante dois meses no hospital. Descobriu-me sua barriga, onde reconheci a mesma textura de pele de Ana, meses antes. Ela me explicou: “Foi um presente que me enviou Deus, pois era uma criatura bastante exigente e caprichosa e, a partir desse momento, consegui perceber que havia fronteiras entre o branco e o preto, onde era possível aprender e viver. A convalescença naquele hospital foi uma verdadeira lição. Lidei com minha dor e também com a dor dos outros. Imagine que, uns dias antes do meu acidente, levaram um bebê de Eunápolis. Os pais tinham deixado uma vela na beira do berço, esta caiu e ardeu o cabaz. Quando chegaram às urgências, tinha os pés supurados e foi necessária a amputação de ambos. Ao receber a notícia, os progenitores a abandonaram, sem mais. Que tipo de pais podem fazer algo assim? Graças a Deus, a miúda foi adotada por uma senhora de Porto Seguro. O outro dia vi fotografias e é agora uma linda menina”.
Continuou seu relato, com voz serena: “Houve uma moça que veio com o rosto desfigurado, com as pálpebras coladas; eu, porém, não tive sinais no rosto e fiquei orgulhosa com a minha cicatriz, ao ponto de recusar fazer qualquer tipo de plástica. Sinto esta nova pele de maneira diferente, mais intensa”. Sem dúvida, deve possuir uma delicadeza especial para os mimos, pensei.
No seguir da sua conversa, deu-me a entender que tinha alguém dependente dela e quis saber se era mãe. Ela esclareceu-me: “Sou homossexual e moro há dois anos com uma moça de Porto Seguro. Ela teve que enfrentar à família e o seu entorno para estar comigo, por isso é de ser forte, para ajudar-lhe a ela com a minha força”.
Perguntei-lhe então seu nome. Ani, me respondeu. Um arrepio sacudiu meu corpo todo, como se a minha pele fosse de lagarto e exposta à intempérie.
“Você é linda”, Ani, afirmei.
“Você também é”, e deu-me um beijo. O único que recebi neste meu primeiro carnaval baiano.



Ixtaliy, uma peça poderosa

Se o poder de uma mulher tivesse alguma relação com a sensualidade e determinação dos seus movimentos, Ixtaliy seria uma sacerdotisa pela sua precisão litúrgica corporal. Ela é linda e o sabe, mas talvez não com plena consciência. Precisa manter-se sempre em guarda, como uma fêmea poderosa, cuja sobrevivência dependesse do seu constante estado de alerta.
As suas roupas parecem escolhidas no além: insinuantes, provocativas, harmônicas, simples. Devem fomentar bastante irritação entre as suas rivais de gênero, ao obter de maneira tão espontânea e imediata aquilo que toda mulher suspira: seduzir com naturalidade, sem que se dê por isso. Ixtaliy o consegue, e o sabe, mas talvez não com plena consciência.
Foi a primeira mulher que falou dos meus olhos na Bahia. Talvez para que reparasse nos seus, ou talvez não, porque é difícil ignorar os seus de cor verde polido, como os cristais semi-preciosos com que arma os colares e as jóias, peças poderosas, que vende pelo mundo fora.
Fomos apresentados por Antonella numa festa, mas só um par de dias mais tarde conseguimos conversar com calma. Para variar, no Corujão.
Num momento determinado, mostrou-me um livro de aspeto enigmático, que tinha um baralho dentro. Explico-me que cada um dos naipes representava uma chamada de atenção para uma atitude determinada, que se complementava com os conselhos práticos descritos no pequeno livro. Ela pediu para que, os aí presentes, escolhêssemos uma carta e comprovássemos o que o destino queria indicar-nos nesse instante. O engraçado foi que fez sentido.
Na caixa onde guardava os seus apetrechos esotéricos, havia uma imagem da Nossa Senhora de Guadalupe. Quando reparei, motivou-lhe um comentário de cumplicidade, pressupondo idêntica devoção da minha parte. Há pouco tempo, desprendi-me de qualquer tipo de simbologia religiosa, em concreto da iconografia católica, e assim o fiz saber. Ela mudou o tom e argumentou que a Guadalupe ia mais além, pois materializava a representação da deusa terra para os índios mexicanos. Força poderosa, anterior e superior. “Ela foi o meu instrumento para chegar a Deus”, assegurou convicta. Esse foi o ponto de partida para uma história cativante que ultrapassou, ou talvez não, às da minha fértil imaginação.
O momento mais angustioso da minha vida, começou a relatar, foi quando fiquei sem a minha filha. Estava com o pai. Ele combinou entregá-la em dois meses e tinham transcorrido seis sem notícias. Estávamos separados há algum tempo. Conheci-o em São Paulo, sendo estudante de filosofia, e fiquei fascinada ao ver um homem na rua trabalhando com imenso jeito o arame, obtendo genuínas obras de arte. Nesse momento, tomei a opção, consciente, de me apaixonar e juntar-me a ele, pois soube que o meu futuro estava em minhas mãos.
Ixtaliy contou que existe um caminho de artesãos na América Latina, do Chile ao México, que atravessa uma rota ancestral, onde os vendedores vão parando para oferecer a sua mercadoria. Ela já tinha o percorrido quatro vezes. O pai e a criança deveriam estar em algum lugar dessa senda, de mais de dez mil quilômetros.
Um dia, acordei com a decisão de ir à procura da minha filha, que tinha apenas quatro anos, prosseguiu a narração. Eu estava na Guatemala e fui em direção a Colômbia. Passada uma semana, uma senhora reparou no meu estado e me advertiu que não podia carregar um fardo tão pesado, que tinha que entregar a Deus essa carga. Ela deu-me uma imagem da Virgem de Guadalupe e, durante a noite, fiz uma oração do fundo da minha alma: “Senhora, dá-me luz e clarividência para encontrar a minha filha, ou coragem e força para aceitar a probabilidade de não ser assim, se isso for preciso para o meu processo”. No dia seguinte, senti uma reconfortante leveza e tropecei com um colega artesão, conhecido de outras viagens, que me falou logo da casualidade de ter visto ao meu antigo companheiro no Peru, poucas jornadas atrás.
Ixtaliy perguntou pela filha, mas ele não sabia dela. Informou, sim, que o outro se encaminhava à Venezuela, o que já permitiu que a esperançada mãe evita-se o Equador. Deste modo, em menos de uma semana conseguiu dar com eles.
Ixtaliy ficou furiosa pela irresponsabilidade do progenitor, com vontade de lhe bater, mas feliz pelo reencontro. Argumentou que esteve em jogo o sofrimento de três mães, pois as duas avós estavam na mesma constrangidas. O homem, que não estava para chatices, decidiu sair essa noite e aproveitar, já que não havia de tomar conta da filha, para beber a vontade. Na madrugada seguinte, chegou todo partido após uma briga noturna que o deixou machucado por completo.
Ixtaliy regressou pelo Caribe, trabalhando como cozinheira no barco duns gringos, que propuseram-lhe continuar viagem até Florida. Tinha-os conhecido tentando vender as suas jóias. Ofereceram-lhe a metade do preço por todos os colares, mas ela preferiu preservá-los que os mal vender. No dia seguinte, os mesmos sugeriram carona pelo mar, a troco dos colares e de trabalho. Ela foi contundente: ou colares ou trabalho. E embarcou com a finalidade de organizar as comidas e a limpeza de bordo, com a miúda, como não podia deixar de ser.
Ao desembarcar em Belize, o esperava seu namorado mexicano. Descobriu, nesse instante, que havia realizado toda essa aventura embaraçada. No mesmo dia que começou a germinar seu frijolito, como ela o chamava, foi tomada a resolução da sua particular odisséia. Mais uma vez, sem plena consciência.



Carnaval e mosquitos

Posso prometer e prometo, foi uma das frases mais marcantes da transição espanhola. O primeiro presidente do governo democrático, Adolfo Suárez, utilizou-a com disciplinada teimosia. Seguindo os seus passos, posso prometer e prometo que não escolhi Brasil para morar nem pelo Carnaval, nem pelo futebol, nem também pelos mosquitos e demais insetos. Não, mesmo!
Acabaram de tocar os últimos acordes de axé, em Arraial d’Ajuda, já na madrugada da quarta-feira de cinzas, mas não dava para cantar vitória, pois conseguia-se ouvir, como na prova de compra de uma potente estereofonia em Fnac, o entusiasmo de diferentes aborígines com microfone, do outro lado do rio, em Porto Seguro.
Vangloriam-se aqui de ter o mais alongado Carnaval do Brasil, pois ainda estende-se por mais um fim de semana. “Estou feito ao bife!”, conclui. Grande prova de resistência estas festas. Para os adeptos, porque são dez dias sem parar de dançar, ainda por cima com a quantidade de água que fez ato de presença; mas, para os sofredores, penso difícil achar mais eficaz mecanismo de tortura.
Uma das conclusões que tirei com rapidez, na minha perspicácia, quando fiz o Caminho de Santiago, é que o corpo precisa de descanso, sobretudo após uma jornada de desgaste. Também percebi a eficácia dos tampões para os ouvidos, após constatar que a capacidade torácica de alguns hominídeos, poderia competir, e ganhar, com as mais barulhentas espécies da criação. Nestes dias, não houve tampão que garantisse mínima eficácia. As vibrações dos graves circundantes retumbavam no meu corpo qual demônio em Linda Blair.
Hesitei à hora de decidir onde passaria o Carnaval, o meu primeiro no Brasil. Opções não faltavam: Rio, Salvador, Olinda ou aqui mesmo. Toda a gente mandava o seu palpite, cada qual mais impetuoso e contraditório que o anterior. Aos poucos, fui ficando irritado com o orçamento preciso para aproveitar estas festas com um mínimo de condições, sendo como sou um pedaço de gringo, sinônimo de objetivo a abater nesta selva de diferentes registros. Quer camarotes, quer abadás, quer hotéis com preços multiplicados por dez, motivaram que ficasse em Arraial, na casinha japonesa com paredes de papel.
A moda do tunning também pegou na Bahia, mas com um toque de tipicidade: os buffers e os alto-falantes colocam-se para fora e não para dentro do carro. Nas proximidades da minha casa zen, parecia haver um concurso mundial de decibel’s automobilísticos. Decidi então seguir a máxima: se não consegues derrotar teu inimigo, alia-te a ele. Isso fiz, enfiei-me no calção de banho, pus os chinelos e fui à parada de ônibus mais próxima, que funcionava 24h durante as festas. Após vinte minutos de esquivar buracos, e tempo equivalente na balsa, desembarquei em Porto Seguro, como Cabral, só que eu às quatro e meia da manhã.
Ainda havia trio elétrico, mas não público em consonância com o escândalo. O pessoal dividia-se fundamentalmente em hooligans a cair de bêbedos e vendedores ambulantes, ora de qualquer comida indigesta imaginável, ora de combinados de sumos naturais, prestes a ser misturados com destilados de quinta dimensão. A maior parte das mocinhas que andavam a solta, apesar do seu ar desembaraçado, tinham muito que sambar para chegar à maior de idade. Todas deliravam e reproduziam coreografias e letras tão estimulantes como: “perereca vai, perereca vem, segura a perereca e não dá ela pra ninguém...”. E não foi precisa muita imaginação para descobrir que raio era a perereca.
Sentindo-me por completo alheio a tão desolador delírio, em três ocasiões, com intervalos de dez minutos, deram-me cartões com idêntica mensagem: “A prática sexual com menores, no Brasil, é crime punida por lei”. A situação até que era caricata, pois quase todas as mulheres que estavam dançando, em vestimentas mínimas e insinuantes, não atingiam mesmo os dezesseis anos; pelo que pensei que o melhor era fazer o caminho de regresso a casa, sem levantar muitas ondas.
Os que não disfarçavam a sua felicidade eram os mosquitos, ante tanto corpo solto. Descobri que, da mesma maneira que eu atinava uma variedade determinada de castas nos vinhos, o baiano distinguia um sem fim de insetos voadores criminosos, porém não punidos pela lei: pernilongos, borrachudos, mosquito-prego, muriçoca, fincudo, carapanã..., diferentes denominações para filhos da mãe que não te deixam dormir.
No outro dia, até houve um tipo engraçado que me disse, quando mostrei-lhe minhas pernas esburacadas: “Ah! isso foi do preguiçoso”. Muito preguiçoso não deve ser, pensei eu, porque não me deixou de picar a noite inteira. Nessas horas intermináveis que passei deitado na cama, olhando para o infinito, sem vontade nenhuma de me mexer, ao ritmo da perereca vai, perereca vem, segura a perereca e não dá ela pra ninguém!



O cão continua a se coçar

De todas as pessoas que tenho encontrado neste périplo, há uma que reconheci de outras vidas. Aliás, tenho a estranha sensação de que já fui ele. Desconheço se os espíritas, e demais teóricos da reencarnação, acham isso possível.
Poderão pensar que é uma coincidência; tudo bem, estão no seu direito. Pedro tem três filhos: duas meninas e, entre ambas, um rapaz. Eu também tenho duas irmãs, e sou o do meio. Suas filhas chamam-se igual que as minhas irmãs: Teresa e Ana Maria. O filho não se chama Alfredo, mas tem o nome do meu pai e do meu avó materno: Luís. Arrepiante foi o dia em que reparei num retrato da mãe do Pedro quando era nova: igual às fotos que tenho da minha, falecida trinta anos atrás. Engoli saliva. Chama-se Dulce, e o é de verdade. A sua caniche miniatura cheira a polvos de talco e leva lacinhos cor de rosa. É a Dulcinha, que chora de felicidade quando lhe fazem mimos.
A história começou da seguinte maneira. Pouco tempo após a minha chegada ao Brasil, recebi uma chamada do meu amigo Luís, um safado com coração de ouro, perguntando-me onde eu estava: em São Paulo, respondi. Então, faz-me um favor, liga para o Arara, anota lá o número. “Pera aí! Para o Arara?”, reclamei; ele foi contundente: “Foda-se!, não compliques e fala, caralho!”. Como para levar-lhe a contrária. Eu imaginava que tratar-se-ia de um tipo da idade do meu pai, porque vários amigos comuns referiam-se a ele como um dos responsáveis pela virada de Trancoso, no destino de moda que hoje é. E não é que era um cara da minha idade!
Em miúdo, chamavam-lhe Arara, porque estava o dia inteiro sorrindo, e Arara ficou. Ele é a prova viva do poder exercido pelo sorriso. Já o vi em situações constrangedoras em que, de forma inesperada, mudou o registro facial, reforçando ainda mais o seu contentamento, virando uma tarefa quase impossível resistir ao seu charme, mesmo tratando-se de meros caprichos.
Manter com ele uma conversa com princípio, médio e fim é obra. Pedro está sempre atento a tudo o que acontece a sua volta e não permite perder-se nada. Expectante, procura com avidez alimento para o seu sorriso ou vítimas para a sua sedução. O celular adquire um componente irritante nas mãos dele, pois não só está recebendo chamadas sem parar, como é viciado no envio de mensagens escritas, estimulador desse constante estado alterado de consciência em forma de boa disposição.
Pedro trabalhou durante anos no mercado financeiro. Um dia abriu uma pequena loja em Trancoso, como uma brincadeira, com peças de decoração, mobília e artesanato brasileiro. Sentia-se desajustado no seu meio profissional e a princípios do novo milênio, foi desafiado por um milionário com casa em Trancoso, para centrar-se com firmeza nesse projeto, criando a marca Arara do Brasil e abrindo uma série de sucursais em São Paulo.
Pedro adora o contato com o público, ter pessoas a sua volta, alimento do seu particular estado de euforia contagiante. Dai também ser sócio, de um restaurante em São Paulo, onde combinamos o nosso primeiro encontro. O espaço era tão charmoso quanto ruim a comida.
Na sobremesa, não dispensou quarenta minutos de conversa telefônica com uma namorada que tinha arranjado em Barcelona. Ao mesmo tempo, ia esboçando-me piscadas de cumplicidade, talvez por causa da compatriota.
Voltamos a nos encontrar em Trancoso depois do Carnaval. Pedro falou-me que tinha um almoço, no dia seguinte, na casa do seu cunhado, com alguns amigos e moradores e que seria uma boa maneira de começar a estabelecer relações. Ofereci-me para ajudar na cozinha, o que faria com gosto e serviria para aportar minha dose de camaradagem.
Essa noite já fiquei para dormir na sua casa, no Quadrado. Lá estava o Dunga, um labrador que padece uma dermatitis lixada, com uma componente somática, pois a sua sofreguidão por se coçar, aumenta até limites de sangrar, com a presença, esporádica, do seu dono. É desesperante ver um ser vivo nesse estado. No início, pensei que se tratasse de parasitas e veio-me a cabeça a imagem do Brasil, sugado até o limite primeiro pelos seus descobridores e mais tarde pelos próprios brasileiros, sem estar interessados em nenhum tipo de remédio que alivie tamanha aflição.
No tal almoço, conheci a Beatriz Cardoso, filha do anterior Presidente da República. Em conversa, contou-me que trabalhava numa ONG orientada na alfabetização de zonas do Norte do Brasil. Emanava um feiticeiro equilíbrio de fortaleza e vulnerabilidade. Gostei dela.
Pedro, entretanto, interessou-se por aonde eu iria morar e o que iria fazer. Antes de tomar qualquer decisão, queria passar uma temporada em Trancoso, para perceber. Em Arraial d’Ajuda, fiquei de saco cheio depois da experiência do Carnaval. Estava precisando de calmaria e de usufruir do encanto do Quadrado. No que diz respeito à parte profissional, apenas tinha começado a escrever e comentei-lhe que talvez fizesse alguns jantares por encomenda, prévia marcação, servindo um menu de degustação que variasse segundo os produtos; porém, uma vez que tivesse instalado.
Pedro ofereceu-me ficar num apartamento, meio abandonado, que tinha na sua loja de decoração. Pareceu-me uma ótima idéia.
Participou-me então o projeto de recuperar as últimas casas do Quadrado, com uma incomparável vista do mar, criando um sistema intermédio entre o aluguel por temporada e pousada. Sugeriu-me a fazer os tais jantares lá, sem compromisso. Convite que ficou no ar. Mostrou-me, além disso, a sua preocupação pelo restaurante de São Paulo, onde não conseguia chegar a um acordo com os seus sócios sobre o tipo de comida, colocando-se a questão de poder, eventualmente, prestar-lhe uma assessoria. Achei uma boa maneira de manter um elo com a cidade que tanto tinha gostado.
Na manhã seguinte, o Arara voltava para São Paulo, mas antes apareceu Dona Glória, uma velha parteira trancosense, que se tornou benzedeira ou rezadeira, como dizem por aqui. Fez uma espécie de cerimônia de limpeza para o meu novo amigo, utilizando algumas ervas do seu jardim. Fiquei curioso e conversei bastante com ela. Dona Glória já tinha assistido ao show do Jô Soares e também à casa do Big Brother, para tratar a uma das participantes. Estava fascinado ouvindo as suas histórias, quando ela me espetou: Sabe qual seria a ilusão da minha vida? Ter o dom de ler e escrever. Retorqui que dom era o que ela tinha, que ler e escrever era questão de aprendizagem e perseverança. Até mais, que se ela quisesse eu ensinar-lhe-ia com prazer. Ai contei-lhe a história da minha amiga cega, a quem um dia perguntei se, com os avanços médicos, não haveria possibilidade de recuperar a vista. Elucidou-me, afirmando que talvez sim, mas que ela já funcionava na perfeição sem ver, que tinha desenvolvido outras capacidades e não estava interessada em ser confrontada com cores e imagens nessa altura do campeonato. Recomendei a Dona Glória que matutasse no assunto, porque existem diferentes tipos de linguagem para relacionar-se com a realidade e ela tinha desenvolvido a sua própria, que talvez pudesse sofrer algumas interferências com a nova aprendizagem.
De regresso a Arraial, dei carona ao Pedro para o aeroporto e lá, na fila para apanhar o vôo, estava a Beatriz. Pedi seu contacto e contei-lhe da benzedeira. Aconselhou-me então começar com coisas básicas, como ensinar-lhe o seu próprio nome, ou os dos seus filhos. Bom, com isso tinha com fartura, porque teve dezoito!
Dias mais tarde, apresentei-me na sua casa, disposto a dar a minha primeira aula. Ela deixou-me mais de uma hora à espera, até que achei aquilo um absurdo e fui-me embora.
Até hoje, em que o cão continua a se coçar.



Saudades não correspondidas

Pela enésima vez tentei resolver o problema da internet e, de novo, sem sorte nenhuma. Depois de ponderar o investimento necessário, entrei na loja da Vivo de Trancoso, decidido a comprar uma placa de modem para o meu portátil. Essa solução me permitiria, supostamente, navegar por todo o território brasileiro, sem limite de capacidade, por uma mensalidade fixa. Feitas as contas, compensava. A moça que atendia, não estava nem aí. Perguntei se vendiam as ditas placas. Respondeu que sim, mas que estavam em falta. Tem idéia de quando chegarão? -inquiri. Sei lá! Eu amanhã entro de férias, disse-me. Talvez arranje em Porto Seguro, mas pode ser que também lá estejam em falta, continuou no seu discurso elucidativo. Será que pode ligar e perguntar se realmente têm? Uiiii! Isso é que era bom! Como eu já lhe disse, amanhã entro de férias e, por isso, suspendemos também a linha telefônica - rematou. E, mais uma vez, apesar de ter tomado a decisão de solucionar a porcaria da ligação a internet, reconheci a já habitual sensação de impotência.
Afastei-me um pouco do Quadrado, para entrar numa lan house em uma zona mais popular, onde o custo de acesso à internet é bem mais barato. Abri o correio eletrônico e vi um mail do meu amigo Vasco, intitulado Saudades não correspondidas. Com sentido de humor recriminava-me por, nos últimos dois meses, não dar sinais de vida: “Não acredito que estejas ainda sem telefone, que não haja maneira de te contatar, que não tenhas sequer metade das saudades que eu tenho de ti… Fazes cá falta, cabrão!”, terminava de maneira, suponho eu, afetuosa.
Respondi, centrando-me na parte burocrática, explicando-lhe como arranjar algo tão simples como um chip de telefone tinha virado um verdadeiro calvário. O fato de ter andado pelo Rio e São Paulo, nas últimas semanas, tinha complicado pra cacete a dita comunicabilidade uma vez que, cada Estado no Brasil, funciona como se fosse um país (diferente) na Europa, pagando roaming por cada chamada feita ou recebida, quando se sai do município do Estado onde se assinou o contrato. Enfim, uma história de loucos.
Esse assunto das saudades, fez-me refletir. De fato, as saudades dele não eram correspondidas, porque não consigo ter saudades de nada nem de ninguém. Nem sequer da minha cadela, Doxy, que morreu um mês antes de eu ter vindo para cá, depois de catorze anos de uma intimidade imensa; nem sequer das minhas queridas irmãs ou dos meus amigos mais próximos; nem também de minha mãe, para falar do universo das almas que já se desligaram do corpo mortal.
Não consigo ter saudades porque não quero nem encaro mais o amor como uma possessão. Não consigo ter saudades porque acredito no amor que sinto em cada momento, mesmo distante; porque o carinho dos que me amam está em mim, no meu respirar, nesse acordar com sorriso, nesse meu querer de viver com intensidade, nessa confiança na Vida que me trouxe a este outro canto do mundo.
O amor é energia, um fluxo que nos sozinhos limitamos. Somos nós os que a toda hora precisamos de etiquetas. A tal ausência de saudade é conseqüência de uma liberdade conquistada, de um espírito sem fronteiras, de uma bagagem que transporto no meu olhar.
Encontrei-me para almoçar, na praia, com o Jorge e a Tita Roquette, casal a quem me liga um sentimento de familiaridade, que nos permite entrosar conversas e emoções com identidades saltitantes, onde os protagonistas resultam irrelevantes para o efeito desejado, o que permite que a nossa intimidade seja regada com o orvalho do outro. Eles acabaram de chegar com um grupo de amigos para desfrutarem de uns dias na beira-mar. Foi bom tê-los por perto no momento em que estava instalando-me em Trancoso.
À noite, combinamos ir jantar a um charmoso restaurante deste vilarejo mágico, O Cacau.
Fui o primeiro a aparecer e fiquei no Bar à espera deles, bebendo um suco de abacaxi com hortelã. Reparei em duas mulheres conversando, ao mesmo tempo que estendiam telas de uma beleza estonteante. Lindas cores! –manifestei. E convidaram-me a sentar-me com elas. A mais nova tentava vender tecidos, que trouxera da Costa do Marfim, à dona do restaurante, Dora. Esta última perguntou-me se eu era de Valência. Respondi-lhe que se podia ser espanhol, sem ter nascido valenciano. Interessou-se pela personagem vestida com uma camiseta de Ganesha, a deusa Índia com forma de elefante que afasta os obstáculos com a sua tromba. Contei, ainda, que iria morar os próximos meses em Trancoso, onde tinha vindo para escrever, afastando obstáculos tal como a deusa que homenageava na minha roupa. Questionou-me se eu estaria interessado em alugar a sua casa, pois pensava ausentar-se por uma temporada. Comentou em seguida que adoraria conhecer a Espanha e lançou uma questão no ar: “Sabe qual é o meu sonho?”-. Fazer o caminho de Santiago, afirmei eu sem hesitar. Ela ficou sem palavras. Estranhos estes golpes de intuição. Contei-lhe que o tinha acabado de fazer há quatro meses e que, sem sombra de dúvidas, tinha sido uma grande lição. Dora descreveu que a sua primeira caminhada consistiu em percorrer os quase mil quilômetros que separam Salvador de Trancoso, com uma filha bebê ao colo. “Mas eu não vou lá para sofrer, nem para me martirizar; se me sentir mal, paro e acabou-se”, enfatizou. Seria conveniente que fosses com uma mentalidade menos predeterminada, argumentei, porque um dos grandes presentes do Caminho é o de conseguir desdramatizar a dor, pois ela faz parte do quotidiano e, perdendo esse medo, tudo se torna possível. Quando os meus amigos chegaram, Dora disse-me, olhos nos olhos: A minha casa é a tua casa. Eu abracei-a sorridente.
Ainda algo aturdido, e comentando este encontro com a Tita, senti um toque nas minhas costas. Era o Pedro, o irmão do tal das saudades não correspondidas. Veio passar uns dias de férias e não sabia que eu estava em Trancoso.
Sem sequer ter conseguido ainda reagir, passou-me o seu celular onde a voz rouca do Vasco misturava-se com a sua surpresa e gargalhadas por tamanha coincidência. Passados os primeiros instantes de conversa divertida e algo atrapalhada, o Vasco começou-me a falar do seu dia-a-dia, do que estava a jantar, das saudades que tinha de partilhar comigo o vinho que estava bebendo e ouvir os meus comentários, ou das saudades da minha opinião sobre a coquille saint jacques, com purê de aipo, que estava degustando.
Nesse momento comecei a chorar. E chorei pela amizade, por essa familiaridade preservada que me transportou a algo tão palpável como o prazer dos sabores compartidos. Chorei, quiçá, por toda essa saudade não correspondida que aguça tanto o meu presente.



Fafá de Belém

Penso na fase em que tive o restaurante no Casino Estoril, como uma das mais tristes da minha vida. Praticamente desde o dia da inauguração, percebi-me que não iria dar certo. Mesmo assim, proporcionou-me alguns bons momentos e permitiu relacionar-me com pessoas que passaram a formar parte do meu universo emocional. Uma delas foi a Fafá de Belém.
A Fafá costumava ir ao Casino havia um quarto de século, a partir do vínculo que estabeleceu com o Dr. Mário Asis Ferreira, o Administrador. Foi mesmo ele quem me pediu que, nessa noite, prestasse especial atenção a Fafá, que iria jantar no meu restaurante após a apresentação do seu ultimo show, em que interpretava canções de Chico Buarque. A diva brasileira costumava ir ao Xtoril-Café sozinha com frequência; mas, nesse dia, convidei-a para fazer-me companhia, com a desculpa de experimentar uma série de vinhos, para as crônicas que, como O Gênio da Garrafa, escrevia no Diário de Notícias.
A conversa fluiu intensa e divertida. Falamos da sua filha Mariana, que estava dando os primeiros passos na sua carreira como cantora. Num determinado momento, recitei um poema e ela perguntou a origem. Respondi que era meu. Pediu mais, e disse-lhe que não tinha o hábito de memorizá-los; porém, se fazia questão poderia ir em casa á procura de mais alguns. Fez questão. Lá fui e voltei. Ficamos quase até ao amanhecer lendo, bebendo, rindo, chorando. Ela insistiu em que se fosse alguma vez ao Brasil a procurasse, ou no Rio, ou em São Paulo, e deixou-me as suas coordenadas. Insinuou apresentar-me alguns compositores, idéia que me cativou. Longe estava eu de decidir morar no outro lado do Atlântico.
Ano e meio mais tarde, tentei achá-la em todos os contatos que tinha comigo, que não eram poucos, pois incluíam vários celulares, telefones fixos e uma conta de correio eletrônico. Foi inútil. Após sucessivas tentativas, abdiquei. Achei que, se não fosse a vontade de Deus, não teria sentido insistir.
No tal almoço que ajudei a cozinhar em Trancoso, conheci Jorge Mendonça, um português erradicado há mais de vinte anos no Brasil, que estava passando uns dias de férias. No meio do rega-bofe, tocou o seu celular e não resistiu participar que se tratava da Fafá de Belém. Então, pedi-lhe que comentasse que estava junto do seu poeta português preferido. Ela exclamou logo: “Oba, o cabrão do espanhol!”. Trocamos os contatos e, umas semanas mais tarde, nos encontramos em São Paulo, na altura que comecei a minha tarefa de assessor gastronômico.
Liguei-lhe uma noite para marcar um encontro e ela preferiu que passasse por sua casa, pois tinha preparado um jantar para a sua filha Mariana, prestes a fazer anos. Foi tudo fácil e descontraído, até ao momento em que eu lhe perguntei pela mãe da prima de João. A cantora mudou a sua expressão. Perguntou-me se eu conhecia bem a dita senhora e eu respondi que sim. Isso desencadeou uma conversa que só acabou pela alvorada, horas depois do resto dos convidados terem ido embora, em que ouvi relatos apaixonados que entrosavam com pessoas que me eram muito chegadas em Portugal.
Um par de dias mais tarde, recebi uma chamada, às oito e meia da noite. Era Fafá, convidando-me para uma festa de fantasia surpresa, para Mariana. Ótimo! Contestei, querendo saber para quando; ao que ela retorquiu que estava prestes a começar. Mostrei meu espanto, pois a essa hora seria complicado disfarçar-me de qualquer coisa de jeito, a não ser de mim próprio. Ela, rindo, propôs: “coloca um lençol e vem de fantasma!”. Eu acabava de conhecer uma moça, muito querida, que trabalhava como produtora para televisão. Falei-lhe logo e, passados apenas dez minutos, apresentou-se com uns adereços de corsário, que me assentaram que nem uma luva, pois estava de cabeça rapada e barba incipiente.
Entrei na festa, em grande forma, com o meu look de Pirata do Caribe, onde não dispensara o brinco gigante. Fiquei oteando o panorama um bom tempo, como ave predadora à procura da sua presa, na velha tática de escolher com quem queria e desejava estabelecer contato, para não desperdiçar munição, já que o esforço é o mesmo que fazendo-o à toa. Após voltas e mais voltas, sempre ia parar no mesmo botim: uma linda mestiça com rasgos orientais, mascarada de menina rebelde. Nem mais, o que ela era, uma menina rebelde à espera do pirata que a resgatasse do seu mundo de futilidade, ajudando-a a cruzar os mares dos seus próprios medos. Foi assim que me apaixonei pela bela e enigmática Satoko, quando retirei o tapa-olho para piscar o meu globo ocular e ela, acenando com o índice, sugeriu que me aproximasse.
E me aproximei, sim.



O celular da Geisa

Aproveitei para ir de novo a São Paulo, coincidindo com uma feira internacional de vinhos, juntando o útil ao agradável. Sabia que me encontraria com produtores, alguns deles muito meus amigos, em especial, Joaquim e Margarida Cabaço, do Monte dos Cabaços. O oferecimento da sua familiaridade foi uma descoberta que virou uma bela conquista. Tal como a chegada dos portugueses a Porto Seguro, quinhentos anos atrás.
No momento em que a Margarida me viu na feira, saiu disparada do stand para pendurar-se nos meus braços, ante o olhar conivente do seu marido que teve que manter a compostura, enquanto servia um dos seus tintos a um potencial cliente.
Combinamos para jantar e comentei-lhes que aproveitaria para apresentar-lhes a minha namorada. Satoko, que significa mulher inteligente, é de pai japonês e mãe indígena, também era do Pará, como a Fafá. Já tinha me relacionado com mulheres bem mais velhas do que eu, mas não tanto ao contrário. Neste caso, com vinte anos de diferença.
Durante o jantar, a Margarida falou da enorme qualidade de vida que se pode conseguir no Brasil, preservando-te de ambientes de pobreza e violência. Reagi argumentando que não se podia viver neste pais em constante estado impermeável e que havia que aprender a lidar com todas as realidades que aqui se ofereciam.
Margarida questionou-me, então, sobre Trancoso e eu afirmei que, num lugar tão pequeno como aquele, manifestava-se todo o Brasil. Trancoso tem favela, e muita, tem desigualdade social, sensualidade, pobreza e manifestações de consumismo tão irritantes quanto inevitáveis.
Não resisti participar o caso da minha empregada doméstica. Geisa é o protótipo que todos temos na cabeça de uma cabocla baiana, só que em grau superlativo. Delicada, até os dedinhos dos seus pés parecem feitos por encomenda. Tem um jeito de andar, de mexer-se, perturbador. Mesmo perturbador, como diriam Dupont e Dupont. Ela ficou sem perceber muito bem minha distância, que passou em todo momento por preservar a privacidade de alguém que trabalhasse para mim, seja qual fosse a sua função. Por várias vezes, até pensei em dispensá-la. Estou convencido que etiquetou-me de homossexual para conseguir digerir tamanha indiferença; aparente, mas indiferença, a fim de contas. Daí que a chegada de Satoko, para passar comigo um fim-de-semana, a chateou ao ponto de não resistir espetar-me: E este negócio das visitas vai virar costume?.
O apartamento emprestado, no meio de uma loja de decoração, me conferia um toque de encenação teatral que nem de propósito teria conseguido melhor. A Geisa era prima de uma das funcionárias que limpava a loja e me foi indicada como a pessoa certa para arrumar o meu quarto. Bastava uma hora por dia. Geisa propus-me um valor que eu não resisti negociar e ela aceitou minha contraproposta, sem hesitar.
Ao segundo dia de trabalho notei algo estranho nela, uma tristeza profunda. Quis saber se podia ajudar em alguma coisa. Informou-me, como bem suspeitara, que estava grávida. Ou que não tinha imaginado era que, com dezessete anos, tratara-se de seu terceiro filho. Teve o primeiro aos doze, pesando quilo e meio ao nascer. Deixou de estudar pela necessidade de pôr-se a trabalhar e porque os professores ausentavam-se mais do que os próprios alunos. Indaguei sobre o pai da criança e ela me informou que estava no estrangeiro e que não merecia sequer saber da dita paternidade, mas que tinha um novo namorado que, consciente da situação, estava disposto a assumir o pequeno e até tinha proposto em casamento. Quis saber dos seus outros dois filhos. Geisa então acabou-me de surpreender. Ambos moravam com a avó, mãe da Geisa, e com o pai das crianças, o seu ex-marido. Por esse motivo, ela tinha saído de casa e vivia com a sua prima num quarto alugado. Alegava: “Foi eu que quis separar-me; por isso, como posso irritar-me porque ele pretenda ser feliz, mesmo que sendo com a minha mãe? Em qualquer caso, sinto-me esquisita”.
Não sabia o que fazer e pediu a minha opinião. “Ter o filho, implica conseqüências; não tê-lo, também. A decisão é sua”. No fim da conversa, decidi aumentar-lhe o ordenado. É badalhoco viver neste pais querendo poupar-se sempre a qualquer tipo de confronto.
Um par de dias mais tarde, Geisa participou-me que tinha um assunto delicado que tratar comigo. Pensei num eventual apóio econômico para abortar, ou não. Começou com uma conversa enrolada. “Você viaja muito, né? E não gostaria de estar em contato comigo, quando esteja fora?”. Sim, respondi, sem perceber muito bem aonde me levaria esse devaneio. “É que acabo de ver um celular que adorei e queria pedir-lhe dinheiro adiantado. São quinhentos reais”. Isso implicava um par de meses do seu trabalho, com dois filhos, outro por vir, mais uma enfermidade degenerativa nos ossos. Disse-lhe que não achava esse um tema prioritário, mas que refletiria. Nos dias seguintes, combinou mini saias impossíveis com a persistência nos seus argumentos, como que eu podia e que ela desejava muito. Por fim, decidi esclarecer: “Estou muito contento com você, limpa bem, me agrada sua presença, mas escuso sentir-me forçado por caprichos dispensáveis. Dito isto, se quiser continuar comigo, tudo jóia; senão, tudo jóia, na mesma”. Ela continuou.
Uma onda de reflexões assaltaram-me dia e noite. Ela não mentiu, o que teria sido bem mais eficaz, contudo manifestou o que sentia. O desejo e a insatisfação do consumismo tinham ganho mais uma vítima, como eu o fui durante anos sem fim. Morar numa casa humilde, passando cada dia por lojas com vestidos que custam cinco vezes o teu ordenado, é perturbador para qualquer um. Pretender compensar limitações e angústias amealhando objetos, mais ou menos inúteis, parece a fábula de grande parte da minha existência. Quem era eu para julgar ou para ter uma conversa paternalista, que amansasse minha consciência?
Queria dar uma solução a esta encruzilhada e não sabia como. Satoko, então, ofereceu-me o seu antigo celular que precisava de uma compostura. Oro sobre azul!
Quando regressei a Trancoso, dei-lhe o aparelho bem embrulhadinho e ela o aceito, desconcertada. Talvez, porque o fruto da sua perturbação já tinha-lhe escorregado, voluntariamente, entre as suas pernas, reduzindo o tamanho das suas mamas e do seu umbigo com piercing. A quem falar então? A quem cantar nana neném? O ser que tanto esperava ouvir a sua voz, transformou-se em coágulos de sangue e serviu como abono de coqueiros.
Durante meses, Geisa não conseguiu dormir, pois um choro de criança ecoa dentro de sua cabeça cada vez que o descanso reclama os seus direitos.



O Cemitério de Budapeste

Desde adolescente, várias vezes cheguei a pensar em seguir a carreira diplomata, mas sempre encontrava uma significativa limitação: a enorme dificuldade que tinha para os idiomas. Unamuno dizia que o espanhol fala com patriotismo todas as línguas. E não é que agora falo, escrevo e sonho em português! Isso sim, com um indisfarçável e jeitoso sotaque. De todo modo, com um efeito perverso. Sendo tão semelhante com o castelhano, estabeleceu-se um misterioso sistema de vasos comunicantes: quanto melhor me expresso na língua de Camões, pior o faço na de Cervantes. Daí que eu vivesse um certo conflito na decisão de sair de Portugal para vir ao Brasil, pois existem matizes significativos e diferenciadores na linguagem de ambos países que irão baralhar, ainda mais, o tal mecanismo compensatório. Mas nada como confiar no destino.
É curioso que as primeiras colaborações de imprensa que estou recebendo desde que me radiquei na Bahia sejam de publicações espanholas. Uma delas é mesmo engraçada. Consiste em enviar reportagens sobre restaurantes estrangeiros. Comecei por alguns portugueses, aqueles que experimentei no Rio e, sobretudo, os de São Paulo que revelou-se uma verdadeira lição de humildade gastronômica. Também, estavam interessados naqueles que tinha visitado na Europa, na despedida que fiz de alguns amigos.
Assim, recém instalado em Trancoso, aprendendo a conviver com a minha própria transpiração, da maneira mais natural possível, acabo de terminar uma crônica sobre um bistrô em Tokaj, na Hungria, que descobri com Francesca, seis meses atrás. O seguinte texto, o escrevi em Lisboa ao meu regresso daquele episódio.
Decidi dedicar este domingo a passear por Lisboa, tal qual fosse um despistado turista, para combater a falta de curiosidade e entusiasmo que, com tanta frequência, provoca a rotina. Foi desse jeito, perambulando por Alfama, que acabo de entrar no Teatro Tavorda, após descer do Castelo de São Jorge. Por coincidência, ouve-se na estereofonia do bar “Lua de São Jorge”, na voz de Caetano Veloso, reforçando a sedução estética produzida pela luz crepuscular do Outono e o nascimento da lua nos telhados desgastados de uma cidade esgotada por tanta lamúria.
Na sala de entrada, há uma exposição de fotografias que tem como tema o Cemitério de Budapeste, que percorri poucas semanas atrás com a sedutora Bety.
Fui a Hungria para ouvir os silêncios da mulher que tem os olhos da cor do mar sem sol, mirando mais para dentro que para o que lhe rodeia, como penumbra sedenta de luz de um quadro de Caravaggio. Francesca nasceu no exílio, na Itália, com temor dos homens, como quem vem ao mundo com sardas. Esse medo, cedo atraiu olhares e roces indesejados. Ela conseguiu aproximar-se de mim, porque reconheceu o meu lado feminino, estabelecendo uma cumplicidade fraternal de outras vidas, acolhendo-me como a sua melhor amiga. Nessa estadia escrevi para ela, e para mim, o seguinte poema:

As palavras de criança
saem da minha boca
para acordar o teu sorriso,
o mesmo que ficou fechado
naquela escuridão sem chave
quando foste mordida
pelo monstro
que se alimenta
com teimosia
de inocências despistadas e confiantes.
Eu consigo resgatar essa luz
através dos teus olhos
através dos meus olhos
nessa nossa linguagem
de brincadeiras infantis,
que surge
quando sinto teu respirar
o dobogó
desse coração traquina
escondido
por baixo de uma gigante almofada
de penas de anjo
e polens de abelhas rainha
com cheiros de essência
das nobres grainhas da tua terra.

Budapeste, a vinte e oito de agosto de 2006


Um pouco para me proteger e se proteger a sim mesma do meu embelezamento incipiente, Francesca fez questão que conhecesse sua amiga Erzsebet, Bety para os amigos.
Bety, pelo sua vez, não manifestava o mínimo receio com os homens. Talvez por ter crescido no país que os seus antepassados tinham ajudado a construir, desde posições de privilégio. O mesmo país que se reinventou vezes sem fim, durante todo o século XX, chegou a pontos de identidade nacional cada vez mais efêmeros. A morte de Puskas produziu um sentimento de orfandade, entre os magiares, difícil de entender desde nações saciadas de referências patrióticas.
Eu projetei na Judy, como era previsível, esse desejo que a Francesca fingia ignorar, até para ela própria. “Quero conhecer Budapeste através da tua alma e das tuas lembranças”, sugeri. Desejava passear pelos recantos que lhe protegeram e ajudaram a desenvolver essa personalidade sapeca e cosmopolita, cimentada em quartos cinzentos, onde se dormia em lençóis de linho com brasões bordados.
O domínio da frivolidade, como mecanismo de proteção de uma inocência violada pela omissão, seduziu-me tanto, na Bety, como o seu corpo de precisão e cheiro aristocrático.
“Amanhã poderíamos combinar ao meio-dia, na porta do Cemitério”, indicou Bety, abalada por um grão de exposição tão imprevisto e imediato, com um estrangeiro com quem comunicava num inglês imperfeito, mas eficaz.
No dia seguinte, cruzei a cidade caminhando desde o apartamento de Francesca até o nosso ponto de encontro. Budapeste proporciona contrastes gritantes, pois convive a total ausência de estética das construções comunistas com palácios deslumbrantes que restaram do Império Austro-Húngaro, ora em estado decadente, ora recuperados com primor, junto com edifícios de arquitetura vanguardista chocante. O Cemitério era um remanso de paz, parado no tempo, um dos poucos lugares que apenas sofrera alterações nas últimas décadas, que preservava quase intactos destelhos do seu resplendor. Está dividido por setores, destacando-se a parte zíngara, a judaica e os túmulos das famílias tradicionais, verdadeiros livros de história, com letras de pedra e páginas de floresta atrevida.
Bety mostrou as suas origens através de catedrais em pequena escala, confessando-me que foi lá onde costumava perder-se quando a sua vida carecia de sentido, na sua pervertida puberdade. Naquele silêncio, ela ia contando-me da sua vontade de criar uma escola privada elitista, quando eu senti uma irreprimível vontade de beijá-la, por primeira e única vez.
No dia seguinte, voltei para Lisboa, prestes a ultimar os meus preparativos para viajar ao Novo Mundo.



Michele trouxe os seus olhos de muito longe

Quando era criança ouvi um conto que, sem ser muito infantil, resulta esquisito que tenha perdurado de forma tão nítida na minha memória, até pode ser que seja por isso mesmo. Quando as empresas de petróleo americanas chegaram à China, a princípios do século XX, houve uma companhia que adotou a estratégia de regalar lâmpadas como inovador programa de fidelidade. Foram passando os meses e a dita multinacional não vendia nem um galão. Quando foram informar-se sobre a causa de tal fiasco, perceberam que ninguém punha em causa a qualidade das suas luminárias; mas, na altura em que eles tinham oferecido as lanternas, a concorrência tinha proporcionado de graça o petróleo para as encher. Quantas vezes focalizamos o nosso esforço em estratégias de aparente lógica, em vez de no objetivo em si, dispersando nossa energia!
Nesta fase de reformulação de vida, pretendo evitar reincidir nessa atitude e vou procurar ser honesto com as minhas prioridades, bem simples, aliás: experimentar com intensidade tanto a tristeza quanto a alegria, algo básico para tentar ser feliz e fazer feliz aos outros, através dos meus atos e também das minhas palavras.
Disposto a emancipar-me do rótulo de crítico de gastronomia e vinhos, minha atividade profissional nos últimos quinze anos, achei que o melhor seria poupar-me a esse tipo de colaborações no Brasil, o que resultava inevitável na Europa. Apostaria em propostas mais pessoais e criativas. Pensei em reproduzir algo semelhante aos perfis psicológicos, publicados meses atrás no Diário de Notícias, após um encontro informal com diferentes personagens, mais ou menos públicas. Assim, surgiu a oportunidade e o desafio de escrever sobre Michele, na altura namorada do Pedro, que ofereceu-se de cobaia para mostrar este tipo de colaboração em médios de comunicação social brasileiros.
Marcamos um jantar e, nessa mesma noite, saiu este texto:

Michele trouxe os seus olhos de muito longe. Escolheu a cor deles inspirando-se em dois elementos, o mar e a melancolia. Há quem olhe para ela e repare primeiro nesse tom azul grisalho, que se encontra com mais facilidade em mares de águas fundas, em mares de águas frias, que refletem nuvens de fim de tarde, do que nas águas do trópico brasileiro onde nasceu. Mas há também quem repare no seu físico curvado, nas suas linhas felinas, nos seus seios perfeitos, no seu andar bamboleante, guizo de cascavel, aviso de perigo de uma picadura de morte súbita.
Michele nasceu fêmea, e fez bem. Teve que administrar-se para estruturar o seu conhecimento e para integrá-lo num espaço quase preenchido pelo seu corpo, pelos seus olhos. Mas é difícil que alguém perceba primeiro esse seu mundo interior, que o seu olhar protege de maneira cada vez mais firme.
Michele programou a sua vida e, como era de prever, tudo ficou alterado. Para já, nasceu com presa. A sua mãe tinha dezessete anos e o seu pai dezoito, quando foi concebida com mais tesão que consciência. Nasceu trazendo carinho, confusão e um sentido de responsabilidade que assentava-a grande, como o vestido de um defunto próspero num familiar pobre. Teve que resolver, desde cedo, equações complicadas demais para a sua idade. Aos seis anos seu pai desistiu desse projeto familiar e a criança Michele ficou sem perceber essa dinâmica de abandono. A rebeldia manifestou-se no seu componente mais primário, em conflito com o feminino, com a sua mãe, com as namoradas do pai, com o resto das mulheres.
Michele estudou arquitetura e encontrou trabalho sem dificuldade. Michele ficou noiva muito cedo, pois queria exorcizar o seu passado no seu presente.
Michele, flor plantada no mar azul grisalho.
Michele deu a volta a sua pele, quebrou seu noivado e cedeu à sedução de um homem da idade do seu pai, que não resistiu tamanho frescor. Ela também não conseguiu resistir tamanha investida de fórmulas com incógnitas por decifrar e apaixonou-se por aquilo que achava resolver-se-ia por si. Michele ainda não é mãe dos filhos que ela desejaria ter sido. Nasceu judia, mas leva uma medalha com os santos que a sua mãe tão católica sustenta. Porém, aproximou-se do budismo intuitivamente, quem sabe se para aprender que o karma não é um destino fixado, senão a consequência de uma atitude e que, sem mudança dessa atitude, repetir-se-á a mesma história até um infinito mareante. Michele quer amar até não ter forças, para perceber os seus limites. Tem que aprender, para conseguir perdoar. Tem muito caminho pela frente. Tem lágrimas guardadas há muito tempo que precisam liberdade. Tem lágrimas de sabor amargo que precisam adocicar. Tem lágrimas obscuras que precisam de um pôr-do-sol, para nascer com aroma de mar, com gosto de iodo e tempero de paz.
Michele trouxe os seus olhos de muito longe.

Ela ficou vários dias digerindo o texto e, no meio desse processo, ligou-me para dizer que sua mãe fazia questão de conhecer-me. Combinamos um segundo jantar, desta vez a três, no mesmo restaurante do Arara.
Maria Teresa, mãe de Michele, tinha a minha idade. Atrativa sem discussão, emanava uma soberba experiência de vida. Perguntei-lhe pelas suas origens e então me narrou a odisséia da sua mãe, sobrevivente de Auschwitz. Pelo visto, foi liberada pelo mesmíssimo Joseph Menguele, com quem exerceu como tradutora particular, junto com a sua irmã, uma vez que eram as únicas húngaras que falavam alemão. Certo dia Menguele lhes confidenciou que poderiam fugir, mas caminhando numa direção determinada, sem nunca parar. Passadas umas semanas, e montes de peripécias, foram acolhidas por uns parentes da comunidade hebraica de São Paulo, uma das maiores do mundo.
Antes de morrer, deixou um pedido: que as suas cinzas fossem enterradas no Cemitério de Budapeste, com os seus antepassados. Filha e neta cumpriram essa promessa em datas coincidentes com o meu beijo furtivo à bela Erzsebet.



Carol, a filha do farol (outra cobaia)

Demorei bastante tempo para perceber que, o que uma mulher precisa para se sentir pessoa, é diferente do que um homem precisa para se sentir pessoa.
Mais tempo ainda demorei para perceber que tudo aquilo que nos acontece, sobretudo no núcleo familiar, tem a ver com uma aprendizagem necessária, em função de eleições antigas.
Carol escolheu ser bonita, mais ainda do que isso: bela. E ainda por cima, foi premiada com uma saúde que perspectiva para longe possíveis limitações.
Mas, pela beleza, teve que pagar um violento tributo. A sua mãe apaixonou-se por um homem que encarnava esse predicado. Deslumbrante e charmoso, com os olhos de um azul resgatador de luz, como um farol que teima em iluminar unicamente as cores abafadas pelo nevoeiro. A mulher-mãe ficou grávida e sentiu o poder da Beleza nas suas entranhas, o que fez que desejasse essa criança, apesar da fuga do progenitor, que não estava nem aí ante o cenário de um amanhecer luminoso. Desperdício de farol, talvez pensasse.
Carol, a filha do farol, viu a luz sem nunca ser olhada pelo azul da pupila paterna. Carol ficou com a chancela dos seus genes, nesse tom cinzento que pigmentou suas íris. Cinzento, de nevoeiro por desvendar.
Carol foi adotada pelo terceiro marido da sua mãe-mulher e foi quem conseguiu um melhor relacionamento com esse homem-pai, entre os seis filhos de complicadas combinações materno-paternais que conviveram entre si.
Tal como aqueles seres que vão ao supermercado e são confrontados com montes de garrafas, querendo comprar um simples vinho tinto; Carol, desde criança, percebeu que poderia escolher qualquer homem que se propusesse, nas prateleiras desse bazar que é o destino. O seu cartão de crédito ilimitado seria o seu simples sorriso. Ainda por cima, desde um promontório de privilégio, ao desenvolver o seu trabalho como manequim em Milão, recém terminada a adolescência.
Experimentou então deixar-se amar por um homem rico e poderoso, dispensador de mecanismos compensatórios tão fascinantes quanto irritantes. Experimentou então apaixonar-se por um grego primário, cuja lembrança do cheiro lhe faz ruborizar. Experimentou então um paisagista que lhe pudesse ensinar a tratar do amor como de um jardim harmonizado. Experimentou então a cidade. Experimentou também a natureza. Experimentou a consciência e os estados alterados da mesma. Tanto experimentou, que ficou sem saber que mais experimentar.
Este Natal cruzou a nado o oceano que separa à Ilha Bela do Continente brasileiro. Seis horas sem preparação, seis horas de desafio. Nos momentos de fraqueza, pensava na gratidão, memória do coração, em vez de na habitual dialética demandante para com a divindade. A sua linguagem espírita consegue-lhe facilitar, sem dúvida, a fluidez de energia que se manifesta em cada pormenor do seu corpo, do seu corpo belo.
A sua força interior revelou-lhe uma grande lição: a capacidade de conseguir aquilo que se propusesse. Só que Carol ainda não sabe de que se trata. Só que Carol começa a estar cansada de tanta experiência. Só que Carol está pensando em atracar numa marina confortável. Numa marina sem faróis, numa marina sem preocupação de nevoeiros.
Carol, a destemida que não tem medo da dor, teme a solidão inerente à paixão. Carol, a destemida que não tem medo do sofrimento, teme a solidão inerente à atenção e à segurança. Carol, a bela sereia com pernas, teme ouvir a intermitente buzina do farol cada vez que sente a luz esquentar a sua espinha. Carol, a sereia sem escamas, sente aconchego, no entanto, na umidade das nuvens abafantes, que gelam os ossos da maioria dos mortais.
Carol, a bela Carol filha do farol, nasceu numa noite sem lua, num dia sem sol, num crepúsculo de nevoeiro, como explicam os seus cruéis e lindos olhos cinzentos.



Eu sou de Oxossi

Pouco tempo após a minha chegada, fui confrontado com o universo do candomblé e umbanda. Ambas, manifestações religiosas estruturadas em raízes africanas que usufruem da iconografia católica. A primeira com ritos pré-cristãos, a segunda fundada a princípios do século XX.
Minha primeira experiência, nesse sentido, foi em Salvador. Fui lá para me encontrar com Cíntia, com quem mantive contato depois de Rio. Ela ia à capital da Bahia com a sua mãe, para celebrar sua reforma como professora de português em Coimbra.
Na véspera da viagem fui perguntar a Dora, a dona do Cacau, se poderia me aconselhar um bom pai ou mãe de santo. Falou-me da Mãe Filhinha que, com cento e três anos, ainda atendia fregueses em Santo Amaro, a terra de Dona Canô, carismática figura matriarcal, mãe de Caetano e Maria Bethânia, que também já completou o seu primeiro centenário. Santo Amaro é o berço destes cultos de forte entroncamento baiano. Mas como ia por poucos dias, e ainda há alguma distancia entre Santo Amaro e Salvador, me recomendou um outro pai de santo “poderoso”, foram as suas palavras, na capital: o Wellington.
Combinamos ao meio dia num salão de beleza indicado pelo Wellington, no Mercado da Madalena, próximo do Pelourinho. Apareceu bastante pontual. Tratava-se de um moço bem parecido, que lembrava um negro veneziano (lá estou eu com as minhas referencias culturais do Museu do Prado, com o fácil que seria dizer que era um típico baiano de corpo atlético), vestido com sedas bordadas em ouro, multidão de colares e um turbante de entrançado impressionante (daí a tal referência à figura veneziana, capicce?). Esta personagem, nada discreta, tentou vender uns secadores de cabelo, em segunda mão, á dona do cabeleireiro, pois aquele enfeite de vaidade tinha já exercido a dita profissão. Na atualidade, sentia-se capacitado para subsistir da sua mediunidade. Comentou-nos a sua eminente viagem ao Senegal, onde iria aprofundar com colegas seus africanos de candomblé (e talvez contatar com fornecedores de tecidos).
A seguir, fomos ao seu terreiro, num bairro marginal. Esperava-nos um barraco com lajotas sem rebocar, atestado de imagens estranhas, com cheiro intenso a cravo, cachaça, tabaco, canela e diferentes sândalos, incensos e especiarias; aonde a sujeira, nos seus variados matizes, era o elemento predominante. Lá atendeu primeiro a Cíntia. Chegada a minha hora, deitou-me os búzios e fez umas cabalas, concluindo então quem eram os meus orixás dominantes. Comunicou-me que gozava de uma proteção intensa e que tinha a obrigação de desenvolver as minhas capacidades. Insistiu em que deixasse o hotel onde estava hospedado, para ficar mais perto dele e assim o ajudaria nos seus trabalhos, entre os quais aqueles que nos acabava de recomendar por uma substanciosa quantidade de reais. A Cíntia foi nessa. Eu tentei trocar-lhe as voltas e comentei-lhe que andava com curiosidade de visitar o Mercado de São Joaquim e ele advertiu que não era lugar para um gringo passear sozinho. Assim que acompanhou-me a esse antigo comércio de escravos, que bem mais parecia um cenário de Seven. Em um labirinto de caminhos, quase sem luz e cheio de lama, se multiplicavam os postos que vendiam animais vivos para sacrificar, diferentes tipos de feijão e farinhas, velas de variados cores e tamanhos, santos de todos os materiais e feitios, bonecos de vudú, cachaças, verduras, frutas, especiarias... O Wellington, vestido de maneira pontifical, ia cumprimentando vendedores em quanto recusava galinhas com o pescoço pronto para ser degolado.
Senti um clima pesadíssimo nesse percurso, digno de uma feira popular de terror. Conseguia perceber presenças de profundo e arcaico sofrimento. Sofrimento de incompreensão, de escravidão, de falta de perspectivas, contrastante com as toneladas de ouro com que está decorada a vizinha Igreja de São Francisco, a mais rica do Brasil, onde os nativos não podiam entrar, ficando-se pelo saguão. Foi aí que os africanos se foram familiarizando com as figuras que representavam alguma fidelidade com os seres sobrenaturais que eles veneravam nas suas cerimônias proibidas, onde relacionavam-se com espíritos de luz, orixás. Ori significa coroa e Xá, luz. Essas coroas de luz são entidades evoluídas, fontes de energias primárias, ligadas aos quatro elementos: ar, terra, água e fogo.
Em Salvador tinha previsto ficar uma semana e precipitei a viagem de regresso a Trancoso, porque a figura do Wellington se impôs com teimosia.
Fiquei, porém, sem perceber porque o azul celeste ia tomando conta do meu mundo, porque sentia necessidade de comer e beber tanta fruta, de pisar a terra, ouvir a floresta, sentir o cheiro das plantas e da umidade, que me faria optar por uma casa na mata e tratar, pela primeira vez, de um jardim, com sentido de responsabilidade e troca energética. Por que o sentido de justiça domina a minha personalidade. Por que escolhi Trancoso e não nenhum outro lugar de América Latina. Longe estava nesse momento de saber que eu era filho de Oxossi, caçador da madrugada, rei das matas, senhor da astúcia. Oxossi, o orixá mais brasileiro, que é representado pelo São Sebastião, cuja imagem se encontra na igreja de Trancoso. Longe de supor que minha parte feminina está sob o manto de Oxum, a orixá do amor, da harmonia e da concórdia, a que proporciona o equilibro emocional. Senhora das águas doces, rios e cachoeiras, mãe e porta do misticismo; que não é senão a Nossa Senhora da Imaculada Conceição, presente também na igreja de Trancoso e no rio que dá nome à vila.



Facada Brutal

Nestes meses, topei-me com algumas surpresas, porém uma das maiores foi achar o Francisco.
Já tinha comentado da existência de uma família em Portugal com a qual estabeleci vínculos que atravessaram três gerações. Precisamente foi a avó, Juliana, uma das poucas pessoas que me manifestou sua discordância perante a decisão de emigrar. Os seus argumentos eram consistentes: “Percebo que queiras mudar de vida, reformular as tuas prioridades, dedicar-te à escrita. Muito bem! Mas não poderia ser no Algarve ou em Trás-os-Montes? É preciso afastar-te das tuas raízes e das tuas irmãs, que tanto precisam de ti?”. Minhas satisfações foram mesmo estéreis, e só geraram mais irritação. A esperança foi colocada, então, no Caminho de Santiago. Quando de lá regressei, marquei um novo encontro com Juliana, que ouviu os meus relatos com uma ternura infinita, provocando-lhe uma nova necessidade de interrogar-me: “Bom, então agora é que já não precisas de ir ao Brasil, não é?”. A minha reincidente teimosia, foi seguida de um resolutivo: “Nesse caso, vamos jantar!”.
Seu neto, João, foi a primeira pessoa do meu mundo anterior que encontrei no Rio, quando veio visitar a sua namorada carioca. A nossa diferença de mais de vinte anos, outorga-me matizes de irmão mais velho.
Em contra do previsto, senti rejeição no Rio, que poderá ser a cidade mais bela do mundo, mas sempre que observada com profilaxia. Isto é, as panorâmicas desde o Pão de Açúcar ou do Cristo Redentor não são fáceis de descrever com palavras, tamanha a imponência. Mas, quando se olha de perto, a miséria, a sujeira, a sensação de pânico e de que estás em permanente risco de vida configura uma constatação perturbadora. Em São Paulo, porém, a estética natural não resiste a qualquer tipo de comparação, mas trata-se de uma cidade viva, palpitante, com uma oferta cultural superior à maioria das capitais européias que conheço. De todo modo, resulta desconcertante pelos seus contrastes.
Em São Paulo me senti, desde o primeiro momento, como em casa, com estranha seguridade. Consegui decodificar com facilidade os preceitos urbanos dessa gigantesca metrópole, com mais de vinte milhões de habitantes.
João Pinto Ribeiro, responsável do Palácio do Correio Velho, onde celebrou-se o leilão da minha coleção de arte contemporânea, afincou em apresentar-me a um casal seu amigo, ambos paulistas, que além de charmosos e boa gente, poderiam ser de extrema utilidade pois relacionavam-se “con la flor y nata de la sociedad”, como alicia uma cantiga popular madrilena. Poucas semanas antes de embarcar para a Terra da Santa Cruz, coincidimos na fazenda do casal Pinto Ribeiro, no Alentejo. Mariana e Zé Augusto revelaram-se encantadores, com ágil sentido de humor e um traquejo social assegurado contra todos os riscos (e sem franquia).
O último jantar, antes de desmantelar o meu apartamento do Estoril, o realizei com eles. Foi uma dessas noites em que tudo saiu perfeito, em particular a combinação dos vinhos com pratos como um creme de espinafres com rebentos de legumes, que tinha sabor de terra; umas petingas marinadas em cítricos, sob guacamole, com sabor de mar; ou um patê de fígado de ganso defumado, servido com uma compota de restos de Quinta de Noval Nacional, amealhados de fundos de garrafas de uma prova vertical em Sintra, que sabia a glória. O casal paulista me fez prometer que não iria a Trancoso sem antes passar por sua casa, onde queriam me homenagear e dar-me a conhecer às “pessoas certas”.
Foi o que aconteceu. Quando cheguei a São Paulo, a Mariana preparou-me uma festa de apresentação na sociedade, como nos filmes em branco e preto de Hollywood. Até deu páginas de crônica social, no Estado. Foi aí que me apresentaram Francisco, o sobrinho, primo e tio da minha família adotiva portuguesa. Francisco organizava jantares na casa das pessoas e era íntimo dos anfitriões, quem nos propuseram elaborar um cardápio em conjunto. A partir desse dia, ficamos com uma profunda ligação.
Tinha ouvido falar muito do Francisco, em Portugal, com um denominador comum: cagada por todo lado. Tinha estado metido na droga e ludibriou familiares e amigos. Também, mexeu com assuntos intocáveis, assumindo em público a sua homossexualidade depois de dez anos de casamento.
Francisco ficou sete anos em São Paulo, sem que nenhum dos seus dez irmãos o tenha vindo visitar, e a maioria, nem sequer saiba qual o seu número de telefone.
Francisco veio ao Brasil à procura da sua identidade e aqui a achou. A nossa cumplicidade é enorme, e sinto um inquestionável orgulho na nossa ligação, pois é uma pessoa que se reconstruiu a si próprio, prescindindo de privilégios que, na sua terra, usufruía por nascimento. Convidei Francisco para trabalhar no restaurante do Arara e verificou-se a chave para a grande reviravolta que essa casa deu em poucos meses. Carolina, minha amiga de Arraial d’Ajuda, também deu seus primeiros passos nestes fogões.
Em São Paulo, onde cheguei a passar mais tempo do que em Trancoso, costumava ficar na sua casa. Precisamente estava com ele quando seu namorado, de vinte e três anos, foi degolado e morto à facada na rua, com o intuito de lhe roubar o celular.
Francisco teve de ir reconhecer o cadáver do ser humano com quem tinha transado e dormido abraçado nos últimos meses. Tratou, a seguir, da papelada e do traslado do corpo até Natal, onde morava a família do estudante assassinado.
Passaram-se semanas em que Francisco não conseguia sair da cama. Ele, defensor do Brasil até limites de paroxismo, disse-me quando recuperou alguma cordura: “Este país é assim, Alfredo. Tenho que ser forte. A vida continua, o que é que eu posso fazer?”.
Puta que pariu!



A Mariana, na morte do seu pai

Senti inveja
dos teus olhos,
brilhantes de saudade,
falando da morte
recente
do teu pai.
A morte do meu pai,
não tão recente,
deu-me também
brilho nos olhos.
Desde esse dia
deixei de ter saudades
de falar da morte
saudades de falar da morte do meu pai.

São Paulo, a dez de janeiro de 2007



O pai de santo mecânico

Ficando com periodicidade na casa do Francisco, nas minhas visitas mensais ao restaurante, consegui acostumar-me a alguns dos seus hábitos. Houve aspectos que me resultaram bem engraçados, como o fato de colocar uma jarra de cachaça no chuveiro ou ter uns misteriosos embrulhos por baixo da almofada.
Em repetidas ocasiões mencionara o nome de Cláudio, um indivíduo em quem depositava uma confiança extrema e que lhe tinha ajudado no seu processo de ser pessoa. Fui me interessando, cada vez mais, até descobrir que se tratava de um humilde pai de santo, seguidor de umbanda, que trabalhava como mecânico numa pequena localidade no extra-rádio de São Paulo.
Como a experiência em Salvador não tinha sido muito estimulante, mostrei algum asceticismo no início, mas acabei por pedir-lhe que me levasse um dia para conhecê-lo. E assim foi.
As distâncias em São Paulo estão condicionadas pelo trânsito, pelo qual complicam-se as previsões objetivas em parâmetros de tempo. Mas digamos que Cláudio vive a uma hora do centro, num vilarejo onde são frequentes as casas de aspecto inacabado e crianças jogando bola na rua, para não fugir do estereotipo brasileiro. Cláudio mora humildemente por baixo do terreiro, que não é senão uma modesta sala com algumas figuras de Orixás, chifres espalhados pelo teto e cartazes emoldurados: bem de capoeira, bem de Ganesha, a tal deusa índia com forma de elefante que espantava os problemas com a sua trompa, lembra-se?
Cláudio é tipo baixo, de complexão forte, uns quarenta e cinco anos, caboclo, simpático, de aspecto afável e apertão de mão firme, estilo quebra-nozes. A antítese do Wellington, o seu colega baiano.
Sua conversa é pausada, descomplicada. Nada amigo do folclore, mais bem do diálogo consistente, a primeira coisa que fez foi decifrar, a partir do meu nome e data de nascimento, o meu mapa de ascendentes. Cláudio ficou chocado e afirmou que, em mais de vinte anos que levava exercendo as suas funções, tinha encontrado pouca gente com uma influência tão forte e tamanho potencial para ser pai de santo. Fez uns rascunhos, que logo me ofereceu, com os meus orixás protetores. Num determinado momento perguntou-me se eu era pintor, porque achava que tinha vindo ao Brasil para criar e, através das minhas obras, mexer com as pessoas. Eu disse que era escritor. Cláudio confirmou minha vocação como algo iniludível. Sugeriu que tomasse um ebó, explicando-me que se tratava de um ritual simples de limpeza, que me prepararia para esta nova fase, libertando-me de cargas que transportava da vida passada. Pareceu-me consistente.
Passado alguns dias voltei lá, pronto para a cerimônia. Foi austera, digna, sem concessões à frivolidade. Tinha-me mandado ir vestido de branco e colocou-me no interior de um círculo formado por uma série de ingredientes: feijão, farofa, diferentes farinhas, milho... Um dos seus ajudantes deitou-me cada um desses elementos, enquanto Cláudio ia recitando orações a minha volta. No fim, fui a um chuveiro, entreguei as minhas roupas para que fossem purificadas e, depois de lavar-me, entrou o acólito e deitou-me uma espécie de caldo quente que trouxera numa balde de plástico, com um potente aroma de especiarias. Teria que ficar uma semana sem comer nenhum dos ingredientes utilizados no ebó, assim como evitar qualquer tipo de contato sexual, inclusive a possibilidade de dormir junto. Esse pormenor resultava escabroso porque, num par de dias, iria viajar a Europa durante mais de um mês, e não poderia me despedir de Satoko, com quem minha alma e meu corpo se fundiam com a conformidade de um apetitoso misto quente.
Satoko acompanhou-me ao ebó, onde Cláudio foi taxativo na questão celibatária, mas dispensou a possibilidade de dormir juntos, após as primeiras vinte e quatro horas.
Na sequência, muitas foram as provas de existência de uma presença benfeitora, com vivências que não consigo explicar, mas que aconteceram mesmo. Talvez a mais chocante foi quando, na seguinte viagem a Europa, desta vez com a Satoko, ficamos pendurados com um carro que nos tinham emprestado, na fronteira com Portugal. Depois de dois dias, em que a oficina não conseguia identificar a origem do defeito e já tínhamos programado um reboque e o aluguel de um outro automóvel, comentei a Satoko que tinha chegado o momento de pedir ajuda. Lá desci a ladeira de Ciudad Rodrigo, de olhos fechados, pedindo aos meus orixás a solução do imbróglio, pois levávamos as tralhas da separação da minha irmã menor, que ia com a gente, num Volkswagen Tuareg atulhado até dizer chega. Ao entrar na oficina, o encarregado não disfarçava o seu pasmo. De um momento para o outro, o carro começou a funcionar sozinho. Não encontrava explicação para o assunto, ao ponto de não nos cobrar nada pela reparação porque, segundo ele, nada foi arranjado.
Talvez os orixás aprenderam qualquer coisa de mecânica com o Cláudio, seu eficiente intercessor paulista.



Agulhão de Intimidade

Satoko está verificando-se para mim uma aprendizagem extraordinária, na percepção do que anseio ou não num relacionamento. Mostra-me os limites da minha capacidade de amar, da minha generosidade, da entrega, perfilando-me os contornos da intimidade que é possível partilhar. A intimidade, a dela e pelo tanto a nossa, virou o principal cavalo de batalha. Satoko foi educada para nem sequer considerar o âmbito do íntimo.
Há mais de vinte anos, com a idade que ela tem agora, escrevi:

Intimidade
pronuncio-te e desapareces.
Penso-te e me turbas em seguida.
Por isso ainda te ignoro
e te encontro só às escondidas.

Madrid, a dezesseis de julho de 1986

Não foi por falta de meios que Satoko jamais teve um quarto ou um espaço só para ela. Sempre o dividiu ora com a sua irmã, ora com os seus pais, com os quais compartilhava leito com frequência.
Por vezes, utilizamos conceitos sem ter noção exata do seu significado, o que provoca falhas de comunicação básicas, abraçando um relativismo que complica ainda mais o entendimento. Procurei o significado de intimidade no dicionário, com o intuito de proporcionar algo de objetividade ao dilema. Não resta grande margem de manobra: “qualidade que outorga bem-estar e privacidade; interioridade; que tem uma ligação forte com outrem; muito unido; zona espiritual íntima e reservada de uma pessoa o de um grupo, em especial de una família”.
Mais alto que as palavras, nos relacionamentos, falam as atitudes, que costumam ter mecanismos de funcionamento contraditórios, mesmo antagônicos, com o discurso verbal. O registro dialético da Satoko é brilhante, acorde com uma pessoa que está envolvida com uma tese de mestrado. O que acontece é que, num relacionamento íntimo, é esse núcleo do reservado que vira o alvo essencial da suposta monografia. Existiria uma primeira fase de recolhida de dados, seguida do estudo e posterior análises para retirar as devidas conclusões. Os preliminares deveriam corresponder ao período dedicado ao namoro em que, podendo surgir divergências, o importante seria perceber se os eixos fundamentais conseguirão encaixar na engrenagem da convivência e, por tabela, calibrar a capacidade de gerar mais movimento que colapso.
Nossa aproximação esteve envolvida num halo de magia e desejo. Houve a dose certa de prudência e coragem onde, pouco a pouco, foi-se desenvolvendo um recinto comum, num terreno fértil.
Por causa da sua idade, respirava-se primavera, frescor. Percebi que minha experiência de jardineiro poderia ser útil, sempre e quando não pervertesse sua natureza, ante a tentação de domá-la ao meu jeito, porém contribuísse no reforço da sua identidade latente.
O nosso encontro era analisado, com receio e ciúme, pelos que estavam perdendo terreno, sentindo-se excluídos. Até aí, nada de novo. O problema surgiu quando a própria Satoko quis-me incorporar a esse seu mundo, sem alteração nenhuma, como se não houvesse outra fórmula possível.
Na véspera da viagem a Portugal, condicionada ainda por cima pela promessa de castidade, Satoko dançou sensual com a sua irmã, de uma maneira ambígua que elas consideraram conveniente. Pospus a meditação deste assunto, para assim desvendá-lo aliado com a necessária perspectiva.
O fato de perder o avião, levou-me de novo ao apartamento que Satoko dividia com a dita irmã. Tivemos a mais linda e inesperada noite de amor. Não dormimos um só minuto, sem conseguir deixar de acariciar o corpo do outro, como extensão do próprio.
Por fim no avião, me veio o seguinte poema.

Viajo ao meu passado
com o presente besuntando o meu corpo.
Esta madrugada acariciei os meus anelos
em cada centímetro da sua pele,
no jeito como o seu corpo encaixava no meu,
nesse abraço que queríamos que não terminara nunca
e não terminava nunca,
moldando-se como massinha de modelar
nas mãos de um talentoso colegial.
Assim eram os meus dedos,
pincéis nas suas costas,
garatujando figuras infantis
que os anjos souberam interpretar
em cada traço.
E divertiram-se, compondo madrigais,
que, na nossa despedida,
adivinhei nos seus olhos,
obscuros e luminosos,
quando pronuncias-te, cantarolando,
amo-te,
amo-te,
amo-te.
Amo-te ecoa no meu dentro,
como se nunca mais houvesse mais noite
que a que Iemanjá ofereceu-nos,
devolvendo-me do mar que nos separa,
devolvendo-te do mar que nos une.
E tal como no teu Amazonas natal,
a chuva apareceu fértil,
brotando das estrelas da tua pele,
para encher a catimplora
que transporto, agora, na minha alma,
atada a uma cíntia.
Mudas-te o aroma do meu corpo,
quando lhe inalas-te o tesão,
esse que empapava os meus pelos,
os mesmos que abrigaram-te
essa noite,
em que Xangó,
cansado de tanta súplica,
quis descansar e sonhar,
para poder recordar como era o cheiro
do amor simples e profundo,
como era o cheiro
do amor simples e profundo
sem ida e volta.
Ansioso por descobrir
a que é o que cheira
uma noite sem fim nem princípio.
Á Satoko, no mar, a cinco de junho de 2007



Amar e ser livre

Meu amigo Pedro, sofre de profundas depressões. Não por vontade própria, apesar de aconchegar-se nelas como cauterizador de aparente sossego. Semelhante a essas pessoas que se auto-medicam, com efeitos secundários mais graves que a enfermidade original. No outro dia confessava-me aliviado: “Alfredo, estou bem melhor! Hoje, assistindo o noticiário, estavam retransmitindo uma reportagem sobre um islamista suicida, que rebentou-se no meio de uma delegacia de Bagdad… E não me senti culpável”.
Deu-me um ataque de riso e irrefreável vontade de bater palmas, como nessas reuniões de alcoólicos anônimos que costumamos ver nos filmes americanos. Porque aqui, tanto na Espanha como em Portugal, os bêbedos habituais tem nome e apelidos, até o ponto de deixá-los claramente visíveis nas etiquetas das garrafas de whisky, nos bares de alterne.
Agora, senti uma imensa determinação de ligar ao meu amigo Pedro; mas é tarde demais. Eu também estou radiante por contar uma novidade. Em fim, o farei a ti que estás lendo-me: “Estou bem melhor! Hoje combinei um jantar com a minha amiga Adriana, aquela de quem tanto gosto, a beijei na boca na nossa despedida… E não me senti culpável”.
É aqui o primeiro relato que escrevi neste tipo de formato, em que as personagens e o referido são reais.
O Pedro Paixão foi determinante na minha decisão de me assumir como escritor, transmitindo-me uma admiração e confiança que, até a altura, não sentia nem por mim nem pelo que colocava no papel. Adriana, pela sua vez, recebeu de mim uma força e auto-estima, na concretização dos seus sonhos, na mesma superior às que sentia por si mesma. Espanta-me esse encadeamento de “aparentes” ligações, cheias de sentido.
Adriana era veterinária da minha cadela. Linda desculpa que arranjei para me aproximar de uma das mulheres mais bonitas que vi na vida. Ser mulata, estilizada, elegante com naturalidade, com os olhos verdes rasgados, feições finas e lábios com exuberância das suas origens angolanas, não era para qualquer um. Estabeleceu-se a conexão, através do meu sentido de humor, atributo que desenvolvi para aprender a lidar com uma carga excessiva de timidez, desde muito novo. Mas, resulta curioso, foi Pedro quem me abriu a porta de entrada desta personagem, felina e cativante, levando-a para jantar no Xtoril-Café. Eu, que tantas vezes a tinha convidado com insucesso, fui vitima de uma manifestação de poder do rei leão, escolhido pela leoa mais esplêndida da manada.
É muito difícil resistir à beleza impertinente de uma mulher jovem, ainda por cima inteligente e com uma sensualidade incontrolável, até para ela própria. Eu, pelo menos não consegui.
Poucos dias depois, marcamos nosso primeiro encontro. Aí percebi que, por trás da formosura, escondia-se um ser conflituoso e embatucado. Que mais poderia desejar? Ainda por cima, um puto de um desafio! Qual seria o bloqueio que tinha, que era a única pessoa por quem minha cadela sentia ameaça, tanto pela tensão latente, quanto pelo componente animal de régia dinastia que emanava.
Certa noite, o seu instinto falou e o fez de maneira selvagem, com a força de uma água mansa que se precipita pela cachoeira, após uma viragem num princípio igual a tantas outras. Senti África naquela forma de beijar, de se mexer, de querer sentir-se mulher. Mas não houve entrega e, a partir desse momento, aconteceu um previsível, porém não menos molesto, afastamento da sua parte.
Meses mais tarde, acertamos um almoço após sucessivas tentativas infrutíferas. Tinha ganho tempo e alguma distância, o que permitiu-me decifrar a combinação do cofre onde guardava o segredo da sua profunda tristeza. Falei-lhe com carinho e firmeza, pronunciando com reverência cada dígito desse misterioso códice. Adriana começou a chorar, deixando pairar seu olhar no mar, as rochas e na areia desse paraíso preservado que é a Praia de Adraga. A partir desse momento, não valeria a pena continuar na mesma dinâmica de desculpas e subterfúgios. A nova tomada de consciência implicaria uma reformulação global: desde a sua profissão, aos seus afetos, passando pelo relacionamento familiar e a maneira de estar na vida. Passaria também por deixar de buscar amantes ou namorados que puxassem a sua cadeira de rodas emocional, como habituo-se a fazer ainda a sua família, sempre com a melhor das intenções.
Procurar a segurança dos nossos seres queridos leva consigo aceitar que, em algum momento, hão de se ter que enfrentar à selva que tanto lhes pretendemos proteger. Amar não é proteger. Amar não consiste em dar. Amar é compreender com generosidade de partilha. A vida está cheia de compreensivos autistas, punheteiros de privada. E o problema não está no fato de batê-la, porque uma masturbação partilhada e cúmplice pode ser um mágico momento de amor. Foda é o autismo!
Hoje voltei encontrei-me com Adriana, nesta viagem a terras lusitanas, após seis meses fora. Ela estava cansada, de ressaca, sem maquiagem, mas nunca a tinha visto tão poderosa. Quando a abracei, fiquei abalado. Puta que pariu! Cheirava a bebê! Cheirava a verdade, a esse aroma que embriaga nas crias que só se alimentam do leite materno e transmitem sensações daquilo que os crentes da religião em que cresci entendem como céu ou paraíso. Adriana já caminha sem precisar da cadeira de rodas. Deu os primeiros passos matriculando-se numa nova faculdade, ao encontro da sua vocação; ante o pasmo do seu círculo mais chegado, que fartara-se de projetar temores, com satisfações em aparência amorosas. O seu trabalho, as suas relações, mesmo o seu olhar mostra uma pessoa diferente.
Tem sido emocionante, chocante até, observar esse ser felino sem correia. Transmitiu-me a sua felicidade, pela via das suas conquistas. Eu olhava para o balbuciante brilho dos seus olhos, reflexo de luz de uma casta antiga, que haviam resgatado o fulgor da potestade dos seus antepassados. Disse-lhe que valeu a pena tanto esforço e sofrimento. Que o seu bloqueio era de tal ordem, que resultou milagroso ter evitado uma repercussão somática irreversível. Questão de raça e de proteção poderosa da Mãe Terra, através dos seus mensageiros, que em Teologia são catalogados como anjos e na antiguidade como deuses, e mais remotamente ainda como orixás, pensei e penso.
Trocamos poucas palavras. Falei-lhe que era tamanha a sensação de felicidade e de gratidão, que tinha necessidade de pedir-lhe para dormirmos abraçados, como uma oferenda de Amor. Foi mais que um desejo uma imposição, para fundir-nos na humildade da nossa grandeza
Ela respondeu-me com sabedoria: “Não amo o suficiente meu namorado para colocá-lo ante esta situação, que nunca entenderia. Ele até me disse há dois dias que lhe incomodava o meu cheiro, e sente-se perdido ante minha mudança. E eu nunca conseguiria lhe mentir. Por isso não o faço, mesmo que esteja carregado de sentido. Porque hoje, sem hesitar, digo-te que sim. Mas é impossível”.
Assumir a senda da liberdade, costuma trazer este tipo de implicações, que provocam mais vertigens em aqueles que nos rodeiam, temerosos de perder o controlo, do que nos próprios peregrinos. Foda o controle, também! Entre o controle e o autismo, que venha o diabo e escolha!



Doxy e a Pipoca

Mais da metade de minha existência, passei em companhia de um dos meus anjos da guarda na terra: Doxy. Ao princípio com a sua mãe, Nasty, que me foi preparando a sua chegada.
Nasty era linda, digna, honesta nos seus afetos, mas distante e com marcado feitio. Cativava pela sua beleza, que a levou a ser a campeã canina mais nova da Espanha, assim como a mais premiada de todas as raças, durante os anos que competiu. Somava títulos como participações o que, junto à insistência da criadora, que a vendeu com a condição de levá-la às exibições, fez com que me decidisse a inscrevê-la no Campeonato do Mundo de 1992. Comparada com os outros trinta bracos de weimar que concorriam, a priori parecia claro que voltaria a vencer sem dificuldade. Não pelos defeitos dos seus congêneres, mas pela rara majestade que emanava em todo momento.
Na pista, recusou mostrar a dentadura manifestando, no momento que considerou adequado, que a fase de fatuidade havia chegado ao seu fim. Expliquei ao juiz que era a primeira vez que isso acontecia, mas que eu conseguiria abrir-lhe a boca sem dificuldade. Enganei-me. Nasty não cedeu ante o que considerava o final de uma cansativa pantomima.
Mesmo assim, ficou em segunda; e eu, desapontado.
Acabamos passando esse fim-de-semana na praia, para fazer as pazes. Ela manteve sua distância no primeiro dia, enquanto eu lia a Interpretação dos Sonhos, de Freud, para dotar ao cenário da adequada dose de surrealismo. Na segunda noite, aceitou voltar para nossa cama.
Desenvolveu por mim uma conexão intensa, por vezes obsessiva, que chegou a dominar seus próprios instintos naturais. A criadora, personagem digna de um filme de Walt Disney, morava com mais de vinte weimareners e a sua mãe cega, num chalé, na periferia de Madrid. Propus o cruzamento da Nasty, com um outro campeão. Como eu mostrei alguma insegurança, fruto da minha inexperiência na assistência em partos, de cadelas ou qualquer outra espécie animal, ela fez questão em ficar com Nasty pouco antes da cria.
Nasty adiantou-se uns dias no alumbramento de apenas cinco cachorros, cuja venda permitir-me-ia até comprar um carro, modesto em cavalos quanto a quantidade de elementos nascidos. Percorri nesse momento os quarenta quilômetros que nos separavam, com inusitada rapidez, ansioso para conhecer os filhotes da minha querida companheira. Eram minúsculos, como ratinhos, sem ainda apontar a tonalidade celeste dos seus olhos. Elisa aconselhou-me que ficassem com ela, pelo menos uma semana, antes de os levar para casa, onde já tinha ajeitado um quarto para o acontecimento. Quando me despedi da Nasty, notei a sua frustração pelo meu abandono e, mesmo com o desgaste da recente parição e as mamas penduradas, fugiu pela janela do caricaturesco chalé e entrou no meu carro, desistindo da ninhada. Eu expliquei-lhe que tinha que voltar, que assim era melhor para todos. A mãe obedeceu contrariada, com um olhar semelhante a aquele que marcou o fim da sua carreira de Miss.
Nessa madrugada recebi uma chamada de Elisa, desesperada e desfeita em lágrimas. Nasty tinha esquartejado as cinco crias, mostrando sem hesitações a sua escolha. Entre tomar conta deles ou voltar comigo, não tinha dúvidas e assim o fez notar.
Nos anos seguintes, senti a vontade de perpetuar a sua linhagem e, já um pouco fora da idônea juventude, voltei a tentar o cruzamento. Nasty nunca gostou de outros cães, nem de nenhum outro macho que não fosse eu. Não houve a mínima concessão ou tentação com outros varões, mesmo na sua época do cio. De novo, entrei em contato com a criadora e fui desde o Porto, onde vivia na altura, a cruzá-la com, este sim, um Campeão de Mundo. Coitado do animal, conseguiu o seu propósito, mas não sem antes levar umas boas dentadas, que quase o incapacitaram para continuar o seu desígnio de prezado reprodutor.
Não quis assumir riscos e marquei uma cesariana uma vez que Nasty parecia disposta a continuar tomando salomônicas resoluções. Só nasceram dois cachorros, um macho diminuto e uma portentosa fêmea.
No quarto dos convidados coloquei o colchão no chão e lá fomos passando horas os quatro, pelo que Nasty começou a sentir-se menos aborrecida ao perceber-se de um certo espírito familiar que, sem entusiasmá-la, também não lhe desagradava de tudo.
O problema, desta vez, manifestou-se na cachorrinha, que comia com tripeira sofreguidão, sobretudo das mamas onde o seu enfraquecido irmão pretendia alimentar-se. Tal foi a glutonaria da pequena que o cãozinho morreu desnutrido, aos dois dias, apesar de haver tanto leite disponível.
Doxy, a sobrevivente, cresceu transbordando saúde e estabeleceu um tal vínculo comigo que transtornou bastante sua mãe. É infrequente que um cachorro não seja separado nem da mãe nem do resto da ninhada e cresça, desde o dia do seu nascimento, com os indivíduos com quem estabeleceu as suas primeiras ligações.
Quando eu casei, meses mais tarde, Nasty foi-se aproximando da minha mulher como sutil vingança para comigo e a sua sucessora.
Na minha família materna, devido a uma antepassada ilustre, Eudoxia de la Lastra, todas as mulheres desde várias gerações levam o mesmo nome. Assim, minha mãe era Maria del Cármen Eudoxia, e minha irmã mais velha Teresita del Niño Jesus Margarita Eudoxia. O meu pai aceitou este costume, porque colocou em primeiro lugar o nome da sua mãe, Margó. Ainda por cima, tendo ambas, avó e neta, nascido na mesma data, um dia dez de março.
Em homenagem à tradição familiar e ao desbordante protagonismo da cachorra, que me lembrava a minha irmã e, talvez, como uma truculenta compensação de um filho não nascido, que me gerou um profundo sentimento de culpa durante anos, batizei-a de Eudoxia, Doxy.
Minha irmã ficou puta de ter escolhido o seu nome mais irritante e não o seu apelido, Tete, o que segundo ela teria simplificado as coisas.
O meu casamento ficou marcado pela subconsciente rejeição da minha mulher, que projetou o seu instinto maternal nas cadelas, em especial em Nasty, cúmplice também nesses emaranhados códigos de ressentimento.
Uns anos mais tarde morreu Nasty. Sem ela ficou descompensado nosso frágil matrimônio, que desmoronou-se meses mais tarde. Eu fiquei abraçado, porém, ao mesmo ser que acompanhou-me cada noite de solidão, antes, durante e depois do meu enlace: Doxy.
Doxy viu truncada com rapidez as expectativas da criadora, e em parte minhas, de ser uma nova campeã na família. Uma intoxicação de cabeças de camarão, todos os que oito pessoas foram capazes de chupar numa noite de fim-de-ano, levou-lhe quase à morte em pleno período de crescimento, colocando-a num estado semi-comatoso, durante semanas. Para evitar qualquer tipo de dúvidas, recebeu, antes de completar seu primeiro ano, uma mordida que arrancou-lhe metade da orelha, quando tentava brincar com um cão da vizinhança.
Doxy cresceu no campo, em liberdade. Fugiu em duas ocasiões procurando aventuras ou, quiçá, encontrar-me fora dos portões, que se fechavam trás a saída do meu carro.
Doxy não foi tão bonita como a sua mãe, mas seu olhar e coração não tiveram igual.
Duas das mulheres mais importantes da minha vida ficaram com uma ligação profunda à cadela. Pipoca, com quem deixava a Doxy nas minhas múltiplas viagens, e Ani, minha outra irmã, com quem Doxy escolheu morrer por considerá-la a mais próxima a sua essência. A cadela precipitou um cancro, latente durante anos e, mesmo sabendo que viria comigo para Brasil, quis me oferecer o sentimento de liberdade mais genuíno, eximindo-me de qualquer resíduo de culpa pela minha responsabilidade por ela e o meu passado.
Confesso que não tenho saudades da Doxy. Sinto é gratidão por ela ter completado um ciclo. Com ela apreendi muitas coisas e as suas lições de confiança e generosidade tem sido para mim um desafio de perseverança. Mas também admito que sinto tristeza da alma, quando olho nos olhos da Pipoca e percebo a falta que ela sente desse elo familiar no seu dia-a-dia.
Por isso, hoje peço com tudo meu coração a Doxy, onde queira que esteja, derramando as lágrimas que nunca até agora tinha conseguido, oferenda de dor e agradecimento, que te aconchegues a Pipoca, fazendo um ninho nos lençóis da sua solidão, para ajudá-la como a mim me ajudas-te. Faz-lhe sentir que o seu coração e inteligência foram dignos do teu amor e respeito.
Pipoca, como Doxy, tem algo angelical. Doxy, meu anjo querido, vela os sonhos de Pipoca, até o resto dos seus dias, como tão bem o soubeste fazer comigo.
Esse é meu desejo. Esse é meu presente, Pipoca, no teu vigésimo quarto aniversário.



Olhos verdes

Na minha vida atravessei algumas fases obscuras, esconderijos aonde me soterrei para proteger-me da dor. Demorei anos em sair, em consequências bem mais tortas que as ocasionadas pelo sofrimento em si. Será que o que procuramos é mesmo a felicidade? Porque temos tendência a construir complexas estruturas que dificultam mais do que colaboram nesse cometimento.
Para poder escapar do meu perverso labirinto, tive que aprender a perdoar. Mas tinha que ser feito de maneira espontânea e sincera, sem fórmulas aprendidas nem penitências mal resolvidas. A vida, cómica, é bem mais simples que os perversos covis gerados pela culpa. A indulgência dilatou as minhas pupilas o que me permitiu vislumbrar o mais elementar: redimir-me na tentativa de ser feliz, abandonando o pegajoso sentimento de culpa por pretender viver com intensidade. O resto, foi deixar fluir. Pude, assim, entrever formas e trilhos para resgatar a luz do dia. Não foi fácil, também não uma tarefa impossível. Nem mais que deixar de dramatizar sem ceder na caminhada, por muitas voltas que pareça que estamos dando. As voltas, formam parte do processo.
Sinto orgulho na maneira em que conseguimos reconstruir a nossa família, neste momento reduzida, mas capaz de produzir um universo de sensações. Tete, minha irmã mais velha, viveu anos em Marrocos, numa altura em que ambos tínhamos os afetos baixo terra. Este fim de semana fui com ela, pela primeira vez, visitar esse Marrocos tão próximo e tão distante. Queria apreciá-lo através dos seus sentidos, porém com o meu olhar, reconquistado e livre. Íamos com outros seis casais. Eu fazendo par com a Ani, minha irmã mais nova.
As excursões em grupo costumam proporcionar viagens emocionais imprevisíveis. Fora das colméias de aparente segurança, que edificamos para nos convencer que temos algum tipo de intervenção sobre o destino, surgem com frequência emoções e fantasias que reclamam o seu habitat. Como um Conde de Montecristo, que aguarda com paciência anos o momento da sua libertação para, na maioria dos casos, se vingar.
O meu amigo Abraham fala que a Espanha e o Marrocos o que os separa não é o mar, mas o porco. Aprecio o seu talento e senso do humor, porém Espanha goza de uma liberdade e conta com uns rudimentos de justiça social que cheiram diferente quando cruzamos o estreito de Gibraltar. Existem, todavia, redutos de ficção, miragens de felicidade, que foram onde nos movimentamos e instalamos nesses dias.
Entre os melhores amigos da Tete, destaca um matrimônio peculiar. Ela é marroquina e ele suíço. Conheceram-se na balsa que comunica Tanger com Tarifa, onde Fátima era guia e Wolwgang turista. Há mais de uma dúzia de anos que esta família entrosa intimidades com a Tete, que na sua maioria resultam-me desconhecidas.
Fátima sonhava em casar-se por amor, emancipando-se de um ambiente tanto ou mais obscuro que os meus tortuosos labirintos. Teve que enfrentar as suas raízes, para contrariar o matrimônio que os seus pais tinham combinado com um taxista de Londres, a quem não conhecia e que a dobrava na idade. Hoje ganhou o respeito dos seus progenitores e da comunidade na que cresceu, a qual voltou com o seu marido e os seus dois filhos, para recuperar umas ruínas na Medina de Tanger, onde reconstruíram um pequeno e charmoso hotel.
Em todo este tempo fui sabendo das suas peripécias, pois tanto Fátima como Wolfgang formam parte do discurso afetivo da minha irmã. Coincidimos tão só uma vez e, se na semana passada me tivesse cruzado com eles na rua, não os teria reconhecido.
No barco que nos transportou como uma máquina do tempo, de um lado a outro do Mediterrâneo, senti necessidade de escrever um poema a Satoko, a mulher que conseguiu acordar um sentimento de paternidade que sempre disfarcei com diferentes doses de conflito. Ela tem experiências e dúvidas a enfrentar. Eu tenho o firme propósito de que o faça com a maior margem de liberdade que seja capaz de lhe proporcionar. Não é fácil lidar com a liberdade, nem com a própria nem com a alheia, mas uma vez tomada a decisão de não voltar a enterrar-me, não tenho outra alternativa.
Procurei a minha caneta e escrevi o seguinte:

Ofereço-te o meu silêncio
e, com ele, o espaço
onde vais poder respirar,
passeando descalça na grama,
úmida e suavizada
pelas minhas palavras emudecidas.
Poderás observar, assim, flores
que tem as cores da minha alma
quando te sinto
nesta distância
que de manhã nos une,
amareladamente,
e, no crepúsculo, afasta-nos
em tristes tons lilás.
Alguns casulos não conseguem abrir-se
sem o sol
nem o calor,
ocultos, como estão,
por pequenas sombras
de gigantes fantasmas lôbregos,
alimentados por tanta conversa,
engordados de inveja
e temerosos
de serem descobertos
e, pelo tanto, nervosos
ao ocupar um espaço
onde não permitem
que caiba
nem esse silêncio,
que ofereço-te,
para que possas respirar
aquela poeira remexida
que evitas e tanto precisas espirrar.



Verde como a tangerina verde

No cais veio nos buscar um taxista que portava um cartaz com o nome do hotel: Mandarina. Numa combi, com assepsia conveniente como para atravessar Tanger com ar climatizado e comodidade, chegamos às muralhas da Medina, onde descarregamos as malas a escassos metros do nosso destino, um oásis de paz e bom gosto. A imundice inicial foi transfigurada a partir de esforço, esperança, carinho e, sobretudo, como aposta de um mundo novo para os dois filhos desta família.
Emocionaram-me os abraços sinceros que deram-lhe a minha irmã, tanto o casal e as crianças, como a irmã de Fátima, Dânia, a mulher com os olhos verdes mais cativantes que tinha visto na vida.
Sorteamos os quartos, cada um mais aconchegante que o anterior. Depois de instalarmos, subimos ao terraço da cobertura, onde as gaivotas sobrevoavam o mar que se dimensionava a nossa frente, avisando-nos que a lua ia começar a exercer a sua hegemonia, num Continente onde é venerada como símbolo da sua religião.
Nesse momento, senti a necessidade de dar graças a Deus, ao meu anjo da guarda e aos orixás protetores brasileiros, Iemanjá e Xangô, que o meu pai de santo emprestou em vez dos meus, como protectores numa viagem em que iria cambiar de hemisfério.
Comecei aos poucos a entrosar-me com o grupo. Educados e gentis, eram pessoas que se relacionava bem com a vida. Entretanto, sem dar por isso, ia procurando furtivos tropeços com os olhos verdes.
À noite nos ofereceram um pequeno espetáculo no Mandarina, que era o nome do hotel. Um dançarino movia a ritmo trepidante partes do corpo, como nunca pensei que pudessem ritmar-se, tamanhas a precisão e a vivacidade. As mulheres observavam o show de maneira bem diferente que os homens. O artista sacou a dançar a Dânia, que se contornava com uma sensualidade contida, irresistível, incluso quando os giros ocultavam o seu olhar, o seu olhar verde de mexerica verde.
No dia seguinte tivemos a manhã livre, para ir as compras ou para jogar golfe. Não hesitei e achei mesmo o que procurava, desde babuchas até chilabas, passando por bombachas de formas assombrosamente tradicionais.
Uma multidão nos acurralava com persistência, oferecendo tabaco, pulseiras, telas, camisetas, pratos ou todo o que pudesse sair de uma lâmpada mágica ou da Cova de Ali Babá.
Tete ia organizando e orientando qualquer tipo de plano, com a sua habitual eficiência. Contudo, havia uma novidade: estava partilhando uma parte do seu passado com a sua família de sangue, a que escolheu entre todas as possibilidades do Olímpio e que tantas vezes tentou substituir, com diferentes grãos de desencanto.
Não faltaram oportunidades para ir estreitando laços, tênues e consistentes, com todos e cada um dos excursionistas.
Dividi meu quarto com a Ani, que por fim ficou equiparada na balança fraternal com Tete.
Como tinha decidido presentear espaço, tempo e silencio a Satoko, entreguei-me de corpo e alma ao presente. Aí topava como o carinho dos donos do Mandarina, a placidez das minhas irmãs e com os olhos verdes que iam me observando com tonalidades diferentes, como o mar quando tem vontade de confundir-nos com matizes cromáticos inimagináveis, até para transpostos consumidores de psicodélicos.
Fascinou-me descobrir uma loja com roupa de etiqueta árabe, levado lá por Fátima, onde não resisti experimentar um terno de noivo marroquino, digno para uma cerimônia de amor. Pensei em Satoko ao vestir. Também em como resultaria refletido nesses olhos verdes, que iam invadindo o binômio espaço-silêncio, que tinha oferecido na distância.
Essa noite jantamos no melhor restaurante de Tanger quase vinte pessoas. Eu com meu terno de noivo e os olhos verdes mesmo na minha frente. Ao terminar, fomos a uma boate, mas antes passei pelo hotel para vestir algo mais confortável, na mesma carregado de tipicidade mourisca. Não deixei de dançar um só instante. Necessitava expandir-me, liberar energia, testar a ligeireza do meu corpo e da minha alma, flutuando como quem experimenta o êxtase pela primeira vez. No princípio estava sozinho na pista. Aos poucos, foram juntando-se membros do grupo e outros alheios. Fiquei rodeado por um conjunto de olhos, de cores mais ou menos convencionais, mas nenhum como o verde jade que dançava de um jeito particular, numa cumplicidade divertida, ora sozinhos, ora com qualquer homem que não fosse o ocidental disfarçado de mouro.
Trocamos de discoteca e ficamos só as duas famílias de Tete: a de sangue e a de adoção. Não houve mais espaço para esconderijos pelo que, em apenas duas músicas, nos bailamos o um para o outro, sustentando o olhar.
Quando regressamos ao hotel, quase ao amanhecer, subi ao terraço. Precisava ver o sol nascer, reforçando o sentimento de gratidão a Deus, ao meu anjo da guarda, a Iemanjá e a Xangô. Deitado num cantinho acolhedor, num princípio destinado a beber chá marroquino, apareceu Dânia para dar-me as chaves do meu quarto. Nesse momento desejei abraçá-la, beijá-la. Beijá-la com os olhos abertos. Era um desejo sincero, mistura de tesão e delicadeza. Pensei então na Satoko, nos lábios que ela beija quando me beija; em Dânia e que eu iria embora e ela ficaria; em viver com plenitude o momento; na força do presente; no sentido da liberdade; na família que havia acolhido a Tete, quando eu lhe transmitia orfandade... E dei dois beijos nas bochechas, sussurrando-a que dormisse com os anjos.
No dia seguinte, em Axila, comprei um vestido lindo para Satoko, o meu amor próximo e distante. Fiz sem sentido compensatório ou culposo. Era o passeio final, onde não vieram os olhos verdes, que tinham ficado tomando conta dos filhos de Fátima. Estando apreciando os maravilhosos doces tradicionais, na final da sobremesa, pouco antes de apanhar o barco para voltar a Espanha, apareceu de surpresa, junto com o sobrinhos e seus pais, um brilho diferente de esmeraldas.
Confesso que alegrei-me ao ver Dânia. Confesso que me perturbou. Confesso que no ônibus de regresso observei a paisagem em branco e preto. Pensei no difícil que é ser livre e amar. Ser livre é não ter mais limite que a tua própria consciência, que há de conviver com os teus desejos, as tuas fantasias, a rotina e a ausência.
No barco emocionei-me mostrando fotos de Satoko no portátil e, ao chegar a casa, abri uma misteriosa nota que achei dentro da mala: “Nunca tinha me apaixonado por ninguém. Jamais beijei um homem, mas desejei com todas as minhas forças que o tivesses feito esta noite”.
Ao deitar-me, senti a mirada da liberdade, entre irônica e cínica. Verde como a mexerica verde; limpa como o amor resgatado das minhas irmãs; e forte e poderosa como a masculinidade que descobri na Satoko quando identifiquei, nos seus brilhantes olhos orientais, que ter nascido homem estava carregado de sentido. Amar e ser amado com espontaneidade por esta mulher escondida da luz, como eu o estive tanto tempo, não evitou que abrigara perversa saudade de atávicos refúgios.
A vida é isso, o deveria sê-lo, uma conquista diária. E o maior tesouro: ter alguém a quem querer e que te queira, em liberdade.


Cada dia ouço,
nas palavras
que teclas na distância,
amo-te.
Amo-te,
misturado com segredos
de dores guardadas,
tortuosamente protegidas.
Medo de verbalizar,
medo de enfrentar,
medo de partilhar,
medo de sofrer só,
medo de sofrer comigo.
Esse amo-te
tem medo de ti
e tem medo de mim,
tanto quanto o teu sofrimento
tem medo de amar
ou tão só
do sofrimento
em si.

Algeciras, dezenove de junho de 2007



Esse silêncio,
que achas
protege-me
de um obscuro profundo,
é vento de trovoada
que emudece aos pássaros
e esconde aos peixes.
Calor que não seca,
umidade que não molha.
A chuva
necessária
afogará
borboletas.
Mas dessas borboletas
nascerão flores
com cores de peixes tropicais
e cheiros de pássaros sem nome.
E se aclarará o ar
para poder ouvir as tuas lágrimas
e o teu sorriso
num outro canto do mundo,
quando respirem liberdade
submersos sob as ondas
do mesmo mar,
com um diferente apelido.

Algeciras, vinte de junho de 2007


Não te escondas do sofrimento
porque o medo seduzirá a tua liberdade
engravidando-a num descuido.
E passarás o resto dos teus dias
tomando conta dos filhos
de um marido ausente
que anda festejando o seu triunfo
no teu tempo
no teu espaço
no deserto de mofo da tua solidão.
E tu, mulher maltratada,
sem tempo nem espaço,
hipócrita vítima da Vida,
te queixarás em cada respiro
do que deixas-te passar ao lado,
ocupada em mudar fraldas
de merdas sem amor
e de mijo pestilento
como o teu peito
seco de leite
daquele amante doce
que acariciou às tuas cicatrizes
nas crostas dessa inocência
que preferis-te anestesiar
em baseados de medo
esnifando um pó de efeito emprestado.
O choro dos teus filhos,
que se reproduzirão em teu ventre
como ratas,
moscas ávidas de estrume,
acordaram-te do sono
desse ópio que nunca te solta
desse sofrimento que já não terá esconderijo.

São Paulo, dezoito de julho de 2007




Por que me amas como a um saco de lixo,
fiel depositário dos teus vermes e carrapatos?
Pronuncias desculpa com cada amo-te
e engasgas tua boca de contínuos te amo,
desculpas que chegam aos meus ouvidos
como vidros friccionados,
como passar de unhas por um quadro de escola
onde ficam desenhados arranhões,
igual que nos balneários públicos
anunciando alucinantes
mamadas e enrabadas furtivas,
em vez de palavras
límpidas e luminosas
de simples bem-querer.
Esse giz de escrita suave e amorosa
o preservas para chantagistas
que te raptam com pânico de partilhar
a tua sexualidade, com estranhos
que lutam pelo amor e respeito,
pela consideração e intimidade,
fora do alcance da sua manipulação.
Melhor deixar-me morrer,
permitir o extermínio total
até, pode ser, que no caixão
caibam os vermes que nasceram
quando o teu excremento sentiu o sol.
Alucinações de êxtases em meia dose,
acabarás por pensar,
ou lembranças de ressacas de paixão,
igualzinho que nos filmes,
bem mais desafiantes
que o conforto aconchegante
do zulo afetivo onde nasceste,
com esse aroma familiar de dinheiro verde,
qual selva amazônica que tudo o engole.
Obrigado por essa coroa de despedida
irreversivelmente sincera.
Chora descansada, por fim,
o cadáver desse amor-desculpa,
assim poderás construir
com neurótica minuciosidade
um altar com luzes de árvore de natal
bem destacado no teu ínclito historial.

São Paulo, vinte e seis de julho de 2007



Dia dos Pais

Neste domingo doze de agosto estava a espera de qualquer coisa, exceto da celebração do Dia dos Pais. Na Europa, o dezenove de março, festividade de São José, tem pelo menos um significado com o que acabei por me identificar mais do que com a minha própria idiossincrasia. Tudo aquilo que lia e meditava no Novo Testamento, sobre o pai de Jesus e o marido de Maria, pouco o nada tinha a ver comigo. Porém, se entramos no circo das disfunções emocionais, na minha família também meu pai não se casou com uma mulher com recursos de sensualidade, organizando-se para consumar sua função de macho com o resto das fêmeas, enquanto não lhe lembrassem a sua própria mãe, o que na prática só excluía a sua esposa. Assim estabeleceu comigo, seu único filho, um constante concurso de afirmação, utilizando estratégias, lícitas ou não, para projetar-me uma personalidade mal resolvida. A figura de São José, marido afetuoso e alheio ao impulso sexual marital, foi me pois pacífico de aceitar. A promiscuidade extra conjugal paterna careceu, porém, de cumplicidade da minha parte. O meu despiste era de tal ordem que a única vez em que dei porrada na vida foi quando, aos doze anos, um companheiro de turma afirmou convicto que os meus pais transavam. Bom, meu pai poderia transar com quem quisesse, mas com minha mãe é que não! Fiquei mesmo fora de mim e, sem ter muito claro do que estava falando, argumentei durante a surra que só fodiam os maricões. Com o passar do tempo, percebi que também não andava assim tão despistado. Em fim, piadinhas aparte, com esta dica já ficam com uma idéia de como integrei o sexo na minha educação. A combinação franquismo-latente-catolicismo-militante, tinha motivos para sentir orgulho no seu brilhante pupilo.
No dia do meu casamento, o meu pai obsequiou-me com o seguinte mimo, espetando-lhe a minha recente mulher um “obrigado por gostar do meu filho”. Ela assumiu esse legado com ariana determinação, prestando homenagem aos seus antepassados nazis. O meu sogro foi igualmente explícito, propondo um brinde para que a próxima celebração fosse o nosso divórcio. Um cancro poupou-lhe, com antecipação, das despesas da nova festança.
A mulher que escolhi até quebrar o meu anzol com a Igreja de Roma, não hesitou em prescindir do nosso filho, ao pouco de nos ter conhecido, com um curioso fundamento: “Como vou dar esse desgosto ao meu pai! Eu paguei caro o meu tributo. Na minha separação, exorcizei da seguinte maneira.

Perdi o direito a chamar-me homem
no momento que me participaste a tua gravidez.
Minha atitude foi pior que o abandono físico,
pois tinhas a minha presença aparente,
embrulho de um enorme vazio de inseguranças,
pânicos de infância e terror ao compromisso.
Tomas-te uma decisão por ti só
que levou o carimbo da minha implícita recriminação.
Vivemos como se nada tivesse acontecido,
brincando a ser adultos, seres maduros,
numa espiral de auto engano constante.
Minha atitude veio de mão dada
com o castigo que a tua alma proporcionou:
amar-me com a plenitude do teu ser
negando-me até o limite a masculinidade.
Aprendi o ensinamento.
Brincar de ser homem, custou-me a minha decência.
Até tal ponto
que, alienadamente, aventuraste-te,
achas-te com ingenuidade,
a resolver o teu problema,
porque precisavas um homem e não de um filho ao teu lado.
Para isso, tive que morrer,
purgar e compreender as consequências dos meus atos.
Expirei como filho para renascer como homem.
Desde o mais profundo do meu coração
agradeço a lição.
Espero me reencontrar contigo
e manter te o teu olhar.
Tu foste,
e sabes disso,
a grande lição da minha vida,
a Beatriz que me guiou até ao nono Inferno.

Pouco antes de vir ao Brasil, no dia treze de maio de 2006, por sinal festividade de Nossa Senhora de Fátima, na Praia de Adraga, dei um passo a frente:

Ainda não fui pai
porque não deixaram-me ser mãe.
Séculos de desconfiança
e sobrevivência
estão contra mim.
Ser mãe é difícil
num corpo de homem,
que conjuga o verbo pessoa
em gênero masculino.

Henrique, o meu terapeuta de estimação, alertou-me sobre as escolhas realizadas nos meus relacionamentos, em que assumia como amigas as mulheres mais atrativas, aquelas que me pudessem confrontar como homem, e comprometia-me com as que tinham a maternidade excluída física, animicamente ou sob ambas as vertentes em comandita. “O que Alfredo deveria procurar seria mulheres em idade parideira, isso é que seria o natural”. O termo parideira é bastante gráfico, convínhamos.
Tive que vir a Brasil para encontrar Satoko. Depois de três meses de namoro, perguntei-lhe que esperava de nós. Foi firme. Teve um desengano amoroso aos dezenove anos, que a levou a renunciar a ter uma vida em comum, pelo que celebrava cada dia a sua independência, favorecida por um entorno econômico familiar mais do que confortável. Sem perder um minuto em considerar a possibilidade de que poderia aparecer a pessoa com quem sempre sonhou e que, segundo ela, eu encarnava. Nesse contexto, resultava-lhe lógico considerar a possibilidade de constituir família; isto é, ter quatro o cinco filhos. Ora bem, em qualquer outro momento da minha vida, teria fugido aos sete pés; mas desta vez, senti uma felicidade indescritível, como a libertação dum entupimento que parecia não ter fim. Olhei nos seus olhos e reconheci Vida lá no fundo.
Quando seu pai soube do aparecimento do estrangeiro de olhos verdes, manifestou a sua impotência ante o namoro da sua filha com um homem que não fosse ele próprio. Todo um clássico. Rebelou-se ante o risco de que a sua adorada filha o suplantasse pelo alienígena vindo do além. Eu quero a minha filha de volta!” -chegou-me a advertir ao telefone.
Hoje, dia dos pais, Satoko continua morando no apartamento que seus progenitores pagam para que possa preservar a sua emancipação controlada. Sem nada que celebrar, ao menos comigo.
Raio de festividade esta, sobretudo para quem sente pudor e arrepios em repetir o Pai Nosso, em paz.



Primeira comunhão nupcial

A memória tem processos seletivos curiosos. Tendo em consideração que deixei a Universidade há mais de vinte anos, chegando a estudar a volta de setenta matérias em três cursos diferentes, das que pouco sentido prático aplico hoje em dia, não ofende ninguém o esquecimento do nome de parte desses temários.
Em Teologia, a orquestração intelectual mais completa, complexa e perversa de Ocidente, aprendi Filosofia da Natureza, onde me seduziu uma figura de presença diferente da física ou a mental, que deram em chamar: presença do amante no amado.
Talvez na origem desse conceito, que nunca chegou a me abandonar, encontra-se esse poema datado em Madrid, a dezesseis de Novembro de 1986.

Não é verdade
quando achas irrelevante
o que pensas,
o que sentes.
Tua meditação e teu querer
os consideras imperceptíveis.
Não é verdade!
O que pensas existe além de ti
como refúgio,
refúgio construído
de umas mentes para outras.
Mas os sentimentos,
o produzido por ser tu,
é o maior tesouro,
miragem tão real
quanto tu próprio
que se desvanece
aos que morrem
nesse estranho viver,
sem pensar,
sem sentir,
sem querer ser.

Talvez a minha presença mais presente, posto a cortejar a redundância, tenha sido o amor pela minha mãe: em contato direto até a sua morte, aos meus treze anos e, de maneira mais ou menos sutil, cada dia da minha vida. Por exemplo, esta noite ofereceu-me um brinde tão inesperado, que não me deixa dormir.
Estabeleci com ela um compromisso impudicamente implícito que consistia em equilibrar a ausência masculina e protetora da minha irmã mais nova, que nasceu sem conseguir chorar, produzindo-se uma estranha necrose em parte do seu incipiente cérebro.
A inveja é o pior dos vírus, pois não fomenta qualquer tipo de satisfação; pelo contrário, quanto mais se experimenta, maior é a infelicidade. O Meu pai foi mordido por esse estranho vampiro, que o impelia a alimentar-se de maneira insaciável do seu mesmo sangue. Quem sabe, como vacina contra a propagação e aniquilação do seu infortúnio.
Minha mãe processava sofrimento e criatividade por meio da costura, elaborando seus próprios padrões e desenhos. Nos três crescemos com naturalidade rodeados por recortes de papeis que, mais tarde, viravam vestidos de simples e elegantes formatos.
A modificação de um irônico diagnóstico, o inicio de uma nova gestação por um devorador cancro, que deu o seu primeiro aviso amputando-lhe um peito e depois saboreando, com macabro sibaritismo cada um dos seus músculos e ossos, motivou a planificação da sua ultima obra. Consistiu num vestido de primeira comunhão, com traços de iniciação batismal, num esbanjamento de carinho, impotência e generosidade. Ani, minha irmã-filha, recebeu a sua primeira forma consagrada em casa, semanas antes de que nossa mãe se despedisse de nós em um incompreensível para sempre cartesiano.
Ani acabou por converter-se num ser com um toque angelical, devido a esse sangue que nunca chegou ao seu destino. Hoje percebi que o excesso de proteção que lhe proporcionei, durante os seus quarenta e um anos de existência, permitiu-lhe desenvolver a vontade um aspecto diabólico (angelical a fim de contas), de viver com plena inconsciência a impunidade das conseqüências da sua displicência emocional. Conseguiu harmonizar uma duplicidade afetiva que nos enganou a todos, mas de forma particularmente cruel ao seu dedicado parceiro da última década.
Acabamos de recolher as últimas miçangas, que o seu desalentado companheiro pediu com educação que fossem retiradas do seu lar desfeito. A acumulação de inutilidades, semeadas como carências compensatórias durante anos, parecia não terem fim. Se gostava de um modelo de sapato, comprava todas as cores possíveis, sem considerar do tamanho, o que provocava um sarcástico efeito de Cinderela, ante dúzias de calçados que nunca deram satisfação a qualquer príncipe desconsolado.
O esforço de selecionar só cinco malas com trinta e dois quilos cada, para serem transportadas ao Brasil onde virá a viver comigo, foi delirante. Teve como resultado, após sucessivos ataques de raiva impotente, um desapego com assustadores matizes de frialdade. Nessa altura, abriu uma bolsa, cheirou o seu vestido da primeira comunhão e o deitou no lixo, tal como ao seu casamento não celebrado, que quebrou em frívolos encontros com variadíssimos corações solitários, durante anos.
Satoko, a menina mulher com a que desfolho margaridas, desejando a possibilidade de laços de compromisso em uma derradeira pétala afirmativa, recolheu o vestido com veneração.
Propus a Satoko que levasse para o Brasil parte dos despojos de inutilidades acumuladas, neste caso pelas minhas duas irmãs, que cederam aliviadas com o segredo intuito de que, ao serem vendidas, o lucro conseguisse pagar a passagem para uma eventual celebração natalícia conjunta.
Satoko está assumindo as rédeas do seu destino, para quebrar essa frequente bipolaridade entre o crescimento intelectual e o emocional. Esquisita combinação, palpável num corpo de adolescente em fase de resolução, recém completos os vinte e quatro anos.
Esta noite, quando iniciamos uma viagem necessária a Portugal, prévia a nosso regresso ao Brasil, ambos tivemos a mesma curiosidade. Ao chegar no quarto ela engalanou-se com o vestido confeccionado pela minha mãe, numas datas em que os seus progenitores nem sequer sonhavam se conhecer.
O que parecia inacreditável aconteceu: assentava-lhe como um vestido de noiva feito a medida. Ou, talvez, o agasalho do batismo de uma miúda que, para ser mulher, tem que perdoar-se a si própria, a sua marital irmã, a um pai samurai combativo ante qualquer rival homem e a uma mãe que não suporta a possibilidade de perder o controle de uma assepsia instaurada e confortável.
Quem sabe Satoko possa utilizar esse vestido, que já lhe pertence, como mulher florescida dos pistilos de uma margarida, de cores harmonizadas pela lua e o sol, com a forma das estrelas onde habitam os tais amantes, que conseguem exercer essa misteriosa presença nos seus seres amados.




Entrega-me o medo
pode ser que o encante
com meu sorriso
e se afogue no sono
quando cantarole
as canções
que invento
pensando em ti
livre de medos
esquiando
sobre minha ternura
no branco desejo




Filhas de escravas

Passei metade da minha vida padecendo de uma timidez compulsiva, no que respeita á minha aproximação às mulheres. Porém, todo indica que nos últimos meses assisti o ultrapassar dessa conjuntura com folgada naturalidade.
Tete contemplou, durante décadas, essa minha dita incapacidade, com apoquentação. Dela saíram sábios e desconcertantes conselhos, como: “Querido irmão, os elevadores foram inventados para se beijar. Quando estiveres sozinho com uma garota num ascensor, ela ficará sempre á espera que aconteça qualquer coisa. E não te esqueças, nós somos capazes de perdoar as tentativas de abordagem; mas quase nunca a sua ausência”. Vivi com ela situações grotescas nas variadas viagens que fizemos juntos. Costumávamos definir a vítima e logo a seguir estimulava-me para acertar no alvo. A maior parte dos ensaios resultaram infrutíferos, pois acabava por advertir algo semelhante a um colapso, que paralisava pernas e lábios.
Hoje em dia meto conversa com tudo o que se mexe, deixando até a minha irmã transposta.
Em Trancoso conheço muita gente, com que me relaciono com facilidade, em diferentes graus de sucesso no que diz respeito à uma eventual continuidade.
No outro dia, entrei num salão de beleza disposto a fazer o serviço completo: cortar o cabelo, manicura e pedicura. Não havia clientes, assim que de repente fiquei como num harém. Quatro moças à minha volta, todas elas bem dispostas e sem disfarçar a sua curiosidade pelo gringo que acabava de sentar, fizeram as indagações da praxe, encaminhadas à grande questão: “A sua esposa deve estar feliz com um cara que se cuida tanto, aqui os homens são bastante grossos”. Ante a notícia de que estava divorciado, falaram-me logo da dona do local que também era divorciada. Quiseram saber se gostava de neguinhas e eu respondi que sim: “Lógico!”. Então foram buscar a Daiane para que me cortasse o cabelo.
Gostei da Daiane quando a vi. É mesmo musculada, pois passa o dia inteiro malhando, fazendo capoeira, mountain bike ou caminhando na praia ao amanhecer. Veio para Trancoso com o seu marido e três filhos. Entretanto, ele perdeu-se, como tantos, com maconha, cachaça e mulatas. Ela, como tantas, tomou atitudes e decidiu assumir as responsabilidades familiares. Havendo trabalhado em São Paulo como cabeleireira, aceitou formar sociedade com a dona da Estrela d’Água, um dos três Relais&Chateaux que há no Brasil, que aproveitou a antiga casa de Gal Costa como base para um resort caprichado, aqui em Trancoso.
Nos dias seguintes, combinamos vários encontros. Jantamos, conversamos, dormimos juntos e acabamos por perceber que era melhor apostar numa amizade duradoura, do que numa paixão sem entusiasmo.
Há anos que Daiane não sabe do seu pai, mas falou-me com enorme consideração de sua mãe, apesar de mencionar que era uma pessoa cheia de tristeza. “Minha mãe sofreu demais, foi escrava até aos dezoito anos. Nasceu no Mato Grosso e não se lembra de quantos irmãos tinha, mas eram bastantes. Era quase uma bebê quando a minha avô faleceu. Nesse momento, o meu avô repartiu os filhos e a criancinha ficou com uma senhora que tratava muito bem dela. Minha mãe conta que as únicas lembranças que tem de carinho foram daquela época. Fala da sensação de uma mão afetuosa mexendo nos seus cabelos. Certo dia apareceu uma turista de São Paulo que encantou-se com a menina e convenceu à matrona que tomava conta dela para que a desse em adoção, pois assegurava que iria poder proporcionar-lhe melhores condições de vida na cidade. Foi tão persuasiva que a minha mãe foi para aquela urbe, a mais de quatro mil quilómetros da sua terra natal. Viveu fechada na casa da senhora, trabalhando de graça, tomando conta das filhas e das tarefas domésticas. Uns dez anos mais tarde, um pintor foi fazer um serviço e, sabendo do abuso, levou a moça para casa dele. Passado pouco tempo, casou-se com um dos seus filhos, o meu pai”.
Fiquei mexido com a história, sem conseguir acreditar que algo assim acontecesse à minha volta. Sobretudo se temos em consideração que a Lei Áurea, que aboliu a escravidão no Brasil, data do treze de maio de 1888, algo antes da aparição de Nossa Senhora de Fátima. Daiane afirmou que não era tão raro quanto poderia pensar; porém, fiquei céptico.
Hoje voltei a São Paulo, outra vez. No aeroporto havia um grupo de adolescentes que regressava da sua viagem de finalistas. Raio de uma mistura de raças que resulta em mulheres lindas! Reparei numa morena, com corpo de mulher e rosto cheio de cataporas. Já dentro do avião, a cadeira ao meu lado estava livre e a moça do corredor, apavorada, pediu a uma amiga para fazer-lhe companhia. Foi assim que sentou-se, coladinha a mim, a tal Lolita. Depois de me apresentar, sem nenhum tipo de ajuda alucinógena como era costume, fiz o meu interrogatório. A rapariga estava quase sem voz, pois apenas tinha dormido na semana toda e vinha apaixonada por um colega, que namorou meia turma, pelo que fiquei a saber. Ao perguntar-lhe sobre os seus traços exóticos, disse-me que a sua avó era índia e que foi vendida em criança. Mais tarde fugiu e morou na rua durante anos. “Eu não a conheci porque morreu no parto da minha mãe”. Bom, lá se foi minha incredulidade.
Ainda tenho que processar que vivo num país onde convivem famílias, poucas, que preservam as suas origens aristocratas, junto com filhos de escravos, coniventes com uma sociedade que reclama direitos básicos, como um bêbedo que fala das peripécias da sua juventude desperdiçada.



Uma de turismo sexual

Houve um certo componente quixotesco nesta minha mudança, pois de Brasil conhecia só dois destinos turísticos: Pipa e Trancoso. Seria como querer viver em Europa após ter passado férias em Zambujeira do Mar e Corfú. Pensei então não ser tão má idéia, dispensar um pouco de tempo na escolha de onde iria assentar-me. No início até considerei a possibilidade de percorrer os quase nove mil quilômetros de costa de mochilão. Fui devidamente persuadido e acabei por retificar, deixando-me levar do Rio a São Paulo, para recuar no Sul da Bahia. Porém, ficou-me o remorso de ter deixado órfã uma parte significativa do meu espírito aventureiro.
Existem um par de companhias aéreas no Brasil que, além de desempenhar uma função docente exemplar no exercício da paciência e da resistência dos passageiros, oferecem ofertas que estimulam nossa tendência masoquista. Tentei aproveitar variadas pechinchas de vôos domésticos, para ir descobrindo este país de dimensões colossais.
Chegou a hora da erudição. Brasil tem vinte sete divisões, das quais vinte superam os 92.365 km2 lusitanos. O estado de São Paulo, situado no 12º lugar do ranking é quase três vezes maior que Portugal, com 248.256 km2 e só a capital conta com mais do dobro de habitantes que o país europeu inteiro.
Já instalado em Trancoso, uma manhã, antes de ir ao aeroporto de Porto Seguro onde embarcaria numa dessas tais ofertas imperdíveis, quis dar um mergulho na praia quase ao amanhecer. Lá encontrei um casal de moradores, que queria começar sua jornada com igual banho de natureza. Conversa puxa conversa e o moço me participou da sua aflição por ter que ir até Campos de Jordão para buscar o seu carro, pois não encontrava ninguém que se prestasse a tal serviço, e estava precisando para desempenhar o seu trabalho de arquiteto. Ofereci-me, então, para trazer-lhe o veículo, realizando um dos meus desejos pendentes: dois mil quilômetros na estrada, cruzando três estados, sem presa e disposto a aceitar os caprichos do destino.
O arquiteto ficou de falar com as suas irmãs, para combinar os detalhes do negócio e, um par de dias mais tarde, recebi uma chamada em São Paulo confirmando que o Ford K estava a minha espera.
Um pouco de cultura geral nunca fez mal a ninguém, salvo na época da Inquisição. Campos de Jordão é uma estância termal, fundada a finais do século XIX, localizada a uns 165 quilômetros de São Paulo, em direção ao Rio de Janeiro, numa serra chamada de Mantiqueira. Supera os 1.600 m de altitude o que costuma proporcionar-lhe temperaturas negativas. Este município, com mais de 50.000 habitantes, conhecido como a Suíça brasileira, multiplica no inverno a sua povoação, sendo procurado para passar fins de semana num espírito semelhante ao dos destinos centro-europeus, que batizam cervejarias e hotéis espalhados na cidade, como é o caso do Badem-Badem
Foi estranho sentir frio verdadeiro, voltar a ver inesperadas hortênsias e não resistir uma fondue de chocolate quente.
Desafiei Francisco a me acompanhar desde São Paulo a Trancoso, optando pela rota do interior, para assim passar por Tiradentes e Ouro Preto, emblemáticas localidades de Minas Gerais. Estado maior que a França, por sinal.
Tiradentes é o destino mais parecido com Portugal fora de Portugal, numa mágica simbiose alentejana e minhota, preservada com uma autenticidade desconcertante. Além da sua envolvente arquitetura, espalham-se pousadas e restaurantes que exercem em nos um efeito hipnotizante, como se uma regressão histórica e anímica conseguisse abstrair-nos de uma identidade nacional tão frisante quanto a brasileira.
Entulhei o carro com apetrechos lindos, já que Tiradentes é um centro de criação de artesanato, dos mais renomados do país.
De forma enigmática, Francisco desapareceu depois do jantar, em quanto eu não demorei em enfiar-me nos lençóis, pronto a imaginar como encaixariam minhas aquisições no meu cubículo trancosense. Durante o café da manhã, Francisco, grande figura, não me poupou seu estado de euforia pela transa na sombra do luar, numa árvore centenária perto da Igreja Matriz, com um jovem prestável.
Sempre fascinou-me o desembaraço que algumas pessoas do meu entorno mostravam em propor e consumar relações sexuais, com índices de sucesso que roçavam a infalibilidade.
Seguimos nosso particular road movie, pela embriagadora Estrada Real, por onde transportou-se tanto ouro e pedras preciosas do estado de Minas, para ser embarcado em Paraty, lá pelo século XVIII.
Já em Ouro Preto, a primeira cidade brasileira a ser declarada Patrimônio da Humanidade pela UNESCO, em 1980, ofereceu-nos os seus serviços um guia de cultura inquietante. Mostrou-nos desde a Igreja de Nossa Senhora do Pilar, máxima expressão do dramatismo e opulência do barroco mineiro, até galerias dos antigos jazigos de ouro ou um singelo hotel obra de Niemayer, na época de jovem.
Jantando nas proximidades da imponente praça central, Francisco espetou nosso guia onde é que transava nessa terra quem não gostasse de periquita. O moço, com simpatia e naturalidade, afirmou que esse era um assunto fácil de resolver, dependendo das necessidades e preferências. Francisco revelou as suas num papo direito, firme e convicto, onde ficaram definidas com antecedência funções e expectativas, quantificadas sem pudor.
Persuasivos o efeito da palavra e a franqueza dos números.
Eu, de novo na cama solitária, abracei-me às minhas fantasias, vitima de uma compostura em fase terminal, que começava a sofrer os devastadores efeitos do vírus da descontração.
De fato, ainda padecia a disfunção sexual entre a imaginação e a realidade, mas o antídoto que provocaria o ansiado alinhamento, começava a fazer efeito.




Nadir trouxe-me ao Brasil

Hoje é um dia particularmente feliz. Estava terminando o último livro de uma coleção de cozinha tradicional e criativa portuguesa, que ando coordenando no Brasil para uma editora espanhola, publicando-se toda semana junto com um jornal em Portugal, quando recebi a seguinte mensagem na caixa do correio: “Sí, nos interesa Madrid me Mata, cuando puedas, háblame. Besos. Nadir”. Milagres cibernautas. Tamanha situação era impensável uma dúzia de anos atrás.
Do México, comunicavam-me que queriam publicar o meu romance. Escrevi o Madrid me Mata, em espanhol, porém foi editado primeiro em português, tendo que ser traduzido. Dois anos mais tarde, morando no Brasil, consigo que uma editora mexicana aposte pelo meu manuscrito. “Antes muerta que sencilla”, cantam na minha terra.
Conheci a Nadir numa fase em que estava viciado na Internet. Potenciei essa dependência na pesquisa desenvolvida no projeto de um romance, em que o protagonista, um psicopata cientista, escolhe a suas vítimas na rede. Essa situação levou-me a ter relações virtuais com meio milhar de mulheres de tudo o mundo. Grande experiência, que me deixou a toa. Acho que até hoje.
Nadir, uma antropóloga venezuelana que estava cursando mestrado na Universidade Autónoma de México, foi uma das exceções à regra, a quem poupei qualquer tipo de aproximação libidinosa. Nossas conversas eram interessantes, cúmplices, dependentes, intercalando medos com desejos. Ela escrevia contos que eu admirava, numa linguagem nova, desenfadada, profundamente latino-americana. Eu consegui compreender-me através da poesia, como quase sempre:

Tuas palavras,
teus contos,
me fazem viajar
cruzar o mundo.
Me ensinam
que, por mais sede que tenha,
no posso beber o Atlântico,
estando salgado
e cheio de bichos,
reais,
como os teus fantasmas
de medos reais,
de esperanças
doces,
dormidas em estômagos
de baleias
com flores sobreviventes,
carapaus alinhados de nostalgia
e borboletas órfãs de crisálidas.
Respirar o que expiras
implica brânquias
e nascer-me asas
para nadar no teu ar.
Quero entrar nas tuas palavras.
Gosto desse cosmos,
que vistes de sentimentos
e desnudas de emoções,
distanciando-o de ti mesma.
Presta-me a liberdade
que bronzeia tua pele,
para passear de mão dada
com os teus monstros,
escondendo-me entre espinhas
de agaves,
maquiado com pigmentos oníricos
de peiote,
camaleões atrevidos
e expectantes.

À Nadir
Estoril, a quatro de maio de 2005

O lançamento do meu romance em Portugal, coincidiu com o trespasse do restaurante onde era sócio no Casino Estoril. Foram duas liberações em uma. Nessa altura, decidi tirar uns dias de férias para refletir sobre a minha vida. A primeira opção foi ir a México para conhecer a Nadir em pessoa. Uma vez organizada a logística, contatei com ela para confirmar as datas. Foi nesse momento que me desencorajou, informando-me que havia um tipo com quem estava começando a namorar e que achava injusto que eu percorresse meio mundo, sem ela estar disponível. Agradeci a sua sinceridade e com rapidez mudei de registro. Um amigo deu-me o telefone de um eficaz agente de viagens, a quem pedi orientação para uma opção de descanso, onde pudesse sentir natureza e compensar os rigores invernais lusitanos. Perguntou-me se tinha algo contra o Brasil e respondi que de jeito nenhum, sem perceber muito bem o seu reparo. Pelos vistos havia uma promoção para Porto Seguro. Eu só quis saber se tinha praia, tal era meu desconhecimento geográfico. Foi assim que vim parar a Trancoso, por uma rejeição virtual.
Nadir, meses mais tarde, decidiu desistir do seu mestrado e aproveitar parte das suas poupanças para fazer uma viagem pela Europa. Estava prevista uma estadia em Madrid, que por fim permitiria nos encontrar. Não hesitei em fazer os setecentos quilômetros que nos separavam. Fui buscá-la ao aeroporto, onde chegava de Bucareste, depois de ter visitado a um colega de faculdade. Apareceu de colarinho no pescoço, com ar desconfiado e sem a mínima manifestação de alegria. Tinha padecido um sequestro, na véspera, num táxi do que tiveram que saltar em andamento, ela e o tal amigo romeno. Mesmo para quem habitava em México DF, tratava-se de uma experiência traumatizante. Eu passei os três dias seguintes em casa da minha irmã, esperando uma chamada que por horas ia perfilando-se ridícula. Foi uma absurda maneira, consciente ou inconsciente, de abortar um relacionamento criança.
Passado uns meses, já no Brasil, retomamos o contato virtual. Nadir tinha começado a colaborar numa editora mexicana que queria reformular sua orientação, com obras comprometidas. Pediu-me que lhe enviasse o manuscrito original do meu romance e assim o fiz.
Em menos de um mês, veio a resposta, cheia de sentido. A mulher que, sem dar por isso, foi responsável pela minha nova vida em América, era a peça catalisadora para editar o meu romance na minha língua materna, pela primeira vez.
Como cantarolava Pedro Navaja: “La vida te da sorpresas, sorpresas te da la vida”.




Um papinho, necessário, sobre sexo

Levo algum tempo dando voltas na minha cabeça, para encontrar um adjetivo que se adeque à revelação que sofri meses atrás. Cheguei a achar que tinha talento para dar prazer a uma mulher e convenci-me que, esse rol, era o que mais me excitava. Como em outros aspectos do funcionamento humano é bem mais simples dar que receber. Quem dá, controla, palavra mágica; quem recebe, se o faz de forma sincera, precisa de uma considerável dose de humildade, para gerir esse estado de dívida, que só fica resolvido com um proporcional sentido de gratidão cósmica. Aprender a brilhar nos preliminares foi uma bela maneira de proteger vulnerabilidades e satisfazer, com falsa inocência, minha confiança.
Ao aterrar em São Paulo trazia uma considerável lista de amantes virtuais, prestes a ser confrontadas com a realidade. Uma delas prendia a minha atenção de maneira particular. Tinha trinta anos, estava casada pela segunda vez e os seus dois filhos moravam com o pai, em outro Estado. Contava com um amante fixo por quem morria de amores e transava com ele a diário, pelo menos uma vez. Tudo isso foi comunicado durante múltiplas sessões noturnas em Estoril, pois a moça ficava sozinha em casa quando o seu marido, condutor de trailers, fazia viagens em que demorava semanas em voltar. Ah! E o seu anelado provedor sexual, também estava comprometido maritalmente. Parecia um enredo de Soap!
Foi das primeiras pessoas que contatei chegando a São Paulo, lançando-lhe o desafio de combinar um encontro. Para o meu espanto, aceitou sem hesitar, pois eu achara que mantinha algum tipo de fidelidade ao tal amante depositário do seu furor uterino. Mas insistiu que havia de ser nessa noite. Eram mais ou menos, sete da tarde. Perguntei-lhe onde morava e informou-me que em Sorocaba, a uns cem quilômetros da capital. Nunca tinha guiado no Brasil mas, como minha vida sexual desde a chegada ao Rio tinha sido bastante solitária, pensei: nem é tarde nem é cedo! Deixei uma nota ao Francisco, para que não se preocupasse, e fui alugar um carro. Pedi um mapa na locadora, junto com indicações precisas de como sair desse emaranhado de radiais e circunvalações que consegue desorientar e desesperar até aos peritos condutores paulistas.
Safei me e, confesso, não de tudo mal. Em menos de meia hora, achei placas que me iam avisando da aproximação ao destino. De vez em quando, ia aquecendo motores com pertinentes sms e alguma que outra chamada ao celular da misteriosa vestal tropical.
Tudo ia às mil maravilhas até que cheguei ao ponto onde era suposto virar, no fatídico quilometro 97 da auto-estrada Castelo Branco. Em fim, lá não havia desvio nenhum e, por três vezes, tive que fazer o retorno para chegar obsessivamente ao mesmo lugar, ante a teimosia da moça que assegurava que era mesmo no Km 97, cada vez em tons menos libidinosos. Chegado um momento, falou de desistência. Isso é que era bom! Depois de tamanha odisséia eu ia voltar com as mãos a abanar! Com obstinação continuei avançando e, no quilômetro 107, achei a merda da placa que tanto me fez sofrer. Passada mais meia hora, em que gastei uma fortuna de celular porque, como já tinha comentado, saindo do município do número contratado pagas roaming como se estivesses noutro Estado, cheguei a um bairro bastante popular, eufemismo entenda-se, onde tive que aguardar numa rua deserta, ao pé de um orelhão. Foram uns minutos fatais, onde me assaltaram todo tipo de pensamentos, nenhum deles benevolente comigo mesmo. Há que reconhecer que espírito aventureiro não me faltava. Depois de todas as histórias que se ouvem a toda hora nos telejornais... Mas, quem não arrisca não petisca, não é?
Apareceu acelerada, com um vestido negro de malha desses que se compram na feira, que assentam como uma luva a quem goza de corpo insinuante, como era o caso. Morena de olhos verdes, sinuosa, gata, com seios medianos e arrebitados, sorridente e descontraída, a moça estava incomodada ante a possibilidade de que alguma das suas cunhadas, que moravam ao lado, pudesse nos ver. Assim que, com firmeza militar, foi me dando indicações para chegar a um motel na saída da cidade.
Eu nunca tinha entrado num motel. Como também nunca fumei um baseado, ou bebi a minha primeira cerveja aos quarenta anos. Cé la vie!
A sua escolha era tão pretensiosa quanto o luminoso anuncio: Pompéia. Esculturas romanas em gesso, de tamanho natural, espalhavam-se por uma espécie de condomínio onde entravas com o carro até dentro da tua respectiva garagem. Antes, tive que escolher um quarto. Não optei nem pelo mais barato, nem pelo mais caro. No entanto, dispunha de um jacuzzi do tamanho de uma piscina infantil.
Sem demora fomos ao assunto, outro eufemismo. Eu, que tanto gosto de preliminares, foi atropelado por uma deusa que ansiava pela penetração. Nunca senti nada semelhante. Imaginem a combinação de uma bunda vibrante do Sambódromo do Rio, com um absoluto controlo dos músculos internos da vagina, que conseguiam magistrais harmonias rítmicas com a tal vibração, adereçadas com arrítmicas improvisações de jazz, dignas do melhor Miles Davis. A moça era insaciável. Apesar da minha idade, fui me aguentando, tentando abrandar a cadência de tal avalancha de prazer. Procurando um respiro, alcei as suas pernas para deixar as proporcionadas bochechas da sua linda bunda no ar, sem ponto de apoio. Mesmo desse jeito, o portento da natureza conseguia mexer-se com cadência trepidante. Nunca reclamaram tanto minha pica, como nessa noite.
Foi então, iniciada a década dos quarenta, que cai na minha. Nunca tinha sido bem fudido na vida. Percebem agora a dificuldade para achar um qualificativo adequado ante tamanha revelação?




Esta coisa do Brasil Tropical

Esta coisa de morar num destino pacato que as pessoas visitam com sofreguidão, querendo viver em cada dia com o máximo possível de excitação, tem que se lhe diga. Não há limites para caipirinhas, maconhas, pensamentos lascivos e ressacas prolongadas. Trancoso é terra de contrastes. O que a natureza pode-te proporcionar implica uma humildade que é rara vestirmos em dinâmica de férias compensatórias. Praia, sim; mas com um barzinho perto, onde não faltem cervejas, cachaças misturadas com tudo tipo de frutas exóticas e corpos atléticos vendendo colares, roupas de banho, pastéis de carne, queijo para grelhar ou picolés de frutos com nomes de pássaros.
É preciso calma para sentir as mudanças do sol na pele, dos matizes de umidade da chuva da primavera\, da paleta cromática que o mar proporciona quando envolve cabeças de tartarugas que distinguem-se entre a espuma das ondas.
Com certa periodicidade, amigos vem dar uma vista de olhos ao seu alienígena de estimação e aderem à gula dos sentidos, como se a bebedeira diária fosse sinônima de felicidade e dormir durante a noite, para aproveitar a luz do dia, o cúmulo da decadência sem tempero. Não tarda, entramos em ritmos desencontrados. Quando eles acordam, eu já abracei o sol e aqueles cérebros, que foram esmagados horas a fio por decibéis absurdos de axé ou música eletrônica, irritam-se por não suportarem o som do vento.
Cada vez sinto-me mais eremita, distante dessas fantasias de sexualidade de rico brincando a ser pobre ou de pobres disfarçados de intelectuais de esquerda, que brincam de ser cosmopolitas, porque sabem calibrar carícias em quase todas as divisas conhecidas.
As anedotas de fodas mal resolvidas, as conversas banais, os risos procurados em todo o que se mexe, criam nevoeiros mais espessos do que os gerados pelo trópico. Em Trancoso podes usufruir de uma qualidade de vida difícil de superar com muito pouco. Também uma insatisfação infinita, com todos os bilhões de dólares de donos de companhias aéreas, empresas de comunicação, fabricantes de automóveis ou arrumadores de perfumes.
Eu cheguei achando-me um hippie reciclado. Grande embuste! Sou um freaky a procura de ser feliz, doa a quem doer. Mas eu não posso ser feliz se não alinho minha capacidade intelectual com minhas emoções e o meu corpo. Os malabarismos que sou capaz de provocar com minhas palavras, é o que grande parte dos baianos consegue com o seu físico, dançando forro ou praticando capoeira. Daí que tenha começado a dar aulas de capoeira.
A capoeira ajuda a lidar com os teus músculos e com a terra, com energias básicas. É lúdica, puxada, sensual, uma mistura de dança e arte marcial. Passei grande parte da minha vida de costas ao meu corpo, considerando-o inimigo, peça a abater. Ter estudado teologia, para ser padre no Opus Dei, não foi de grande ajuda nesse sentido: “pensamento, palavra, obra e omissão, por minha culpa, minha culpa, minha grandessíssima culpa…”. Pouca margem de manobra restava!
Esta semana veio visitar-me Francesca, de quem eu achava que poderia estar apaixonado. Sempre tive a sensação, após cada encontro, de que a nossa história ficava sem resolver. Desta vez, ficou mesmo esclarecida. Em dez dias evitou puxar a mínima conversa no âmbito emocional, onde não faltaram piadinhas infantis e brincadeiras de adolescente. Por outro lado, com uma necessidade de procurar programa, sem trégua, o que provocou extremo desgaste no convívio. A intimidade, sedenta de ser participada, foi abafada pela frivolidade da glutonaria de uns dias inibidores de consciência.
Luto libertador de mais um projeto conjunto.
Ao menos isso.



Esta não engana a ninguém

Já fui um contador compulsivo de anedotas, mas cada vez tenho menos paciência, sendo que podem resultar bastante úteis para ilustrar a realidade, como é o caso. Um tipo queria entrar numa boate e o porteiro proibiu-lhe o ingresso, por não ir acompanhado. Ante a negativa, procurou uma solução e foi negociar com uma garota da rua. De novo, o porteiro recusou a entrada, pois argumentou que não admitiam acompanhantes de reputação duvidosa. O nosso protagonista retorquiu: “Duvidosa serão as que estão dentro, porque esta é puta, puta, puta!”.
Na altura da Páscoa, estando em São Paulo, coincidi com um grupo de amigos portugueses, habituais consumidores de sexo de programa. Marcaram um jantar no D.O.M.. Qualquer desculpa, para voltar ao restaurante do Alex, seria bem-vinda. Quando cheguei, estavam os quatro mosqueteiros com seis mulheres deslumbrantes, de cortar a respiração. Cada uma, melhor do que a outra. Novas, bem arranjadas, com sentido do humor (básico, mas sentido de humor a fim de contas), olhares provocantes e uma boa disposição contagiante. Uma apresentou-se veterinária, outra farmacêutica e a que estava ao meu lado definia-se como chefe particular (ouve lá!, como a minha mãe, pensei). Comecei a falar com o portento da natureza que tinha mesmo enfrente, que se interessou por minha atividade: jornalista e escritor, respondi. “Ah! Então poderias inspirar-te na minha vida!” Ora bolas!, o que estou fazendo neste momento. Assegurou que já tinha lido um livro de um escritor famoso, mas que não se lembrava do nome. Ficou pensativa, olhando para o infinito, momento em que reparei como os bicos dos mamilos sustentavam um vestido que desafiava todas as leis da gravitação universal, com um simples respirar. Um dos meus amigos decidiu revelar a sua erudição, cuspindo uma lista de autores estereotipados. Não demorou em desvendar-se o mistério, pois, como era de prever, tratava-se de Paulo Coelho. Outro dos tugas afirmou, convicto, que ele de quem gostava de verdade era de Gabriel Garcia Marquez, olhando-me cúmplice. O belo exemplar de mamilos arrebitados, que sabia o valor da leitura, pois já o tinha descoberto num livro, me espetou: “Entendi, você é o Gabriel!”. Acreditem que não existia a mínima dose de sarcasmo ou ironia na dita asseveração, pelo menos intencional.
A intensidade intelectual nos comensais não decaiu. Eu escolhi os vinhos, que meus amigos fizeram questão que explicasse. O primeiro foi um Pinot Blanc alsaciano, do Domaine Paul Blanck. Aí tive que aclarar que Alsace era uma região de França. O ambiente foi ganhando chispa e as moças mostraram sem pudor o seu domínio geográfico, que se fundamentava a partir de visitas a jogadores da seleção brasileira, fixados na Europa, o que incluía também agentes, árbitros e presidentes de clubes de futebol. O papo não tinha desperdício. Alguns dos comentários mais desbragados que imaginei possíveis, afloraram nessa velada. A conta esteve em consonância ao esperado, mais do duplo do salário mínimo nacional por cada cavalheiro; porém, fui poupado, e acabei por ser incluído no grupo das amigas de reputação esclarecida, que não fizeram a mínima tentativa de entrar na vaquinha (pelo menos cheguei a tirar o meu cartão de crédito do bolso, que voou com desdém do outro lado da mesa, graças a Deus e ao meu amigo Manel).
Ainda fiquei com o telefone da colega que, até a data de hoje, ainda mostra a sua dislexia desconfiada, sem saber se ao certo me chamo Gabriel ou Alfredo García Marquez.
Meses depois, convidei-a para passar um fim de semana em Trancoso, em pleno inverno paulista, depois que o meu relacionamento com a Satoko tivesse entrado em um beco sem saída. Já me avisou ao telefone que iria encantada, mas que estava sem grana para nada. Eu oferecia comida, cama e roupa lavada, assim como o bilhete de ida e volta, pensando que se tratava de uma proposta mais do que aliciante. Aham!
Nunca tinha presenciado tanta dose de capricho, tal ar de não me toque constante e petulância em todos e cada um dos comentários; onde não faltaram sentenças tipo: toda a gente sabe que não existe o vinho doce, que se trata de “sucedâneos” (onde raio foi desentranhar essa palavra? Não do Garcia Marquez, com certeza). Passou o fim-de-semana olhando com avidez aos corpos dos meus colegas de capoeira e participando-me a sua enxaqueca cada vez que espreitava para os bicos sobressalentes no seu mínimo biquíni. Parecia que o nojo só passava com idas ao salão de beleza, garrafas de champanhe e consumindo tudo aquilo que oferecesse qualquer que fosse o vendedor ambulante.
O caricato da situação foi que a Barbie estava cheia de plásticas, em contra da naturalidade das baianas com as que jogo vôlei na praia.
Na véspera de ir embora, teve um ato de iluminação verbal, explicando que havia coisas para as que não tinha vontade e que preferia ser honesta. Não achava piada a essa patranha de agradar, mas sim que lhe agradassem. Por fim, estabeleceram-se regras do jogo, o que permitiu-me deixá-la em casa nessa noite, enquanto ia jantar e dançar forro com as amigas do vôlei. No dia seguinte, estava assumidamente revoltada.
Foi bom tomar consciência da minha estupidez e resolver, espero que de vez, mais uma das fantasias que tinha penduradas da minha adolescência.
Me lembrei da Lupe e sua magnífica canção: Teatro, lo tuyo es puro teatro, falsedad bien ensayada, verdadero simulacro.
No fim, até achei que o desfecho bem justificou o dinheiro empregue, Assimilar que não há preço que pague uma carícia espontânea e sincera, é mesmo libertador. Tentar ser produtores executivos do nosso próprio filme emocional, a base de livro de cheques, pode proporcionar sucessos de seriais radiofônicos, mas dificilmente um diário de putas tristes em cem anos de solidão.



Serão simples coincidências?

O meu amigo João Líbano, administrador de uma importante agência de comunicação, comentou-me, em repetidas ocasiões, o adequado que seria trabalhar como correspondente de prensa no Brasil. Ele me falava de um novo projeto que estava prestes a sair, o semanário O SOL. Por um lado, apetecia-me; por outro, não me via dando noticias políticas e tendo que dispersar minha atenção do meu objetivo fundamental: as emoções humanas.
Outro querido personagem, Juanma Bellver, diretor de La Luna de Metrópoli, a revista de tendências do jornal El Mundo, falou-me na minha despedida de Peter Mayle e do seu livro A Year in Provence, que já vendeu mais de quatro milhões de exemplares. Trata-se de um conjunto de crônicas que relatam a sua experiência durante um ano, nesta zona do Sul da França. Era suposto ter ido lá para terminar um romance e acabou por contar a sua vida.
No Brasil, demorei algum tempo em começar a escrever. Dedicava tempo demais a curtir a minha vida, sem grande margem para perspectivá-la através das anotações.
Num princípio, tinha como meta acometer a segunda parte de Madrid me Mata, que se titularia Até que a Vida nos Separe. Só que um dia deu-me vontade de rascunhar uma história a cerca de uma excursão à Praia do Espelho, em que dei carona a duas crianças que queriam servir de guias. Seguiram-se outra e mais outras, até que uma delas a enviei à pessoa que tinha inspirado o relato, o Vasco Gallego. Quando ele recebeu Saudades não Correspondidas, respondeu-me logo. Tinha adorado e perguntou-me se não estaria afim em publicar esse tipo de textos n’O SOL, pois dava-se muito bem com Vítor Rainho, o diretor da revista. Eu comentei-lhe que já tinham sido feitos alguns contatos, que deram em nada, mas agradecia-lhe o seu interesse. Passado dez minutos, me falou o Vasco dando-me o correio eletrônico do Vítor, afirmando que estava a espera de uma proposta. Em menos de duas horas, enviei um orçamento e quatro crônicas. Uma semana mais tarde, voltei a dar sinais sem obter qualquer tipo de retorno. Assim acabei por esquecer o assunto. No entanto, continuei com minhas narrações.
Todavia ia auferindo encomendas para escrever sobre gastronomia e vinhos, ora para Estados Unidos, ora Alemanha, Espanha... qualquer lugar, menos Portugal. Tem que se lhe diga! Porém, recebia de forma esporádica informações de produtores e restaurantes. Num desses press releases, participaram-me do lançamento de um Quinta de Ameal em formato Magnum. Eu contestei logo ao proprietário, Pedro Araujo, pois sendo sobrinho da Mariana, a minha amiga de São Paulo, muitas vezes tinha sido mencionado nas nossas conversas. O Pedro comentou-me que estava organizando umas férias em Brasil e que gostaria de passar uma semana em Trancoso. Quis saber se eu poder-lhe-ia aconselhar um lugar onde ficar. Nessa altura estava morando na casa do Arara, depois de ter sido fechada a loja onde tive acampado quatro meses. Havia quartos a mais, mas o espaço não era meu; mesmo assim informei a Pedro que perguntaria ao dono, para saber se haveria problema em que ele ficasse. Pedro agradeceu, mas assegurou que iria acompanhado e que seria melhor ficar independente. Tudo bem, conclui.
Na minha seguinte turnê a Portugal, fiz questão de ver ao maior número possível de amigos. Combinei então um jantar no XL, para encontrar-me com o Vasco Gallego. Nessa noite, caminho do restaurante, lembrei-me do Gigi, amigo comum de Vasco, que foi de uma generosidade extrema comigo, sem pedir nada em troca, quando atravessei uma situação econômica muito delicada, oferecendo-me a sua casa na Quinta do Lago para passar férias com a Ani e o meu cunhado. Cheguei a escrever um poema para ele e a sua mulher, Leonor, naquela altura:

Vossa generosidade
cheira a esforço
e a falta de sono.
Daí, vosso presente
ruborizar meu pudor,
germinado em compromisso
de extrema exigência,
para ser merecedor,
com dignidade,
do descanso
que proporciona
vosso talento.
Bem haja, amigos!
Que o meu sorriso
expanda vosso abraço.

A Leonor e Gigi
Quinta do Lago, a quinze de agosto de 2005

Dito impulso foi toda uma iluminação. O Gigi reagiu ao meu telefonema com entusiasmo, comentando que carregava um presente há meses, comprado em São Sebastião. Expliquei-lhe que estava em Lisboa e que ia jantar com Vasco, fazendo votos de tentar passar pelo Algarve o mais rápido possível.
Um par de horas mais tarde, chegou um estafeta ao XL e me entregou uma camiseta do restaurante do Gigi junto com um catálogo, dedicado, de um artista vasco de sobrenome Mendizábal. Fiquei emocionado. Pouco depois, entrou o mesmíssimo Gigi, acompanhado por quem? Pelo Vítor Rainho. Eu não toquei no assunto das crônicas e dos mails ignorados. Na hora da despedida, o Vítor aproveitou para desculpar-se argumentando a loucura que tinha sido o arranque da revista e pediu que enviasse a proposta de novo. Essa mesma madrugada, arrumei o assunto e, em um par de dias, marcamos uma reunião n’O SOL para fechar o acordo e, nesse momento, quando demos o aperto de mão, ele exclamou: “Agora poderemos celebrar-lo em Trancoso, na próxima semana”. “Como assim?”, reagi estranhado. Ele marcou um número de telefone e me passou o aparelho. Era Pedro Araujo, seu parceiro de viagem, que aproveitou para informar-me de que já não era preciso arranjar-lhes pousada, porque um amigo da infância, de quando morou em São Paulo por causa da Revolução, tinha-lhes emprestado uma casa. Quem é esse amigo?, questionei curioso. O Arara, esclareceu.
Serão simples coincidências? Que cada um se oriente como entenda a esse respeito. Cada perro que se lama su pijo, dizem na Espanha.



Porque ninguém é perfeito

O brasileiro parece que leva no sangue a sedução, que aplica não só nas suas relações sexuais como em qualquer aspecto da convivência. Daí a sua facilidade para a publicidade e o marketing. Tudo menos lidar com o confronto direto, o que leva a situações caricatas como quando perguntas num café se tem suco de laranja e te respondem “sim, mas está em falta”. Bom, toda a vida de Deus, isso correspondeu com precisão à palavra “não”. De todo modo, antes a morte que admitir que se desconhece seja lá o que for. Em função dessa sensação de ignorância não assumida, proporcional será a satisfação prestada. Que dizer de um povo cuja máxima afirmação é “pois não”!
Aqui, num lugar tão remoto como Trancoso, com apenas quinze mil habitantes, que viram mais de quarenta mil no pico de verão, encontram-se moldes maravilhosos dessa persuasão. Há uma lanchonete na entrada da vila chamada “Só Jesus Salva”, como para tentar petiscar noutra! Na estrada para Arraial d’Ajuda, anuncia-se o “Camping Audaz”; mas melhor ainda é o slogan que há por baixo, “porque ninguém é perfeito”. Ou aquela seta no centro que diz “Internet com aceso ultra rápido” e seguindo essa direção, mesmo ao lado, há um outro cartaz desafiante “Já falaste hoje com Deus?”.
Cheguei a Brasil de espírito aberto, ignorando como iria orientar-me, mas disposto a assumir qualquer aspecto da minha personalidade que estivesse abafada pelo Ocidente. Vim descobrir que não estava assim tão deturpado como imaginei, mesmo sem ter falado tanto com Deus em acesso super-rápido. Só que a decisão de querer funcionar em liberdade, sem uma obsessiva necessidade de controle, não é fácil numa sociedade que fomenta os nossos medos e fragilidades, através do desejo e o consumismo. Estar aberto a qualquer tipo de proposta da realidade é inquietante. Um exemplo, eu nasci sendo do Atlético de Madrid, nada a fazer. Até houve uma altura que, cansado de padecimentos, quis mudar para o Real Madrid. Tentar, tentei… Fui ao estádio Santiago Bernabeu várias vezes, mas não era a mesma coisa. A sequela foi que acabei por desinteressar-me pelo futebol ou, pelo menos, diminuiu a paixão. Por outro lado, tornei-me capaz de desfrutar com qualquer jogo, só pelo prazer da observação. Retomando o raciocínio, é como se tivesse optado por usufruir da vida sem equipe fixa, mas curtindo qualquer uma que venha a fazer as coisas do jeito que me emocione. Como era previsível, esta minha preferência transtorna mais aos outros do que a mim próprio, porque o ser humano precisa, com sofreguidão, de contextualizar, classificar, encaixar: controlar, em definitiva
Eu levo ano e meio sem casa própria. Tendo em conta o mês que estive fazendo o Caminho de Santiago, que dormi em albergues, nos dezessete meses restantes morei quase sempre em residências de amigos. Pouco mais de trinta somariam as noites passadas em hotéis. Quando cheguei ao Brasil, a finais do 2006, apenas conhecia ninguém sendo que hoje disponho de vários convites para me instalar. Esse é um dos detalhes que valida a decisão tomada.
Por fim, esta semana aluguei uma casa por um prazo prudente: um par de anos. Tempo em que poderei decidir se será aqui onde quero ficar e constituir família.
Ao princípio, até vim com uma predisposição ascética e de desprendimento; mas, aos poucos, fui recolocando-me. Tenho ficado em quartos de estudantes, em casas maravilhosas, com pessoas de todas as classes sociais, raças e tendências. Procurei cabanas na praia ou na floresta, mas houve uma notícia que veio condicionar a minha tendência diletante. Ani, acabado a sua almodovariana convivência, virá viver comigo.
Além da perca de uma tênue sensação de liberdade, volto a confrontar-me com contas, mobílias, pessoal e todo tipo de despesas próprias da nossa civilização. O curioso, tem sido perceber que na época do reveillon Trancoso vira uma loucura, pagando-se verdadeiras fortunas pelo arrendamento de qualquer cubículo para passar as férias. Fiz os meus cálculos e parece possível conseguir que me paguem, por cada dia de sublocação, o valor de um mês de renda. Inacreditável, mas certo. Só me falta agora dar-lhe um toque de bom gosto, tratar da parte de intendência doméstica, procurar algum slogan brilhante que frise o toque cosmopolita, e seduzir inquilinos sem problemas econômicos, e assim aproveitar para passar o Natal com as minhas irmãs na velha Europa, sabendo que vou morar grátis o resto do ano. Nem é preciso assim de tanta audácia!



Mãos à obra

Morar este tempo todo em casa de amigos, na sua maioria de recente criação, foi uma forma pouco usual de entrar na intimidade das pessoas. Funcionei durante meses como uma espécie de monge Shaolin, Kung Fu peregrino, ocupando-me mais da problemática dos outros que da própria.
Os acontecimentos foram sucedendo-se de uma maneira natural. O meu vínculo com São Paulo no início teve haver com o entrosamento afetivo e cultural, que resultou em amizades profundas, um namoro, e na assessoria do restaurante. Daí passar mais tempo na cidade que no campo, alterando o que à partida era suposto. Como a minha intenção passava por estar atento e não ficar sujeito a idéias preconcebidas, lá fui sendo espectador da minha própria existência.
Essa minha atitude relaixada levou-me a protelar decisões. Durante meses fui analisando as diferentes opções para fixar a minha residência, e todas elas implicavam decorrências e sendas díspares. Mas, houve mais fatores que me fizeram acelerar a escolha. O fim do meu namoro com a Satoko e o desvincular-me do apoio ao restaurante, colocou a São Paulo no seu devido lugar.
Trancoso, como o resto desta terra, tem carências de meio termo. Isso reflete-se nas casas: ora há barracas mais ou menos disfarçadas, mostrando com diferente grau de charme a sua precariedade; ora verdadeiras mansões, absolutamente inalcançáveis para a minha modesta, porém européia, economia.
Uma coisa era eu morar sozinho, outra bem diferente, proporcionar sensações de segurança à Ani, que mal entende português.
A soma destes elementos, fez com que acabasse por inclinar-me por uma pequena quinta, localizada em frente ao mar, bem maior do que num princípio procurei e que demandava uma reforma profunda.
Lido mal com a confusão, com o desleixo e com o feio. Isso explica que esteja a fazer um esforço para arrumar, organizar e limpar. De repente, vi-me cercado por um verdadeiro batalhão de pedreiros, pintores, jardineiros, cavadores de poço artesiano, eletricistas e empregadas domésticas. Cada um com a sua história, cada um com os seus sonhos, o que me permitiu decifrar alguns mecanismos de funcionamento dos locais.
A primeira conclusão, é que aqui vive-se numa economia de sobrevivência, onde os utensílios mais básicos resultam quase inatingíveis para a maioria dos habitantes. Os orçamentos, por regra geral, são dados sem critério, em função das necessidades do momento. Assim, se um cara precisa de 250 reais para pagar seja lá o que for, será isso o que pedirá à margem do trabalho a realizar. Já me aconteceu perguntar o preço para pintar a casa e espetar-me o equivalente a 7.000€. Passado uns dias, o artista soube que tinha propostas bem mais em conta e ligou-me para o celular, sem ter-lhe dito nada, para fechar o negócio por 3.000€. Admito que não suporto esta desconfiança contínua. Ainda existe uma palavra mágica, que é “entendi”. Até que um brasileiro não pronuncia dito sortilégio, fica descansado que percebeu o contrário daquilo que se esperava transmitir. Desde colocar uma janela torta ou avisar-me para dar-me uma surpresa, que não era senão a instalação de uma pia no banheiro à altura européia. Grande lata! O caramelo tinha se enganado, colocando-a absurdamente alta e vinha com essa conversa! Genial, por outra parte. Lembrei-me, então, daquilo que me aconteceu quando cheguei, que define o espírito baiano. Pedi um suco de laranja sem açúcar numa lanchonete e me serviram, passado meia hora, um copo com a colher enterrada em dois dedos de açúcar. Quando reclamei, levei com a lógica arrasadora: “Não mexe, não!”.



Tropa de Elite

Tropa de Elite, Urso de Ouro do Festival de Berlim 2008, o maior sucesso de sempre do cinema brasileiro, foi visto por mais de onze milhões e meio de pessoas antes da sua estréia nas salas. Em cópias piratas, é óbvio. Isso provocou que o seu realizador, José Padilha, reedita-se tanto o princípio como o final da trama. Mas, de forma inesperada também bateu recordes nas bilheteiras, indo ao encontro de uma das grandes preocupações da gente deste país, o tridente: insegurança, drogas e corrupção. A fita tem como protagonista o Wagner Moura, no papel do Capitão Nascimento, num comando das BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais), espécie de força de assalto, de enorme exigência e prestígio. A ação decorre no Rio e centra-se no conflito gerado pela evidência da maior parte das favelas encontrarem-se dominadas por capos da droga, que impõem as suas regras em sociedades paralelas, contando com tropas paramilitares às suas ordens. Não é nenhuma novidade afirmar que o Brasil é inseguro e violento. Por outro lado, já soa caduco o argumento justificativo da desigualdade social, que pretende atenuar um cotidiano por vezes insuportável. É evidente que o tráfico de droga tem mecanismos de poder distantes da pobreza.
Minha mãe morreu quando eu tinha treze anos. Nessa altura meu pai ficou sem rumo, em grande parte por ter que lidar com três criaturas que desenvolveram nele um profundo sentido de culpabilidade e frustração, ao colocar-lhe uma responsabilidade que virou penosa com o desaparecimento da sua companheira. Durante uns meses, até o meu progenitor fechar o acordo marital com uma nova candidata, que veio tomar conta da situação, os três irmãos moramos temporadas em casas de diferentes amigos dos nossos pais. Desse modo passei a fazer parte de uma nova família. Eram doze irmãos, comigo treze (mal número) e, de um dia para outro, o pai foi assassinado em Madrid quando saía da missa e ia levar duas filhas pequenas à escola. Foi metralhado no carro. Isabel ficou surda de um ouvido e perdeu a vista de um olho e Cristina manteve-se em estado de catatonia durante anos. Lembro-me da impotência que gerou-me aquele drama, assim como dos sonhos violentos e vingativos que tomaram conta de mim durante tempo sem fim
O Capitão Nascimento é um justiceiro que foge do cliché de super herói. A sua vida familiar destrói-se por causa do trabalho. Tem muito pouco do glamour de James Bond ou de Clint Eastwood, conseguindo-se identificar nele uma dose de vulnerabilidade, que torna a sua personagem assustadoramente credível.
No outro dia ouvi o seguinte comentário: “No Brasil, noventa por cento da povoação não tem a quem se queixar e o restante, não tem de que se queixar”. Sendo algo simplista, desvela uma cruel realidade: as instituições não funcionam para ninguém. Tentar resolver as coisas mais simples, por vezes se torna uma tarefa descomunal. A consciência de cidadania, conquista européia, aqui é uma utopia ante prioridades colocadas sempre como escusas.
Na sequência das obras que estou fazendo em casa, roubaram-me a aparelhagem de música. Foi algum dos trabalhadores da empreitada, porque deixaram uma janela aberta, que não foi forçada, uma noite que sabiam que eu estaria ausente. Que coincidência! Criou-me enorme desconforto saber que alguém dos que estavam tratando da pintura ou da carpintaria, no meu lar, quebrou com impunidade essa confiança.
Todos eles juraram pela saúde das suas filhas, resultou curioso que ninguém o fez pelas crianças de sexo masculino, que nada tinham a ver com o assunto.
Quis fazer a queixa. Até dá vontade de rir. Já fui ao posto mais de dez vezes, e até agora nem uma simples denuncia consegui materializar. Palavreado é que não falta. Que a funcionária que trata desse assunto está doente, que o sistema está em falta, que se vale a pena fazer a denúncia, que se parece tão claro que foi algum dos funcionários, já apertou eles?... Surreal! Desesperado perante tamanha incompetência, invariavelmente evasiva, no ultimo dia perguntei irritado se adiantava a minha tentativa de voltar de novo, ao que me “informaram” que se fosse algo mesmo urgente teria que ir a Porto Seguro. Retorqui: “E se não for também, né? Categorizando com a palavra mágica: “Isso!”. Em Porto Seguro também foi inútil, porque estava em falta o carimbo. Nem quis saber qual!
A noção de desamparo foi total. Na Europa és consciente que de pouco adianta fazer uma denuncia de roubo, mas aqui nem esse desafogo foi possível. Desse jeito vira fácil mostrar estatísticas mesmo para argumentos turísticos ou conversas em documetarios. Porque se não há denuncia, também não há delitos. E poupa-se papel, que é bom para a Amazônia.
O meu caso não é nada de especial, mas confrontou-me com esse desleixo acumulado durante anos, que coloca a semente para que exista uma projeção de simpatia ante o arquétipo do Capitão Nascimento, que resolve os problemas da maneira que a própria polícia sugere: “apertando os caras”.



Trancoso cidade sem lei

Uma série de acontecimentos me tem feito refletir e entrelaçar mensagens que navegavam pela minha cabeça de forma inconexa. Houve uma pessoa que serviu de fio condutor para engastar as idéias como miçangas: Wilma. Solicitei seus serviços como professora para me ajudar a distinguir os matizes diferenciadores do português usado em ambos continentes. Ela vive aposentada depois de dedicar mais de trinta anos ao ensino da língua, na sua maioria em Trancoso.
Nos intervalos, marcados pelos seus cigarros, foi relatando-me aspetos locais das últimas duas décadas. Quando chegou aqui nem água corrente existia e a escola estava um caos, pois os alunos não estavam registrados. O índice de analfabetos era superior 80%, aliás como em quase toda a Bahia.
Em Trancoso é habitual se darem casos de extraordinária longevidade. Wilma falou-me de uma velhota com mais de cento e vinte anos, que ainda carrega peso na cabeça e anda do próprio pé. Assegurou que muitos dos nativos nunca saíram, nem vontade tem sequer de conhecer Porto Seguro, que se encontra a escassos 40 quilômetros de distancia.
Um dia, recém chegada a Trancoso, ouviu os gritos de uma vizinha, que se lamentava da queda de um dos seus filhos do alto de uma amendoeira. Tinha roto um braço. “Mas valia ele ter morrido!” – desesperava a mãe. “Agora como vamos fazer? Aqui não há médico e nunca fui a Eunápolis ou Porto Seguro”. Wilma, espantada, se prontificou para levar à criança ao posto médico, a qual voltou com o braço engessado. De fato, na mentalidade da senhora, a morte teria sido bem menos complicada. Filhos era o que mais tinha e até o seu marido era o coveiro, o que facilitava ainda mais as coisas.
Existe no Brasil a chamada bolsa de família, que consiste numa ajuda mensal de R$90 por cada descendente. Isso provocou que muita adolescente trancosense optasse por parir como mecanismo de subsistência. A partir do quinto filho se supera o salário mínimo nacional de R$415. Muitas há que ultrapassam essa quantidade antes de completar a maioria de idade. Como é fácil de imaginar, com freqüência as crianças não recebem os mínimos cuidados. Assim, um filho a mais ou a menos, pode não fazer grande diferença, salvo no orçamento mensal.
Dão-se casos estranhos, como o negão com uma loja de artesanato na rua principal, que vive com duas irmãs na mesma casa e de cada uma tem seis meninos; o que feitas as contas dá mais de mil reais por mês. Outro registro, mais arrepiante, é o caso do cara detido há pouco por estuprar os seus cinco filhos, com idades entre quatro e onze anos. Os vizinhos ouviam os gritos cada noite e ninguém mexia uma palha. Foi a professora da miúda mais velha quem deu o alerta. O pai está preso e as crianças foram a sendas casas de acolhida a Porto Seguro.
Esta semana aconteceu algo até agora inaudito: um assalto com dois mortos. Nos últimos tempos a povoação estava inquieta porque tinham sucedido atos vandálicos em pousadas, postos de gasolina ou supermercados. Desta vez, foi um dos supermercados, dos que já tinham sido roubado dias antes. Entrou o ladrão e ameaçou ao dono com uma arma. Este fingiu que ia sacar o dinheiro da gaveta e o que retirou foi uma pistola que disparou acertando no meio dos olhos do criminal. O parceiro do ladrão, que estava com a moto na porta, reagiu e matou ao dono da mercearia, dando-se à fuga. Uma estranha sensação passou a tomar conta dos moradores e turistas.
Possivelmente sejam os mesmos que atemorizavam o vilarejo, responsáveis por assaltar o motorista que costuma fazer os depósitos bancários em Porto Seguro. Na última oportunidade o motim foi quase setenta mil reais, que pertencia a todo tipo de gente.
Trancoso conta com um posto policial, insuficiente para as necessidades locais. Além de mais, como os agentes estão mal remunerados, acabam por subsistir de favores que os comerciantes lhes proporcionam, o que provoca certa conivência indesejável. É melhor não ter nada a ver com eles para evitar que nos aconteça como ao estrangeiro que veio a Trancoso cheio de notas, querendo as trocar por dólares na agência de viagem e em diferentes lojas. Houve quem falasse à polícia desconfiando que se tratasse de um traficante. Foi preso e levaram-lhe à delegacia de Arraial d’Ajuda. Sem que ninguém tenha esclarecido nada até a data, o cadáver apareceu na madrugada seguinte abandonado na lixeira.
Longe estava eu de imaginar que iria morar num verdadeiro cenário de feijoada-western.



Mãe coragem e os seus filhos

Bertol Brecht, para escrever Mutter Courage und ihre Kinder, se deslocou trezentos anos para contextualizar a narrativa. Anna Fierling, a célebre Mãe Coragem, aproveitou-se dos trinta anos de guerra em Centro Europa, na primeira metade do século XVII, para ganhar dinheiro vendendo mercadorias de forma ambulante. Nesse percurso, perdeu os três filhos, mas seu objetivo nunca deixou de ser senão o negócio. A obra termina com Mãe Coragem sozinha, velha e triste, com a carroça as costas.
Chama-me a atenção como costuma ser utilizado este título tanto para uma ONG como para instituições de apoio à mulher, em diferentes partes do planeta. De fato, Mãe Coragem é um cabeçalho sugestivo, que acabou por virar uma marca. Daí que, mais uma vez e sem ter muito a ver, foi para esta abertura que me veio à cabeça, quando decidi escrever um relato sobre Wilma, a professora de português que arranjei para corrigir este manuscrito em brasileiro.
Wilma é capixaba de origem italiana. Casou-se com apenas quinze anos, procurando emancipar-se de uma mãe particularmente dura, que lhe infernizou a infância. No dia do seu casamento, percebeu que o marido era analfabeto e que as cartas que dele tinha recebido durante o namoro, procediam de um outro Cyrano, que para sempre permaneceu no anonimato. No fundo, ficou sem saber por quem se tinha apaixonado. Em menos de um ano, deu a luz ao primeiro filho, tendo que interromper os estudos. A família aumentou com um adotado e mais dois do casal, quatro em total. O seu marido era mulherengo, bebia, jogava baralho, batia nela e ainda por cima era ciumento. Bingo! Em repetidas ocasiões confidenciou a sua mãe que queria separar-se, pois achava absurdo tanto sofrimento estéril. A matriarca insistia em que só sairia daquela união no caixão, porque não se conhecia mulher da sua estirpe desquitada. Naquela mentalidade, só se separavam as vagabundas e as prostitutas.
Wilma se formou em Magistério, sacando tempo de onde não havia, como tantas mulheres vêm-se obrigadas a fazer. Costurava para fora, orientava a casa e ainda estudava. Começou a dar aulas, mas a situação piorou quando passou em um concurso público estadual, ficando segunda entre mais de dezoito mil concorrentes. Seu marido recusou-se a que tomasse posse, ameaçando-lhe pô-la na rua se assim o fizesse. Ela não queria renunciar ao seu esforço nem ao seu futuro, pelo que decidiu acudir á cerimônia que oficializava seu cargo. Quando voltou a casa, o marido se determinou a cumprir a sua promessa, sem poupá-la um espancamento prévio. Um dos irmãos da Wilma, que a tinha acompanhado até a porta, uma vez que foi alertado das ameaças do cunhado, entrou querendo por fim à violência doméstica. Foi morto no ato por uma bala de revolver disparada pelo homem embravecido. Quando Wilma me contou esta tragédia só me ocorria lhe perguntar que tinha sentido no preciso instante do fratricídio. Ela confessou que nesse momento teve a noção de que o irmão se sacrificou para ela poder viver e que teria desejado ser ela a atingida pela bala. O assassino fugiu e nunca cumpriu condenação, até hoje, passados mais de vinte anos.
Wilma enfrentou a sua mãe, porque de fato o casamento terminou com um caixão, só que não com ela dentro. Nunca mais quis voltar ao Espírito Santo, onde seus descendentes eram tratados como filhos de assassino, até pelos próprios primos.
Wilma chegou a Trancoso na década de oitenta, para organizar a escola e o ensino. Além disso, montou um pequeno restaurante e uma padaria para levar a sua família para frente.
Mas, como as desgraças não costumam vir sozinhas, outro irmão da Wilma matou a sua esposa quando a apanhou em fragrante delito com um amante. Capixaba não perdoa chifre, assegura Wilma, que adotou às duas crianças do irmão, que sim cumpriu condena, e além de mais ficou com outro miúdo que era protegido da sua mãe, após seu falecimento.
Esta mulher deu formação e afeto às sete crianças. Chegou a montar uma discoteca para os nativos, que tinha matines nos domingos para os mais pequenos, com aulas de aeróbica e dança. Na atualidade encontra-se fechada, por diferenças políticas.
Wilma obteve, com o seu esforço, um patrimônio respeitável. Mesmo aposentada, tira rendimentos com o aluguel de suas casas, um táxi e outros pequenos negócios.
A diferença de Anna Fierling, a professora aposentada vê seus netos crescerem e seus filhos e enteados a procuram cada dia, para algo tão rudimentar como saborear um doce caseiro. Wilma não transmite frustração ou lástima; antes pelo contrário: dignidade, resultado de uma vida bem vivida. Mesmo sem experimentar ser amada como mulher. Essa pendência será resolvida por outras almas, que nascerão com o passaporte carimbado para esse anelado destino, onde habitam os seres que se encontram e se fundem no outro. Esses passaportes, de certeza, levarão o seu sobrenome nas próximas gerações.
Esta mulher sente-se uma heroína, e não deve estar muito longe disso. Lástima não ter o talento do Bertol Brecht para render uma merecida homenagem a Wilma e a tantas outras mulheres que, como ela, padeceram e padecem neste país um machismo absurdo, sintoma de virilidades mal resolvidas.




Má vontade

Recentemente reli a carta de sete folhas que o Pero Vaz de Caminha escreveu para o seu soberano D. Manuel I, com motivo da descoberta do Brasil. “A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura, nem estimam nenhuma coisa cobrir nem mostrar suas vergonhas. E estão acerca disso com tanta inocência como têm em mostrar o seu rosto (...). O capitão, quando eles vieram, estava assentado em uma cadeira e uma alcatifa aos pés por estrado (...). Deram-lhes ali, de comer pão e pescado cozido, confeitos, mel e figos; não quiseram comer daquilo quase nada (...). Trouxeram-lhes vinho por uma taça, mal lhe puseram assim a boca e não gostaram dele nada, nem o quiseram mais. Trouxeram-lhes água, tomaram dela bocados e não beberam. Somente lavaram as bocas e lançaram fora. E então estiraram-se assim de costas na alcatifa, a dormir, sem ter nenhuma maneira de cobrirem suas vergonhas, as quais não eram fanadas e as cabeleiras delas bem rapadas e feitas. O capitão lhes mandou por às cabeças coxins e o da cabeleira procurava assaz por a não quebrar. E lançaram-lhes um manto em cima e eles consentiram e dormiram”.
A partir desta narração, marcada por um toque de ternura que nos cativa, muitas atrocidades se cometeram, sustento de preconceitos e ressentimentos entre dois povos que durante séculos foram o mesmo.
As minhas últimas semanas foram passadas em lojas de materiais de construção, lidando com um significativo número de nativos, com mais ou menos talento para as labores que foram contratados. A ideia de aproveitar a minha casa para fazer algo como um turismo de habitação, passou por várias fases. A maioria, impregnadas de arrependimento ante o enorme esforço realizado. Acabou por acontecer aquilo que não desejava, uma verdadeira luta contra o tempo, para ter tudo em ordem antes do Reveillon. Fui contatado por várias pessoas, eventualmente interessadas no aluguel, pedindo-me que lhes enviasse fotografias. O dilema era que o sítio estava abandonado quando eu entrei e só podia mostrar imagens da bagunça que implicava uma reforma. Decidi não estressar e, invés, optei por focalizar a minha energia em realizar as adaptações e os melhoramentos, sem dispersões nem preocupações de rentabilidade. A teoria era boa, mas na prática passei noites sem dormir. Por outro lado, deixei esse desenlace pragmático nas mãos do destino e dos meus pais orixás.
O aposento dos caseiros virou uma charmosa casinha, que lembra mais uma construção de pescadores alentejana que uma arquitetura popular baiana, e foi a primeira em encontrar inquilinos. A casa principal, uma semana antes do fim do ano, ainda estava disponível. Uma manhã, tentando enfrentar o desânimo com determinação, quis resolver assuntos pendentes um a um, passo a passo. No meio dessa encomiável atitude, recebi uma chamada de Portugal do meu amigo Luís, o safado de coração de ouro. Falou-me de uma sua amiga recém separada que, á ultima hora, tinha decidido vir passar as festas em Trancoso com os seus três filhos. Fez-me uma proposta bastante aquém daquela que eu tinha idealizado, mas justa tendo em conta as circunstâncias, já que a casa estava ainda em fase de terminação e acabaríamos por partilhar o espaço, prescindindo de sair sem saber bem para onde. Falei então com a Sofia e acertamos pormenores. Ela chegaria dia 30, após fazer escala na véspera em Salvador.
No dia 29 atendi uma outra chamada do meu amigo Luís, aflito. A Sofia e os seus três filhos tinham sido deportados para Portugal. Fiquei sem fala. Alguma lição deveria de aprender deste pesadelo, e ainda não sabia bem qual.
No dia 30, tive o esclarecimento por parte de uma pessoa que não dava crédito ao que tinha-lhe acontecido. Pelos vistos, o voo tinha saído de Lisboa com quatro horas de demora e a Sofia fez a viagem com complicações estomacais. Na chegada à alfândega, no momento de carimbar os passaportes e entregar, preenchido, o formulário de entrada obrigatório para os estrangeiros, sumiu o documento do filho mais novo. A agente da polícia federal exigiu o papel do Tomás e a mãe explicou que devia ter caído no trajeto do avião até á fila, mas que poderia ir carimbando os outros três passaportes, que estavam em ordem, enquanto expedita preencheria o que estava em falta. A funcionária foi taxativa: “Quero o papel de Tomás, se não o tem, voltem todos ao final da fila!”. A Sofia, algo mal disposta da viagem, refilou ante a possibilidade de ter que ficar mais uma hora à espera e espetou a frase maldita: “É mesmo preciso má vontade!”. A agente federal saiu da cabina aos berros, assegurando que iam experimentar de fato o que era má vontade. Que má vontade era a maneira como os brasileiros seriam tratados em Portugal, nem mais o que estava prestes a acontecer com eles. Sofia foi levada á delegacia do aeroporto. Nos respectivos passaportes apreendidos foram colocados carimbos de intradição no Brasil, por período indefinido. E sem mediar satisfações, foram transferidos para um avião de regresso a casa.
Insólito como duas das crianças, menores de idade, não têm já como vir conhecer o Brasil.
Muitas conclusões se podem tirar desta história. Todas elas tristes. Reflexo de complexos e ódios mal resolvidos, num aeroporto que nos recebe com a frase que da título a estas páginas: Sorria, você está na Bahia!
Levei no cú e nem gocei!




Alguns reais a mais

Um dos aspectos mais bicudos da minha estadia em Trancoso tem sido o relacionamento com o dinheiro. Desde que aqui me instalei tenho sido bombardeado, sem descanso, com pedidos de empréstimos da mais diversa índole. Os postulados são sempre persuasivos e tendem a projetar um sentimento de culpa latente que, sem o mínimo decoro, é transvasado invariavelmente para o prestamista. Não costumam os requerimentos serem feitos para demandas de primeira necessidade. Uma das premissas mais utilizadas é o célebre “vou viajá”. A partir daí, a desculpa flui como torrente após noite de chuva. As alegações mais mirabolantes precipitam-se com aparente descontrole. Costuma meter temas familiares, em concreto de filhos que moram longe e que precisam de remédios, algum troco para ajudar nas despesas escolares ou brinquedos básicos inibidores de consciência.
A Geisa, após a história do celular e de tê-la dispensado quando deixei o apartamento na loja de decoração aonde morava, fez uma tentativa de aproximação. Incauto de mim, achei que tinha algo de espontaneidade genuína. Uma vez que já não era minha empregada, não tive reparo em sair com ela e, em alguma ocasião, trocar beijos e carícias, com diferentes grãos de intensidade. Era um cenário confortável e descomprometido. Mas não demorou em surgir uma nova solicitação pecuniária, desta vez para ir buscar a sua mãe que estava em Goiânia, com um novo namorado. Após semanas sem dar sinais de vida, falou à filha pedindo-lhe que a fosse buscar, porque tinha ficado doente sem saber muito bem de que e não se encontrava em condições de regressar sozinha. Num contexto onde já estava tudo emaranhado, não tive como recusar. Neste caso a quantidade foi considerável, equivalente a dois salários mínimos nacionais. Nunca mais voltei a saber da Geisa, que evitou até hoje atender-me o telefone o devolver qualquer recado da índole que for.
As mais variadas pessoas acodem a mim por ser um gringo sem atividade definida, o que para a maioria é sinônimo de ser milionário. Comecei perceber a importância que tinham sacolas de plástico, pregos, buchas, uma chave de parafusos, tal como um sem numero de elementos simples, cobiçados como nunca achei possível. A reforma da minha casa nesse sentido foi uma grande lição, pois os materiais que ia comprando, sumiam tão rápido quanto o meu saldo bancário.
Pouco a pouco, sem dar por isso, interiorizei a necessidade de colocar um travão, criando mecanismos que evitassem o regresso a situações de caos financeiro, tão familiares para mim em Portugal.
Um dos caras que mais me impactou conhecer, pela sua postura frente á vida, foi o Sérgio, um arquiteto paulista que decidiu ficar em Trancoso há um ano, para não fazer nada. E nada quer dizer nada. Seja qual for a proposta de trabalho recebida, provoca nele um manifesto mal-estar. Em repetidas oportunidades temos paquerado sobre a sua atitude. Ver-se livre de uma das mais penosas consequências do pecado original, não é para qualquer um, sobretudo se foi criado num meio burguês. Sérgio não manifesta sintomas de problemas de consciência. Sente-se bem na sua pele. Se faz sol, está na praia; se chove, gosta de ler ou de ficar em casa com a sua companheira, Laura, uma atrativa e carinhosa argentina que veio a Trancoso com os mesmos propósitos que o seu amado. Entre ambos chegaram a ter quase uma centena de empregados, não há muito tempo atrás. Ainda estão processando a sua ressaca empresarial. Vivem sem excessos, mas também sem carências. Um dia batendo papo, Sérgio avisou-me: “Trancoso não é um bom lugar para ficar sem grana”. Grande verdade. A maioria dos habitantes funciona em condições de precariedade extremas, com um grave condicionante: o desejo.
Penso que as necessidades que as pessoas criam-se aqui, são o principal motivo do seu ressentimento e infelicidade.
Quase todas as relações que estabeleci no Brasil pediram-me favores econômicos. Virou mesmo um pesadelo. Mas as ocorrências mais desagradáveis aconteceram com aqueles que era suposto terem um nível econômico e cultural mais elevado. Aí as artimanhas eram menos elaboradas, mas a pressão exercida superior. Se acabou meu talão de cheques e preciso passar um com urgência para o novo ar acondicionado, mas não te preocupes que é pré-datado e eu colocarei o valor na tua conta em quanto chegue a São Paulo. Como vou te deixar enrascado,“imagina!”. A quantidade de dores de cabeça, chamadas inúteis, promessas enroladas, salpimentadas de um sentido de humor ruim e dispensáveis malabarismos bancários tem marcado as minhas últimas semanas de forma arrasadora.
Sábia a decisão de acabar com esse cancro. Cada vez que agora aproxima-se alguém, com esta lenga lenga, contra-argumento que eu padeço a mesma situação e, que casualidade!, também ia pedir-lhe emprestado nesse preciso instante.
Como era de prever, na tal história do cheque, acontecida com o indivíduo que eu tinha como mais próximo, acabou pervertendo-se o meu descontento numa afronta inaceitável, por exigir o pagamento, cinquenta dias depois de ter caído na minha conta.
Como dizia minha ex-mulher: “Não se fala de dinheiro com gente como nos”. Por isso eu já não sou de ninguém.




A gripe que vem do mar

Não há mais constrangedor do que um esforçado torpe. Por contra, o alcance do transtorno de um preguiçoso fica limitado pelo próprio caráter do indiciado. Mas ai daquele hiperdinâmico que quer mostrar serviço, com o intuito de mostrar serviço! O resultado do desastre, nesse quadro, excede qualquer diagnóstico pessimista, em especial quando a fonte da energia todo-poderosa manifesta-se inesgotável. Por outra parte, é raro encontrar sujeitos que tenham o dom de direcionar e tornar rentáveis os seus talentos. Todos gozamos de algum dom mas, como diriam na Galiza, uns mais do que outros.
Tenho um amigo com nome de bolero cubano que é consciente das suas capacidades, tanto para exercitá-las como para não levar-se a sério no sucesso. Aplica o sentido do humor às suas conquistas, mais do que ao processo em si. Já agora, passa o dia sorrindo. Chama-se Manisero e tem uma nacionalidade indefinida, pertencendo a esse tipo de seres que se adapta a qualquer circunstancia com a facilidade de quem sabe onde pisa. Saber pisar é importante. Dar um aperto de mão, também.
Manisero gosta de viajar e lhe fascinam os aviões. Persuadiu aos seus pais para que assinassem uma autorização, com menos de dezesseis anos, com a que conseguiu tirar as primeiras aulas como piloto, no Paraguai. Coleciona esses modelos de brinquedo que sempre me questionei quem compraria, quando os via anunciados nas revistas das companhias aéreas. Ele os espalha pelo banheiro. Priva os bilhetes em primeira classe, para depois ir em terra de mochila. Assim conheceu a Bahia, numa carona continuada e imprevisível durante um mês, adentrando-se pelo sertanejo em localidades onde o turista costuma ser um figurante de telenovela, mais do que um indivíduo de carne e osso que cruza as suas ruas poeirentas. O critério era simples, quando chegava a uma aldeia procurava a casa que tinha melhor aspecto, batia na porta e perguntava se lhe podiam informar de um lugar onde passar a noite. Sempre foi acolhido logo, quase sempre como convidado. A sua curiosidade generosa conta com a aliança da fotografia. Imagens de olhares de almas que nos tocam em pedaços de papel, que Manisero gosta de pendurar na sua casa. Cada retrato tem o seu enigma, que ganha identidade própria em matizes de branco e preto. Como a bolonhesa que passa a ser da nossa autoria, como se acabássemos de inventar, cada vez que a misturamos com imaculados espaguetes. Certo dia perguntei-lhe por um dos personagens que olhava-me como se as suas pupilas fossem as da mesma terra. Aparecia com um quadro cheio de nomes esgaravatados, na entrada da que era suposto ser a sua moradia. Posava com essa postura que emanam os que levam uma existência sem escolha, dos que lutam e sofrem sem os dramas do excesso de ócio, como uma mula sem tempo; com essa ausência de morte, amedrontada com tamanha intensidade de vida. O Manisero desvendou o adivinha daquele olhar: a particular lista de Schindler fazia referencia aos seus mais de vinte filhos, enumerados na porta de casa para não esquecer dos nomes.
Neste Natal fiquei em Trancoso. Sentia-me como um timoneiro que não podia abandonar o leme no meio de uma marejada de pinturas, rebocos, canalizações, telhas, madeiras, coqueiros, hibiscos e todo tipo de plantas. Organizei um almoço com o pessoal e lá fui perguntando pelas suas respectivas famílias. Cupertino, o jardineiro, que lembra no porte ao prolífico progenitor em branco e preto, revelou que tinha reconhecidos onze filhos, a maioria morando em Brasília e São Paulo. Há advogados, médicos, eletricistas, mecânicos, donas de casa... Cupertino é, de fato, um gerador de existências. Muito há para aprender desta personagem de poucas falas. É um prazer vê-lo mexer na terra. Eu tenho umas unhas rosadas que parecem uma prolongação da minha pele. As dele são como sílex, armas poderosas que aplica para o bem-estar da natureza. São garras enormes. É impossível não reparar nelas, desproporcionadamente grandes, curvadas para dentro, com uma cor mineral esbranquiçada, paleolíticas. Nos olhos de Cupertino sente-se a preciosa dualidade da humildade e a sabedoria. Humildade para reconhecer o que sabe e o que ignora e sabedoria para por em prática, com precisão, a sua bagagem de conhecimento e intuição.
Cupertino é magro, sem gordura, carece de frivolidades corporais e usufrui de uma força que tem origem nas suas raízes de verdade. Por isso estranhou-me que pudesse ficar doente. Ele explicou-me que tratava-se da gripe que vinha da maresia. Achei aquilo uma metáfora ocorrente. Dias mais tarde conheci numa festa a uma bióloga, destacada pelo governo federal, que estava estudando o efeito de uma alergia provocada por uma alga, que se desenvolve em corais que habitam águas cálidas. A Costa do Descobrimento tem uma frente coralina de uns sessenta quilômetros, que a protege de ondas excessivas, resultando geradora de uma fauna e flora marina riquíssima e particular. Chegou à conclusão que existe uma alga vermelha, que se reproduz de forma exagerada no verão, nos dias próximos à lua cheia e à lua nova, devido às suas influências nas marés. Nessa fase emite uma substancia perturbadora para o organismo humano, quando recebida pela via respiratória, não tratando-se de nenhum vírus, nem estando sujeita a contágio. O resultado dessa pesquisa ia ser apresentado na Universidade de Porto Seguro nos dias seguintes.
Ainda há muito que aprender. Aprender a sentir. Aprender a respirar. A ouvir. A calar. A olhar. A ser.



A almofada da minha mãe

A minha mãe nasceu uma quinta-feira santa e morreu na véspera de Natal. A probabilidade dessa sarcástica coincidência é tão remota quanto a minha capacidade de calculá-la. Talvez por essa caprichosa fatalidade, conseguiu desenvolver uma visão própria do catolicismo, onde não era preciso festejar o sofrimento com dor emprestada, nem alegrias com alento carnavalesco.
Desde o instante da minha concepção, resultou-me muito fácil compreendê-la. Sentíamos-nos tão bem juntos que, só com uma verdadeira chacina, conseguiram separar algo naturalmente inseparável, utilizando fórceps como metálicos artefatos apanha-bolas-de-presentes, tão habituais nos bares das rodoviárias. Não percebi tanta teimosia em retirar uma cabeça que nem sequer tinha vontade de completar o seu próprio crânio. Minha mãe, também não.
A Vida, espectadora atenta, ficou entretida com esse imbróglio familiar, fascinada por tamanho equilibro funambulesco.
O destino encarregou-se de levar-nos a uma casa maior quando, de forma misteriosa, mamãe ofereceu-nos mais uma irmã, na mesma despistada. Em momento nenhum, identifiquei qualquer tipo de intervenção paterna nesse acontecimento; pelo que se reforçou o tal espírito de sobrevivência e o ampliei a essa nova criatura. Por uma opção divina, esse anjo renunciou ao análise da realidade, podendo assim amar com liberdade e inocência o resto dos seus dias. A proteção que lhe proporcionei foi a mesma que ela encarregou-se de me retornar, cada vez que a solidão e o desassossego pensam em acampar ao seu entojo na minha intimidade.
A tal casa maior adoecia de excesso de divisões. O meu pai improvisou um escritório, que nunca foi utilizado; minha mãe, um quarto de costura, onde cozinhava prendas temperadas de ternura e bom gosto; também inventaram um cemitério de brinquedos uma vez que, os nossos prediletos, os preservávamos nos respectivos dormitórios. Mesmo assim, sobrava um ambiente pequeno demais para um uso convencional. Minha mãe recriou, naquele cantinho, a sua particular visão da espiritualidade interativa, numa encenação de cândidos personagens natalícios.
Colocou-se uma estrutura, que poderíamos definir como mesa de suporte, sobre a que se armou um tabuleiro e, por cima, areia que trouxemos da praia de Sanxenxo, que achávamos partilharia semelhanças com a do deserto nazareno. Algumas ramas tinham função de árvores; pedras de rochas; e folhas do ABC, de montanhas. O papel de alumínio desenhou uma atrevida cachoeira, onde não faltavam pintinhos, cisnes, pontes e pescadores. Um papel enorme dum obscuro anil, que ainda retenho na memória, mostrava tantas ou mais estrelas que o céu de verdade, cobrindo com candor teto e paredes. Luzes de escassa voltagem e colocação estratégica aportavam sensações de fogueiras e lares. Cada figura tinha uma origem diferente, com a anarquia genética como único padrão, o que facilitava a reciclagem de brinquedos que, de outra maneira, descansariam em caixotes de papelão.
Cada ano, pastores que tanto vigiavam ovelhas mancas, como galinhas com pernas de arame; ou um novo padeiro; ou um pirata que virava pescador; tal como lavadeiras ou diferentes lavradores, elaborados por artesãos que homenagearam suas origens, ganhavam identidade naquele entorno mágico.
Os Reis de Oriente, junto com a sua comitiva, iam avançando um pouco cada dia, em um trajeto que improvisava circuitos ao limite do verossímil.
Havia uma cabana, a modo de portal, construída com caixa de sapato e cortiça, que aportava credibilidade ao conjunto. Não faltavam a mula, o boi, São José, a Virgem e um arcanjo com asas enormes. O presépio, com tudo, estava vazio.
Oculta, baixo da armação que dava suporte a este teatro, ficava pendurada uma sacola do El Corte Inglês, com palhinhas de diferentes tamanhos. A mãe nos explicou que, cada vez que sentíssemos que realizávamos uma boa obra, fôssemos à procura de uma palha e a colocássemos no presépio, para que o Menino Jesus ficasse mais aconchegado. Dependendo do valor que déssemos a nossa ação, assim escolheríamos o nosso pedaço; pelo contrário, quando percebêssemos que nossa atitude não fora a mais indicada, retiraríamos uma proporcional. Deste jeito, o Menino Jesus nasceria com o sustento do carinho familiar, anual e sincero. Tratava-se de uma tarefa que carecia de qualquer tipo de supervisão ou censura, a não ser a da nossa própria consciência.
O Natal estava sempre presente e existia uma intenção e uma dimensão superior que alimentava nosso cotidiano.
O Menino Jesus aparecia no presépio, como sacado de uma cartola, cada vinte quatro de Dezembro. Lembro-me da felicidade no dia de Natal, quando via por fim completo o cenário familiar: o Menino Deus repousando em parte dos meus afetos e, ainda por cima, os Reis Magos um pouquinho mais perto.
O Jesus foi crucificado com crueldade inaudita. Eu fiquei órfão, sendo ainda uma criança. Mamãe foi-se embora uma véspera de Natal e, com ela, o segredo do esconderijo do bonequinho. Ainda não sei, de todos, quem ficou mais desamparado.
A mesma incompreensão que experimentava perante a inveja ou o enigma da vida, senti com a morte caprichosa. Minha inocência fechou-se no caixão, onde deixei de ver o sorriso materno. Mas, antes, fui ao pequeno quarto obscuro onde retirei o confortável suporte de palhinhas, para colocá-lo como almofada de uma longa viagem.
A partir desse dia, muitas coisas ficaram adormecidas, arrumadas nas suas adequadas gavetas, como Branca de neve na penumbra do bosque, esperando um beijo libertador de luz e de sossego.




A poção de gratidão jubilosa

Neste processo de despojamento, resultou complicado emancipar-me do mundo do vinho. Durante anos fui aluno e professor de uma linguagem que permitiu-me uma simbólica aproximação da terra, da videira, do clima e da sensibilidade de algumas pessoas geniais, outras não tanto. Minha preocupação consistia em perceber. Queria entender o que provava, o grau de autenticidade, de sofisticação ou de artificialidade de cada um dos copos que se aproximavam do meu nariz. Cheguei a desenvolver um núcleo afectivo consistente e diversificado num meio que considerava uma fraternidade universal, espécie de maçonaria que criava ténues cumplicidades, porém sólidas, entre os seus membros. E lá fui escalando diferentes grãos, após um período de inicial em que tinha a impressão que não conseguia avançar. Avancei.
Vinexpo é a feira do sector mais importante do planeta, celebrada cada dois anos em Bordeaux. A primeira vez que fui senti-me ridículo. Corredores sem fim mostravam produtores do mundo inteiro. Foi arrasador. Tomei noção de que não chegaria a dominar tal quantidade de propostas. Afastei-me uns minutos, pois me sentia perdido. Percebi que tinha que apreender a dar os primeiros passos, como uma criança. Recebi um banho de humildade, tão necessário quanto estimulante. Mas para aonde me virar? E pensei que porque não pelas minhas principais carências. Então me centrei nos vinhos brancos. Informei-me convenientemente e me aconselharam visitar o pavilhão do Domaine Paul Blanck, um dos estandartes da região de Alsace, desde princípios do século XVII. Grande revelação! Experimentei rieslings da mesma colheita, originais de solos e alturas diferentes, com matizes do granito, do xisto, das reminiscências vulcânicas, dos terrenos argilo-calcáreos ou da areia... Atingi que o meu desafio não passaria por cimentar um conhecimento enciclopédico sem fissuras, mas sim em desenvolver um sentido crítico, que me possibilitasse parâmetros de análises.
Nos encontros sucessivos não dispensei minha visita de rigor a esta pequena empresa alsaciana, que acabou por ser representada em Portugal por uns bons amigos, o que ajudou a estreitar laços. Numa viagem que Philippe Blanck fez a Portugal, para apresentar a sua gama de produtos, combinamos que o levaria ao Douro. Coincidiu com o seu aniversário. Quando soube disso, organizei-lhe um jantar surpresa. Passado uns meses recebi um mail em que me convidava a acompanhá-lo a Borgonha, região que costumava frequentar nas vésperas de Natal, para calibrar a qualidade de cada safra. Era uma das minhas lacunas, pelo que aceitei sem hesitar. Marcamos o encontro em Strasburg, nosso ponto de partida. Não houve um só minuto de desentendimento. No carro ouvíamos canto gregoriano no nascer do sol, conversávamos quando era preciso e partilhávamos silencio sem conflito. De todos os druidas que desvendei, houve um Panoramix que revelou-me a pureza de mil anos de tradição, seleccionando uma planta específica de Pinot Noir, ideal para aquela exposição mítica do Grand Cru de Chambertin. Não me importou gastar uma pequena fortuna numa garrafa de aquele elixir mágico.
Catherine, a mulher do Philippe, estabelecia uma higiénica distância com o mundo profissional do seu marido. Mas quando voltamos da tournê, fiquei hospedado na sua casa, um par de dias. No ano seguinte, prolonguei mais a minha estadia no pequeno vilarejo onde mora o casal com os seus dois filhos, Pauline e Guillome.
Quando decidi vir para Brasil pareceu-me oportuno ir-me despedir deles. Passei com esta família uma semana, pouco antes de começar o Caminho de Santiago. Foi nos Voges que estreie as minhas botas e treinei minha peregrinação. Acordava de madrugada e, após um consistente pequeno almoço, o Philippe dava-me as directrizes necessárias para chegar ao destino, onde ia-me sempre pegar. Durante esses dias não houve qualquer tipo de cerimónia, eu era mais um Blanck e cada noite o anfitrião obsequiava-me com a escolha do que me apetecesse entre a sua garrafeira, verdadeiro tesouro das mil e uma noites.
Num par de ocasiões achei seus vinhos em restaurantes de São Paulo. É emocionante beber amizade na distância. Emocionante.
No momento em que estou permitindo-me criar condições de espaço e tempo para escrever sem desculpas, o casal decidiu vir-me visitar. Queriam saber onde morava e como me sentia. Foi bom partilhar, neste caso, a minha intimidade, construída com esforço, e sentir a cumplicidade destes seres no mesmo ar que eu respiro cada dia e nas águas que me transmitem energia e determinação para perseverar nesta aventura.
Antes da minha partida, consegui vender a minha garrafeira, mas houve um exemplar da colecção que quis poupar, como se ilibe do sacrifício um chifrudo extraordinário numa tourada, e trouxe-a comigo: o Chambertin Grand Cru, de Trapet, 1999. Era, entre mais das duas mil garrafas que guardara, aquela que queria beber numa ocasião especial. Sete anos depois da sua compra, vou abri-la em Trancoso com Catherine e Philippe, o homem do tamanho de Obelix que caiu de criança na poção da amitié amorouse e encontrou comigo com quem partilhar essa tara.
Estranho como há religiões que fazem do vinho a sangue do seu deus e outras o estigmatizam pelo efeito embriagador. Com os nossos anjos brindaremos esta noite, a través dessa seiva de vida jubilosa que harmoniza a cultura, o amor e a natureza. Natureza que dá identidade tanto ao calor prolífico como à fria austeridade fortalecedora de carácter, que diferencia Trancoso de Chambertin. Brindaremos, sim, com gratidão e reverência.



A Juno brasileira

Teclando “Juno” no google as seis primeiras opções ignoram à esposa de Júpiter e rainha dos deuses, centrando-se no filme da simpática adolescente Juno MacGuff que, ficando grávida, decide dar o seu filho em adoção. Apesar de considerar que os diálogos da miúda resultaram-me algo desajustados para uma pessoa da sua idade, gostei da fita. Curto, cada dia mais, narrativas realistas que evitam consignas morais. Nesta longa-metragem, o enredo apresenta um caso de difícil extrapolação. A solução do “legal” que pode resultar a gravidez de uma adolescente, contribuindo ao seu processo emocional e de crescimento, é um dos aspectos a ressaltar no roteiro que ganhou o Oscar. Porém, a minha experiência é bem diferente, pois não conheço pai nenhum que tenha reagido com sentido do humor ante a notícia de que sua filha, na idade da puberdade, iria ser mãe. Antes pelo contrário.
Aos poucos dias de ter visto Juno, encontrei-me com Renato, em São Paulo. Ele, junto com outro amigo, alugou a casa pequenina na altura do reveillon e acabamos por ficar próximos. Tínhamos entretanto trocado uns mails o que permitiu ir estabelecendo laços que revelaram-se bastante firmes. Interesso-me pelas vivências dos seres humanos como mecanismo para criar alicerces de realidade, sobre os quais cimentar as relações de amizade. Desse jeito, entre perguntas e respostas, fui partilhando intimidades com este novo interlocutor.
Renato é natural de Curitiba. Cedo decodificou que o seu desejo o levava a sentir atração por seres do mesmo sexo. Conseguiu conciliar em harmonia essa faceta com a sua trajetória profissional, sendo precursor de apetecíveis sistemas informáticos.
Já com o negócio lançado, percebeu-se que a sua nova secretária, filha de um amigo de longa data, olhava-lhe de maneira diferente. Não querendo alimentar falsas esperanças, combinou um jantar com a intenção de dissuadi-la, com sutileza, das suas expectativas de romance. Serviu-se de pretextos como o da diferença de idade ou a complicação de lances dentro do trabalho. A moça foi bem mais direta, afirmando que esses pormenores eram irrelevantes, já que sabia que ele era homossexual. Não se importava, porque estava convencida que acabaria por apaixonar-se por ela. E assim foi. Tiveram casados sete anos, em que acompanharam a expansão do projeto empresarial que os levou a morar em São Paulo. Eram amigos e cúmplices, porém o Renato não prescindiu de preencher as suas necessidades físicas, com uma permissividade cada vez mais precária por parte da sua parceira. A separação deveio inevitável.
Bem entrada na década dos quarenta, Renato foi cedendo participações do seu negócio, ficando numa confortável posição econômica assim como de flexibilidade de horários.
Certo dia, foi confrontado com a notícia de sua empregada adolescente ter ficado grávida, pedindo-lhe apoio para resolver o entorto. Renato propôs-lhe a adoção da criança. A mocinha aceitou e combinaram que, após o nascimento, arranjariam a papelada e ela seguiria com a sua vida. Aconteceu que Renato pensou que, entre contratar uma babá ou permitir que a mãe biológica tomasse conta da filha, valia a pena optar pela segunda alternativa. Como era previsível essa decisão provocou vantagens e inconvenientes. A convivência entre os dois foi azedando com o passar do tempo. Renato preferiu instalar-se em São Paulo e Mariana, sua filha, ficou em Curitiba, primeiro num apartamento junto com a sua cuidadora e, mais tarde, na casa da mãe do Renato que, bastante doente, precisava de uma pessoa de confiança para exercer como governanta. Entretanto, Mariana foi contando com o apóio das irmãs de Renato que foram supervisando a formação da miúda.
Na atualidade, Mariana tem oito anos e seu pai encontra-se num dilema que pretende resolver com honestidade e eficácia. Renato pensa em trazer a sua filha a São Paulo e intervir mais na sua formação. Morando os dois juntos, permitir-lhe-ia aportar a mocinha interesse cultural e uma perspectiva mais abrangente para os desafios futuros.
Quis conhecer a Mariana e Renato me disse que chegaria nesse fim de semana que seria determinante porque passariam uns dias juntos prescindindo de apoio doméstico, teste para essa rotina que se aproximava.
Marcamos o encontro na Livraria Cultura. Percebia-se uma alegre sintonia entre ambos; sem dúvida, familiar. Os seus olhares eram carinhosos, com códigos de humor semelhantes e uma maneira de sorrir que parecia transmitida pela via genética.
Ficaram-me aromas de generosidade, meiguice e maturidade emocional, junto com interrogantes semelhantes aos que assaltaram-me quando sai da sala do cinema, uns dias antes.
Não aprecio poções mágicas que em aparência deixem os afetos arrumadinhos. Fascina-me a vida, o esforço por querer assimilar, o desafio de nos adaptar às circunstancias sem utilizar critérios preestabelecidos e conseguir tomar decisões orientadas por um espírito de intrínseca justiça.
Gostaria acompanhar no violão e entoar agora a canção com que termina o filme Juno:

You are always trying to keep it real
I'm in love with how you feel
I don't see what anyone can see, in anyone else
But you




Estranho conceito de paixão

Ter nascido homem na Espanha franquista, no seio de uma família católica convicta, não me permitiu grande margem de manobra na relação saudável com a sexualidade e, pelo conseguinte, com a vida emocional. Aspectos fundamentais da minha personalidade foram disfarçados como inexistentes, temas que não deviam nem se quer ser mencionados; sendo lícito arranjar qualquer substitutivo para domesticar à natureza. Como por exemplo o desporto, remédio tão eficaz quanto o fervor religioso. Desde a puberdade entendi que me faltava alguma peça para completar o quebra-cabeça. A carga da culpa ante a mínima concessão carnal em palavra, pensamento, obra ou omissão, fazia de mim responsável e executor da Paixão de Nosso Senhor, que tão fiel retratou Mel Gibson. Maneira mórbida de integrar o conceito paixão, né? Muitos poemas daquela minha fase, são fiéis testemunhas disso. Por intuição, a natureza, nomeadamente o mar, ia surgindo como alternativa. Por isso, talvez esteja agora relembrando aquelas letras, escritas na década dos oitenta, aqui na Bahia.

Aperta com força a minha mão
e deixa-a empapar-se de sangue
para que nasça o grito do silêncio.
No desvies a vista do meu Corpo
que descansa taladrado na madeira
plena de vergonha entronadora.
Saliva, barro, sangue, pranto...
Está pintado em carne viva
esculpido em horror de vida morta.
Tens náuseas de contar o que estás vendo
e não podes arrancá-lo da tua mente
sepultando-o nas tuas entranhas.
E queres trocar o teu coração pelo ferido,
que começa a dormir um para sempre
na vida de muitos homens em desterro.
É impossível marchar-te, olhou para ti,
desenterrando o fedor das tuas misérias.
Não desvies a vista do seu Corpo
tem nascido o grito do silêncio.


Sinto desassossego por ter-me tão perto
com outro eu crescendo dentro de mim.


Hoje me doe viver,
me doe de morte e de contínuo
compreender tanto a alma de um homem,
de um homem cheio de pequenas vidas.
E o meu próprio entendimento se rebela
e quer se sair do meu corpo
e quer gozar a liberdade que sabe
entorpecida agora pelo cansaço.
Não consigo conciliar a força
que gera a minha morte desatada.
Necessito pensar cores,
necessito olhar o mar
e ouvir as ondas.


Quero ir ver o meu mar
porque ninguém o espreita como eu,
tão tristemente cheio de si próprio
desejando fazer-me vida sua.
Quero ir ver o mar.
Me está esperando
o meu mar.

Passei anos de costas para os impulsos mais básicos, rodeado por seres que iam detonando com diferentes graus de histrionismo, ao padecer um diagnóstico semelhante.
No Brasil deparei-me com um povo que lida com a sensualidade, sem conflito. Sendo esse um dos fatores determinantes na decisão de instalar-me entre eles.

Me encontro contigo
Vida
de novo através da Natureza
em solidão,
sedutoramente acompanhada
por uma praia eterna,
Caminho de Santiago
que percorro cada manhã
até doer-me os pés.
Escuto cigarras
em palmeiras acurrucadoras de cânticos
de pássaros com nomes indecifráveis
e sussurros de caranguejos,
transparentes,
acariciando a areia,
onde se escondem
do que se move com torpeza,
como os meus pés,
doloridos
de tanta beleza
suave,
irritantemente
igual a si mesma.
Como tu,
Vida,
a quem quis enganar,
como um travesti,
dias sem fim,
caminhando a toda velocidade,
a nenhuma parte.

Trancoso, a quatorze de dezembro de 2005




A morte da serpente

Neste meu primeiro ano no Trópico fui três vezes a Europa. Tive a oportunidade, ao experimentar o contraste com as origens que configuravam até há bem pouco tempo minhas referências, de ter noção acerca do alcance da minha evolução.
Na última viagem, fui com a Satoko, na intenção de mostrar-lhe o mundo do qual eu provinha, abrindo-lhe horizontes sobre um conceito que, no Brasil, padece alarmantes sintomas de orfandade: a consideração pelo outro.
Satoko encontrava-se num momento complicado, uma vez que tinha tomado a decisão de mexer, junto comigo, no formigueiro dos seus conflitos. Isso fez com que enfrentasse o conjunto dos seus relacionamentos anteriores, os quais lutavam destemidamente para que não houvesse a mínima alteração, dentro dos diferentes mecanismos de manipulação e controle. Esse estado também trouxe como implicação a necessidade de esclarecer as suas curiosidades sexuais. Tarefa tão delicada quanto necessária de ficar resolvida. Mas a teve que decodificar também contra inimigos que não estava a espera, como por exemplo os meus ciúmes. Ainda por cima, algumas das suas inseguranças iam ao encontro de velhas fantasias minhas. Devassadora combinação.
Quanto maior era nossa dose de intimidade, assim ia acrescentado-se, em proporção, a sensação de vulnerabilidade. Satoko tinha a toda hora presente essa pendência, que ia tomando cada vez mais protagonismo no meu espaço mental.
Tizue mostrou seu desagrado pela coacção à que estava sendo sujeita e achei que o melhor era dispor de algum espaço para os nossos últimos dois dias, onde pudesse correr o ar, antes de regressar a Brasil. Assim expliquei e perguntei-lhe onde preferiria ficar. Ao responder-me que perto do mar, reservei uma suite num hotel de Estoril, deixando-lhe o meu cartão de crédito a sua disposição, que não usou, e o meu carro, que recusou por ter vencida a carta.
Como era de prever, Satoko resolveu seu dilema sozinha. Eu deveria sentir orgulho pela sua valentia, contudo não foi o meu sentimento dominante, pois tinha sido excluído. Eu queria ter estado presente. Nos meses que durou o nosso relacionamento, foi diferente o grau de compromisso e, por tabela, de fidelidade. Mas esse desfecho ultrapassou-me.
Como o nosso voo saía de Madrid, fomos de carro desde Portugal. Nessa madrugada, o silencio tomava conta de tudo, de forma triste por sinal. Num determinado momento, minha pele roçou a sua e senti o que sempre experimentava com a Satoko, paixão. O toque foi revelando desejo, cumplicidade, raiva, tesão e, desse jeito, sem mediar palavra, desviei-me para fora da rodovia e parei o carro. Puxei a Satoko fora e nos entregamos de forma selvagem. Ouviam-se os outros veículos passarem. Terminando, acompanhei-a para abrir-lhe a porta e reparamos que uma serpente esfarrapava-se nos seus pés. Não estava aí quando a gente chegou. Interpretei-o como um sinal de que tínhamos conseguido exorcizar qualquer coisa, aniquilando algum misterioso impedimento. Essa imagem, ainda hoje, não sai da minha mente.




Que o desejo viva em mim!

Nas três semanas que durou o nosso périplo europeu, ficamos sempre com familiares e amigos, lugares diferenciados, com comodidade, segurança e bom gosto. Mas, para o fim, fiz questão de passar uns dias em casa da Pipoca, por ter a idade da Satoko e porque dividia o apartamento com uma colega estudante. Pipoca será a pessoa em quem eu deposito mais confiança, tendo ela procurações totais para resolver qualquer questão minha em Portugal. Sua mãe, Amélia, é uma das minhas melhores amigas. Conhecemo-nos há doze anos, a metade da idade da sua filha, a quem acompanhei tanto no seu crescimento, como na sua emancipação quando veio estudar na Universidade em Lisboa e Amélia pediu-me que tomasse conta dela. Foi o que eu fiz, até que em determinada altura Pipoca começou a tomar conta de mim. A nossa sintonia sempre foi enorme.
No fim, Pipoca explodiu, revelando-me que desde sempre esteve apaixonada por mim e que tentou lutar contra isso a vida inteira, ficando-lhe claro no momento que eu marchei para o Brasil, não conseguindo aguentar mais. O fato de eu namorar uma mulher da sua idade, também não ajudou. Apanhou-me de surpresa. Conversamos bastante e projectei a questão, como um guardardes bateria na bola em momentos de desespero para marcar um gol salvador. Tentei, na distância, ganhar alguma perspectiva e objectividade, pois devia, antes de tomar qualquer tipo de atitude, resolver o meu relacionamento com Satoko.
Pipoca, entretanto, abriu o jogo a amigos e familiares, com reações de profunda contrariedade, fundamentadas na minha personalidade inapreensível, o que me convertia em alvo de qualificativos com um denominador comum: colocar o anátema no meu sentido de liberdade. Assim eu era pervertido, promíscuo, instável, drogado, homossexual, afirmações categóricas que não admitiam contestação. Pipoca, não entanto, mantinha-se incólume na sua resolução.
Mesmo em outro Continente, nem com a minha imaginação conseguia erotizar meu trato com Pipoca, mas achei que devia de enfrentar a situação, para perceber sem hesitações. Devia-lhe isso a ela e a mim. De alguma maneira, encarnava aquilo que sempre anelei achar numa parceira: sentido de humor, inteligência, admiração mútua, respeito, dedicação, consideração, afinidade educacional e prazer em agradar. Mas faltava o toque.
Pipoca poupou o dinheiro suficiente e pagou-se o vôo a Trancoso, para passar comigo o Reveillon. Gosto da sua presença, mas, desta vez, existia uma demanda de reciprocidade que se verificou não correspondida, acordando diferentes variantes de frustração, em ambos. Voltava então a um conflito antigo: o desejo e a paixão mal resolvidos.
Pipoca, tal como eu na sua idade, desenvolveu dispositivos de proteção, ante o grave pecado de permitir-se sentir. Nela se manifestaram na forma de uma somatização cutânea, como se a sua pele estivesse num constante estresse, por ter que suportar uma pressão interna, desproporcionada.
Foram desgastantes as conversas sobre o desfecho de um amor nunca consumado. Mas uma coisa ficou clara: o firme propósito de prestar atenção ao meu próprio desejo, por mais perturbador que isso possa vir resultar para terceiros. Passei tempo demais na minha vida tentando comprazer aos outros, como maneira de fugir de mim próprio. Chegou o momento de procurar o equilíbrio e aceitar-me como sou. Aceitar o que sinto e experimentá-lo. Seja no Brasil ou na China.
Cada vez mais sentia falta da Satoko, que aproveitou a nossa separação para emancipar-se, confrontando-se com todo e todos. Foi morar num minúsculo apartamento, sem nenhuma das regalias que usufruía dos seus pais, mas feliz por conseguir ser ela própria. Feliz por conseguir ser mulher. Feliz por conseguir ser pessoa.
Saudade de aqueles mensagens que deixava-lhe na sua caixa de correio:

«A vida, para mim, é melhor contigo, mesmo que não sinta tua pele. Quero e sinto necessidade dessa pele, de ouvir tua voz, de te ver acordar, de te acompanhar ao chuveiro, de te ajudar a tomar banho, de sentir o cheiro do spray do teu desodorante, de contemplar como escolhes a roupa e observar como vás colocando as peças, uma a uma, sobre um corpo que toleras e que acho lindo. O corpo onde gosto de receber amor, ternura, carinho e cujo suor me complementa e me mostra que sou homem desejado por uma mulher especial.
Falo de ti, porque estás em mim. Falo de ti porque quero que continues em mim. A maior prova de amor consiste na liberdade e no uso que fazemos dela e eu te quero mulher livre. Mas, ao mesmo tempo, isso custa-me, porque amo-te e o sentido de possessão, as tradições inculcadas e o egoísmo de te ter, estão presentes. Por vezes, com sutilidade. Por vezes, de maneira peremptória. Mas me acompanha o sorriso de por fim pensar em ser homem: amigo-amante-amado-irmão-filho-pai. E o sentimento de paternidade é algo que, durante anos, esteve ausente ou pelo menos oculto; mesmo no meu casamento. Agora não, agora não me assusta, agora há um ser humano que me serve de espelho e de desafio, ao qual admiro e me complementa, com o que penso que posso aprender, ensinar e dimensionar-me.
Não dormir abraçado a ti me parece um desperdício e dormir abraçado a alguém que não sejas tu, um absurdo».




Aprender a perdoar

Não sei que seria da minha vida sem internet. Lembro-me quando comprei o primeiro computador e resignei-me a incorporar o esquisito artefato nas minhas labores como jornalista. Na Universidade, que deixei na década dos oitenta, a informática não tinha formatos de acessibilidade. Também na minha juventude não curti com nada parecido a um play station. Bom, a dizer verdade até hoje nunca peguei em nenhuma. Já me chega com o vício das paciências do portátil!
De todas as possibilidades que a rede coloca a nossa disposição, a que mais aproveito é o correio eletrônico, que contrasta de forma gritante com o funcionamento postal na Bahia, onde as cartas driblam até a previsão mais pessimista. Tive além disso que me acostumar aos aborrecidos SPAM e a procurar sistemas eficazes de os combater. Ainda virei vítima dessas mensagens de paz e amor que transmutam-se em perversos trabalhos de vodu, quando ousas quebrar a suposta corrente. Ante tamanha invasão, raros são os anexos que abro e mais ainda aqueles que me surpreendem pela positiva. Guardo, não entanto, dois. O primeiro mostra a Eleanor Powell e Fred Astaire, no filme Broadway Melody, de 1940, sapateando Begin the Beguine, de Cole Porter. Para alguns entendidos, o melhor número desse gênero, de sempre. A dança foi filmada em uma única tomada. Como comenta o Frank Sinatra, no áudio sobreposto, nunca mais se verá algo assim! Desde criança sonhava com ser bailarino, e Fred Astaire teve bastante a ver com isso. O outro, também é um clip de dança, porém mais atual. Trata sobre um tipo, Matt Harding, que baila com torpeza ao som de Sweet Lullaby, de Deep Forest, em diferentes lugares do planeta. Em ambos casos a boa disposição é contagiante. Fazer amor e dançar são as manifestações humanas que mais nos aproximam do divino. Matt, natural de Conneticut, tem trinta anos e, além de ser um alucinado dos videojogos, adora viajar. Com as suas primeiras poupanças, começou a dar a volta ao mundo, gravando-se a si próprio pulando de forma desarticulada, nos lugares com os que sentia afinidade. Pendurou um vídeo na net e teve tanto sucesso que agora passa grande parte do seu tempo de um lado para outro, brincando e dando conferências. Tem um site engraçado, que no princípio construiu para manter informada aos seus achegados: wherethehellismatt.com.
Curiosos são os argumentos que nos levam a partir e a conhecer realidades diferentes das habituais; que nem sempre correspondem com as respostas que a vida encarrega-se de nos revelar.
O Matt conseguiu conciliar sua paixão por viajar, patrocinado por uma empresa de pastilhas elásticas, com seu trabalho de programador de videojogos.
Nesse fio da meada, me vem à cabeça a biografia de Christopher McCandless, narrada no livro Into the Wild, escrito por Jon Krakauer em 1996, e que recentemente foi levado ao cinema por Sean Penn. Christopher, uma vez terminados os seus estudos numa universidade norte-americana, começou uma viagem com o objetivo de chegar a Alasca desapegando-se das estruturas de aparente segurança. Doou as suas economias a uma instituição benéfica, abandonou o carro no início do percurso e renunciou a qualquer tipo de contato ou apoio familiar. A história bateu-me forte, pelo radical da sua decisão e porque o protagonista só alcança a paz quando percebe que vai morrer e decide, então, perdoar. Perdoar-se a si e perdoar aos seus pais. Muitas voltas tive que dar, a minha maneira, para conseguir–me perdoar, tal como ao meu pai.
Quando fiz o caminho de Santiago, um antigo namorado da minha irmã sugeriu-me, pernoitando na sua casa ao princípio de ter iniciado a marcha, dar-me carona para visitar o túmulo do meu pai, a uns cem quilômetros de distancia de onde estávamos. Apanhou-me desprevenido. Ele era depositário de arcaicos conflitos familiares. No dia seguinte, foi me buscar no ponto que tínhamos combinado e chegamos ao cemitério, uma hora mais tarde. Era já noite. Pulei o muro e, mesmo na escuridão, não resultou complicado achar a sepultura. Fiquei meditando uns instantes e formulei o seguinte pedido: “Pai, não sei onde te encontras; mas se por minha causa estivesses encravado em algum lugar, vai em paz”.
E assim fiquei eu também, em paz.



Itaca no pensamento

O João candidatou-se a um programa de intercâmbio universitário para cursar seis meses de Gestão no Rio. Boa maneira de emancipar-se do desencontro amoroso com a prima carioca e dos arquétipos lusitanos. Aproveitou a sua oportunidade e organizou-se no primeiro fim de semana prolongado para fazer-me uma visita em Trancoso. Estávamos na praia, quando um cara sorridente perguntou-nos se éramos portugueses. João assentiu, informando-lhe que eu era um português nascido em Madrid. Começamos aí uma animada conversa que colocou as bases de uma nova amizade.
Chico é um engenheiro de sistemas que fez algum dinheiro desenvolvendo projetos informáticos na Europa. Com as suas economias, comprou e arranjou algumas casas antigas em Lisboa, que agora aluga por temporada e, com os rendimentos, passa o ano deixando-se levar de um lado ao outro do planeta.
Estava há três meses no Brasil e parou uns dias em Trancoso, antes de dirigir-se a Salvador.
No início, Chico falava muito de si, das suas experiências, do maravilhoso que era viajar solitário. Existia certo componente terapêutico no seu papo, como se discursando com estranhos conseguisse estruturar pensamentos e emoções. Parecia que procurava justificar-se e até convencer-se de que a ausência de compromisso era a única opção sustentável para o seu tipo de vida.
Manifestou que precisava do contato humano e que gostava de estabelecer ligações em todo lugar. Mencionou com desagrado uma recente estadia numa praia selvagem em João Pessoa, onde não achou viva alma.
Deu para perceber que Chico gostava de sentir-se livre em segurança, podendo ignorar aonde ia, mas tendo claro aonde voltar.
Com o seu relato experimentei nostalgia dos meses transeuntes que precederam ao meu assentamento em Trancoso, tal como da energia que me levava a conversar com todo o mundo, querendo tirar o máximo proveito de cada ser humano que se cruzava no meu deambular, estimulado pelo efêmero desses encontros. Agora, começo a lidar com a rotina e a perceber-me de matizes que precisam de outro tipo de atenção.
Chico não leva livros nas suas viagens, mas busca jornais e revistas, assim como assistir aos noticiários na televisão para entender o que rola em cada destino. Mostrou algum desconcerto quando lhe afirmei que eu não espreitava jornais e ainda não tinha visto um só noticiário no Brasil, pois estou mais atento às emoções que me rodeiam.
Confidenciei que me encontrava ansioso pela visita de Satoko, após termos decidido reformular nosso projeto de vida comum. Chico não disfarçou seu cepticismo, pois não professava muita fé nos relacionamentos estáveis e tinha reticências pela nossa diferencia de idade.
João voltou ao Rio na véspera da chegada da Satoko; porém, o Chico ainda ficou alguns dias conosco. Gerou-se um clima familiar e, a medida que foram passando as horas, Chico foi manifestando-se mais descontraído, pelo tanto mais exposto; deixando transparecer o seu lado mais humano, em definitiva.
Ficou cativado pela alegria e beleza da Satoko, assim como pela nossa cumplicidade, sustentada na mutua admiração e no sentido do humor. Admiro Satoko por ter sido capaz de enfrentar os seus medos, reformular seus vínculos familiares com inteligência e amor, desprendendo-se de privilégios econômicos que exigiam em troca tributos em forma de percas de liberdade.
Satoko e minha irmã Tete são provas irrefutáveis do benéfico que pode chegar a proporcionar o psicanálise, em pessoas que estejam determinadas a tomar as rédeas do próprio destino e possuam a sorte de dar com o interlocutor adequado. Tete é a única pessoa que conheço que foi capaz de vencer o vírus da inveja, que a consumia desde criança.
Chico revelou-se reticente e crítico, frente a essa possibilidade de ajuda. Considerava que o mesmo efeito poderia se obter através da conversa com amigos ou mesmo com sucessivos desconhecidos, como acontecia nas suas viagens.
Na realidade, quase tudo da para fazer-se sozinho: uma casa, um barco, tratar da saúde, dos problemas jurídicos... Não obstante, os resultados nem sempre serão iguais que sendo executados por profissionais competentes. O mesmo acontece, apesar dos preconceitos, no nível emocional. Convém distinguir, mesmo assim, entre problemas mentais e comportamentais, que até costumam estar interligados, mas são registros autônomos.
Ganhar distância daquilo que nos limita e poder centrar as nossas energias para desentupir sentimentos, acho duas funções impagáveis de um bom terapeuta. Sobretudo, faze-lo sem interesse próprio, evitando que as opiniões estejam sujeitas as manipulações que surgem inevitáveis entre sócios do mesmo negócio vital.
Satoko expus como esse componente de isenção do seu psicanalista foi determinante no seu processo de libertação, e como foi necessário criar um espaço higiênico para poder resolver equações transcendentais, sem que as necessidades de um se misturassem com as fantasias do outro.
Cada pessoa tem um caminho a percorrer, de acordo com as suas capacidades. E, nesse caminho, é um privilégio compartilhar. Mas convém ter claro o que podemos partilhar, com quem, quando, onde e de que maneira. Tarefa de uma vida.
Vale a pena lembrar o poema de Kavafis:

Que sempre Itaca esteja no seu pensamento.
Chegar lá é o seu destino.
Mas nunca apresse a viagem.
É preferível que demore anos,
que seja velho quando alcance a ilha,
rico com tudo o que terá ganho no caminho
sem esperar que seja Itaca a que lhe faça rico.
Itaca deu-lhe uma viagem maravilhosa.
Sem ela não haveria partido.
Mas ela já não tem mais que dar-lhe.




O oráculo do chiclete

Uma das perguntas da praxe que aponto, quando conheço a alguém em Trancoso, é como conheceu este lugar e, na medida do possível, descobrir a história que pode haver por trás de cada um.
Na última viagem que o Francisco fez para me visitar, chegou uma tarde a casa querendo-me apresentar uma amiga que acabava de achar na praia. Tratava-se de uma cliente do restaurante, que estava instalada havia um par de meses no vilarejo, para escrever um livro, baseado na experiência de ter passado quinze meses deambulando por diferentes países asiáticos. Arabella é uma jovem jornalista brasileira, que decidiu conceder-se um ano sabático e partiu desde São Paulo sem rumo definido, a princípio de 2007. Alegrou-me conhecer uma colega que se encontrava em condições e desafios semelhantes aos meus. Ela levava pouco mais de um mês, com bastante disciplina, na tentativa de completar um relato por dia. Foi estupendo poder trocar diferentes abordagens á hora de planejar uma narrativa.
Começava a sua jornada com um grupo de crianças, que foi crescendo a medida que o fez a sua estadia. Tanto as punha música para que dançassem, na casa que lhe tinham emprestado no Quadrado, como lhes proporcionava canetas de cores para que se entretivessem desenhando ou dava aulas de inglês. Em função do clima, dava um passeio pela praia ou se sentava frente ao computador. Apenas saia e se sentia bastante satisfeita com a produção obtida até aquela data.
Arabella tem vinte e nove anos, é do jeito magro e resulta muito fotogênica, em parte pela espontaneidade do seu sorriso, que se expande por todos os ângulos do seu rosto, o que permite ressaltar seus enormes olhos azuis. Participou-me que levava um ano em estado celibatário, aspecto que não lhe tinha suposto grande conflito, pois assim valorizava o aparecimento do seu príncipe azul.
O mesmo dia que veio a jantar a casa pela primeira vez, tinha conhecido outro espanhol, que estava passando um mês aqui. Não tardamos em marcar um encontro de confraternização. Manuel, um charmoso andaluz, havia quatro anos que passava as suas férias em Trancoso, fora da temporada, pois exercia como team manager de um equipo de futebol espanhol. Sua função me pareceu genial, uma vez que se encarregava de facilitar a vida dos jogadores em aspectos burocráticos, logísticos e de adaptação. Desde os ajudar a procurar moradia, até apresentar-lhes pessoas, sugerir restaurantes ou recomendar infantários ou colégios para os filhos. Desta maneira, se otimizava a energia para a concentrar ainda mais em uma dinâmica de equipe. Pensei que seria uma excelente alternativa se algum dia me animasse na idéia de integrar-me em uma estrutura empresarial.
Tanto Arabella como Manuel não ocultaram a sua mútua atração, estimulada pela próxima partida do rapaz, que tinha que se reincorporar a suas funções em menos de uma semana.
Os acontecimentos se precipitaram com a saída do jovem latino. Arabella foi solicitada com urgência para voltar a São Paulo, antes do previsto, para encarregar-se da edição de um especial de noivas de uma revista feminina. Ironias do destino. Entretanto, ela ia matutando a possibilidade de ir a morar a Espanha e apostar no impulso da sua intuição. Era um assunto delicado, porque apenas se conheciam, ela tinha estado quinze meses fora e tinha questões no ar, como o seu futuro profissional, por exemplo. Para dar-lhe um pouco mais de chispa, recebeu uma proposta para ser editora de um novo projeto, no grupo de mídia mais influente do Brasil.
Neste estado de ansiedade, Arabella reclamava sinais e parâmetros de segurança. Difíceis de combinar como os impulsos do amor. No seu regresso à capital prometemos que ficaríamos em contacto.
Vale a pena reproduzir parte da mensagem que me enviou uns dias mais tarde: “Pensei, pensei e pensei. Ontem, acordei disposta a mandar o emprego às favas e fugir para a Espanha. De manhã, liguei para minha amiga Maria Rita, a diretora da revista que vai fazer o especial de Noivas, apenas para ela me ajudar a bolar uma boa resposta de recusa. Ela, então, me convidou para almoçar. Eu lhe disse que tudo bem, mas nada que dize-se me faria mudar de opinião. Ela foi tão a favor do emprego, que conseguiu me deixar confusa outra vez. A Rita, então, teve a idéia de permitir a sorte decidir. Eu não conhecia, mas existe um chiclete chamado Bola de Cristal, que solta uma tinta colorida quando você morde. Sim é verde, não é laranja. Estabeleci que, se a cor fosse verde, eu iria para a Espanha. Se fosse laranja, eu ficava. Deu laranja”.
Eu lia o correio completamente fascinado. O relato continuava: “Enquanto Rita e eu caminhávamos em direção à banca de jornal, onde compraríamos o tal chiclete, apareceu uma outra personagem, um amigão nosso chamado Ricardo. O aparecimento dele não é um fato qualquer. O Ricardo é um amigo que manda na minha vida. Todos os grandes passos que dei nos últimos cinco ou seis anos tiveram um empurrão dele. É meu confidente e talvez a pessoa a quem eu mais escute, tanto é que há anos o chamo de Oráculo”. A minha curiosidade ia em aumento: “A solução do Ricardo foi a seguinte, pega o emprego (que só começa de aqui a um mês) e vá agora para a Espanha. Fica com o cara e vê no que dá nesses dias. Foi o que fiz, Alfredo. Aceitei o emprego e embarco para Espanha no sábado. Muitas coisas me levaram a tomar essa decisão. Mas o mais decisivo é que o aparecimento desse emprego vai fazer o relacionamento amadurecer um pouco antes da gente resolver ficar junto, se isso efetivamente acontecer - tomara! Eu pedi para ele o prazo de um ano, tempo suficiente para sair do trabalho numa boa e fazer uma poupança. Durante esse ano, a gente pode se ver algumas vezes, como no Natal, quando posso ir para lá, e durante as férias dele. Fora isso, tem os feriados de três, quatro dias, tipo carnaval (eu sou bem louca a ponto de pegar um avião para passar três dias na Espanha, tenha certeza). No final de um ano, a gente decide onde vai ficar, porque eu também não quero namoro à distância”.
Os seus argumentos eram mesmo consistentes: “Olha, Alfredo, eu poderia recusar esse emprego e ir - ainda posso fazer isso. Só que acho muito, muito complicada a idéia de não ter saldo na conta bancária. Já me imaginou pedindo dinheiro ao Manuel para ir ao cabeleireiro? Não dá... É desgastante para mim e para ele. Tem outro detalhe: minha família surtou. Meus pais não conhecem o Manuel e estão preocupadíssimos. Se a gente adiar um pouco minha ida para lá, dá tempo dele conhecer minha família, eu a dele, e deixar todo mundo tranquilo. Porque, embora o Manuel não tenha me dito, a sua família também deve estar apreensiva. Sei muito bem qual é a fama da mulher brasileira no exterior. No mínimo, acham que quero me aproveitar, dar o golpe da barriga, essas coisas. Trabalho respeitável e dinheiro no bolso me dão outro status perante eles, você não acha? Enfim, o Manuel continua sendo uma prioridade para mim. Só acho que posso usar esse emprego para criar uma base mais sólida para uma relação a longo prazo. Se a gente suportar o sacrifício da saudade, nesse primeiro momento, terá melhores condições para começar uma vida juntos, num futuro próximo. Tenho quase trinta anos, é hora de começar a pensar com a cabeça também”.
Fiquei convencido e achei a parte do chiclete maravilhosa.
Nesses dias tinha como hóspedes, na casa pequena, a um grupo de chilenos que haviam conhecido a Arabella, antes dela partir. Ao participar-lhes do tão original oráculo, eles me contaram a história de uma amiga chilena que veio a Trancoso a princípio dos noventa e ficou uma década. Atenção que não tem desperdício. Francisca era professora de uma escola de Montessori em Santiago. Dava aulas de filosofia aos adolescentes, que a adoravam pela sua componente transgressora, que passava por comentários sobre a excelência do coito e o benéfico que era o sêmen para a pele, que aconselhava utilizar como loção facial. Não tardaram em expulsa-la e a contrataram a seguir em uma escola da competência. Um dia, farta de tanto patricinho, lançou uma pergunta no ar: “Quem de todos vocês tem a possibilidade de se ganhar a vida?”. Houve um só candidato que levantou a mão. O cara, de quinze anos, assegurou que poderia subsistir como instrutor de tênis. A professora, próxima dos quarenta, propôs ao avantajado aluno que fosse com ela a Trancoso e assim o fizeram. Hoje, passados quase vinte anos, continuam juntos, no Deserto de Calama, onde trabalham como caseiros em uma fazenda.
E você, como poderia se ganhar a vida em outro Continente? Talvez, como vendedor de chicletes da Bola de Cristal, na saída de uma escola, ne?




Começar de novo

Nossas vidas são entretecidas por uma concatenação de acontecimentos, provocados por atitudes. Atitudes essas que nem sempre são de nossa responsabilidade. Muitas vezes, sua origem parte de decisões que tomaram por nós, antes de apontarmos indícios de livre arbítrio. Os medos, receios e inseguranças soem atuar como detonantes, resultando identificáveis se tivermos coragem para iniciar um trajeto regressivo, que nos permita espreitar no microscópio da nossa história. Normalmente, não apetece. Daí que a imaginação e os sonhos gozem cada vez de maior proeminência, estimulados por uma sociedade de consumo, eficaz geradora de expectativas de desejos, quase sempre estéreis. Quem não teve a vontade de tentar começar de novo? Nem sempre é fácil, porém mais exequível do que forma tão brilhante pretendemos refutar. Pode não precisar de mudanças radicais e talvez baste com ligeiros ajustes, como num carro em manutenção.
A minha decisão de ir morar a um país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, como celebrizou o samba, vai ao encontro das necessidades, mas também das fantasias, de muita gente. De todo modo, convém considerar que as dispersões que eventualmente nos desajustaram do nosso eixo, prescindem de enquadramentos geográficos e nos acompanharão onde formos, a não ser que levemos a bom fim transformações internas. As tais mudanças de atitude, rompedoras de conseqüências previsíveis. O perverso é que essa previsibilidade costuma usufruir de um efeito reconfortante, de aparente segurança.
Em Trancoso a solidão apresenta-se nua. O que tem seu toque de ironia, pois é proibido o nudismo, aliás como em todo o Brasil. Qualquer gatinha sabe da eficaz sedução provocada por uma mínima marca de biquini no seu corpo bronzeado. A solidão aqui não tem marcas.
Em algum momento estabelece-se algo parecido à rotina, o que acontece com diferentes graus de consciência. O clima domina o nosso quotidiano. É difícil resistir à praia nesses dias que o céu está limpo, o sol se manifesta poderoso e a brisa nos traz o sussurro do mar, como canto das sereias caminho de Ítaca. Nas épocas de chuva, restando às plantas, nada está acondicionado para os assíduos dilúvios, nem as casas nem as almas.
A maior parte dos habitantes de Trancoso depende do turista na sua economia de supervivência e isso se impõe, numa espécie de simpatia fraudulenta, difícil de cauterizar, a não ser que se crie uma redoma que tudo o proteja. Há quem consiga, a base de empregados que resolvem a logística e seguindo a risca certos códigos de prevenção. Existe um aeroporto privado em Trancoso, para avionetas e helicópteros; um campo de golfe com dezoito buracos; uma pousada Relais&Chateaux mesmo a beira mar, com um seletivo atendimento; praias quase desertas, sem barracas, só com o serviço das casas particulares; e está o Quadrado, para o fim de tarde, com os seus restaurantes e butiques a preços europeus. Já conheci bastantes pessoas que vivem aqui com uma limitação de movimentos rigorosa, para evitar qualquer tipo de contágio. Não é meu caso.
Mesmo morando mais da metade da minha existência perto do mar, nunca fui um grande freqüentador da praia. Resultava-me penoso não conseguir mergulhar a vontade numa água com uma temperatura que inevitavelmente provocava-me um choque térmico desagradável. Cada vez que pretendia tomar banho surgia um alerta de sacrifício que gerou em mim desconfiança até hoje. Mantenho o meu receio ante a observação sedutora do Atlântico. A diferença é que agora a minha surpresa é pela positiva. Aqui tenho a sensação de entrar num liquido amniótico afável, aconchegante, como se a água estivesse a minha espera para fazer-me sentir parte de uma essência, que esteve antes ausente.
Trancoso está equidistante do Trópico e do Equador, o que lhe permite sofrer ligeiras oscilações térmicas durante as quatro estações do ano. Só em algumas noites de julho dá vontade de vestir manga comprida. Há cá um italiano que ainda não o conheço com camiseta no corpo, passa o dia inteiro de sunga.
Quando vim, pela primeira vez, senti que havia qualquer coisa que não batia certo e fez-me sentido pensar numa reformulação de vida. Passada já a fase de euforia inicial de curtir a novidade e deixar de ser, assumido ou não, centro de algumas atenções, não resta muita alternativa: ou se cede a uma passividade inibidora de consciência ou entra-se num processo de desintoxicação anímica, mental e corporal.
Como dizia o príncipe Salina em Il Gattopardo, é preciso que algo mude para que possa ficar tudo na mesma. Porém se o que pretendemos é que as coisas não continuem na mesma, deveremos colocar soluções nos problemas diagnosticados, devindo inevitável a crise. É fundamental conferir o que pode ser refeito, sem deixar de analisar e determinar o ponto a partir do qual poderemos reconstruir a nossa vida, não para alterar o passado, mas para tentar encaminhar-nos a um futuro coerente, a partir de um presente que tenha a ver com nossas prioridades.
A atenta solidão veio-me resgatar da frivolidade da dispersão.
Algumas vezes, junto com a valentia de avançar, é preciso humildade para retroceder. A escrita e a leitura, nesse sentido, revelaram-se aliados inestimáveis.
Neste processo estou aprendendo a transitar do plano da imaginação ao da realidade. Oxalá o consiga!




Ao meu avô, esse outro Alfredo Hervías
Fuzilado em Badajoz, 1942
In memoriam

Não desejo mais competição no amor,
nem ser constante objeto de concurso,
escravo de carícias que perfilam parâmetros
de líneas presentes e invisíveis,
mecanismos mensuráveis de palavras
que começam por mais que,
ou algo assim como menos que,
projetadoras de registros de sentimentos de culpa,
independentes do resultado do veredicto.
Não desisto da possibilidade da entrega
sem que isso suponha um suicídio
ou, pior ainda,
uma rubrica da própria sentença,
de uma morte anunciada e sem julgamento.
Como o meu avô,
esse outro Alfredo Hervías,
fuzilado por pensar
e não querer fugir.
Ao menos, soube
a data da sua execução,
efetivamente, sem julgamento,
preparando, assim, a sua entrada
nesse mais além
que apregoavam
os que pressionaram os gatilhos,
por não aceitar a diferença,
simplesmente, olha só,
de recusar à renúncia
de querer ser
esse outro Alfredo Hervías.

São Paulo, a cinco de dezembro de 2007

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